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15 de set. de 2018

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS

Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!
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13 de set. de 2018

A obra do selamento já começou?

Já vimos que o anjo selador é o terceiro anjo (Ap 14:9-13). Logo, a obra do selamento teve início
quando o anjo começou a sua obra. Foi em 1844, quando foi revelada a verdade do Sábado.
" ‘Foi-Lhe [a Deus] muito agradável quando Sua Lei começou a crescer em força. Essa verdade
surge e está em crescimento cada vez mais forte. Ela é o selo! Está chegando! Surge, vindo da
banda do sol nascente; como o Sol, a princípio frio, se torna mais quente e envia seus raios. Quando
essa verdade surgiu, havia apenas um pouco de luz nela, mas esta tem aumentado. Oh, que poder
têm esses raios!’ " —Questions on the Sealing Message, págs. 15 e 16.
Embora esta obra tenha começado em 1844, não era plenamente compreendida nesse tempo. À
irmã White foi dada uma visão da obra do assinalamento:
"Numa reunião efetuada em Dorchester, Massachusetts, em novembro de 1848, foi-me concedida
uma visão da proclamação da mensagem do assinalamento, e do dever que incumbia aos irmãos de
publicarem a luz que resplandecia em nosso caminho.
"Depois da visão eu disse ao meu esposo: ‘Tenho uma mensagem para ti. Deves começar a publicar
um pequeno jornal e mandá-lo ao povo. Seja pequeno a princípio. Mas, lendo-o o povo, mandar-te-
ão meios com que imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde este pequeno começo
foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.’ " —Vida e Ensinos,
pág. 128.
"Com o início desta obra de publicação, não cessamos nossos labores de pregar a verdade, mas
viajamos de um lugar para outro, proclamando as doutrinas que nos haviam trazido tão grande luz e
alegria, animando os crentes, corrigindo erros e pondo as coisas em ordem na Igreja." —Vida e
Ensinos, pág. 130.
Pelos escritos citados podemos ver que o assunto do selamento foi a primeira doutrina publicada em
A Verdade Presente (este era o nome do periódico) no primeiro número, na primeira página.
Portanto, os primeiros Adventistas compreenderam que a obra do selamento começou no início da
mensagem do terceiro anjo.
Em 1849 outra visão, que aqui citamos, foi dada à irmã White sobre a abertura e o fechamento da
porta:
"Vi que a presente prova do Sábado não poderia vir até que a mediação de Jesus no lugar santo
terminasse e Ele passasse para dentro do segundo véu. Portanto, os cristãos que dormiram antes
que a porta fosse aberta no santíssimo, quando terminou o clamor da meia-noite no sétimo mês, em
1844, e que não haviam guardado o verdadeiro Sábado, agora repousam em esperança, pois não
tiveram a luz e o teste sobre o Sábado que nós agora temos, uma vez que a porta foi aberta. Vi que
Satanás estava tentando alguns do povo de Deus neste ponto. Sendo que grande número de bons
cristãos adormeceram nos triunfos da fé e não guardaram o verdadeiro Sábado, eles estavam em
dúvida quanto a ser isto um teste para nós agora. ...
"Satanás está agora usando cada artifício neste tempo de selamento a fim de desviar a mente do
povo de Deus da verdade presente e levá-los a vacilar. Vi que Deus estava estendendo uma
cobertura sobre o Seu povo a fim de protegê-lo no tempo de angústia; e que cada alma que se
decidia pela verdade e era pura de coração devia ser coberta com a proteção do Todo-Poderoso.
"Satanás sabia disto e estava trabalhando com afinco para conservar vacilante e instável na verdade
a mente do maior número possível de pessoas. ...
"Satanás estava procurando lançar mão de todas as suas artes a fim de mantê-los onde estavam
até que a cobertura fosse estendida sobre o povo de Deus, e eles [os que não estavam firmes ao
lado da verdade presente] fossem deixados sem um abrigo da ardente ira de Deus, nas sete últimas
pragas." —Primeiros Escritos, pág. 42 e 43.
"Deus está começando a estender a cobertura sobre Seu povo, e ela logo será estendida sobre todos
os que devem ter um abrigo no dia da matança." —Primeiros Escritos, pág. 44.
A cobertura (selo) de Deus foi estendida sobre Seu povo ou, em outras palavras, o selo do Deus
vivo estava sendo colocado em suas frontes. Os que não foram selados estavam sujeitos às sete
últimas pragas. A profetisa disse que naquele tempo (1849) o selamento já estava em
prosseguimento.
"Nossa posição parece muito clara. Sabemos que temos a verdade, o clamor da meia-noite ficou
atrás; a porta se fechou em 1844 e Jesus em breve sairá da mediação entre Deus e o homem. O
selamento estará realizado, encerrado. Oh, conservemos toda a armadura de Deus a fim de
estarmos prontos para a batalha a qualquer momento. Teremos de lutar agora por polegada após
polegada de terreno. —Carta 5, 1849, págs. 5 e 6. Manuscript Releases, vol. 5, pág. 200.
"O tempo do selamento é muito curto, e logo passará. Agora, enquanto os quatro anjos estão
contendo os ventos, é o tempo de fazer firme a nossa vocação e eleição." —Primeiros Escritos, pág.
58.
"Vi que Satanás operaria mais poderosamente agora do que nunca dantes. Ele sabe que seu tempo
é curto e que o assinalamento dos santos os colocará além de seu alcance. Ele agora opera de toda
maneira que lhe seja possível, e experimentará toda a sua insinuação para fazer que os santos não
estejam em guarda, e fazê-los adormecer sobre a verdade presente ou dela duvidar, para os
impedir de ser assinalados com o selo do Deus vivo." —Ms 7, 1850, págs. 2 e 3. Manuscript
Releases, vol. 8, pág. 220.
Em vez de declarar que o selamento logo começaria, a profetisa claramente afirmou que logo
terminaria.
"Quando Jesus deixa o santuário, então o que é santo e justo será santo e justo ainda, pois todos os
seus pecados estarão então apagados, e eles serão selados com o selo do Deus vivo. Mas os que
são injustos e sujos serão ainda injustos e sujos, pois então não haverá Sacerdote no santuário para
apresentar os sacrifícios, confissões e orações deles diante do trono do Pai. Portanto, o que se faz
para resgatar almas da ira vindoura deve ser feito antes que Jesus deixe o Lugar Santíssimo do
Santuário Celestial." —The Present Truth, vol. 1, no 4.
Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia acreditavam e ensinavam que desde 1844 se
estava cumprindo a primeira parte do capítulo sete de Apocalipse, como o citamos:
"Após o desapontamento de 1844 o povo de Deus viu a luz sobre a questão do santuário no Céu.
Então viram a obrigatoriedade do quarto mandamento, bem como dos outros nove mandamentos do
Decálogo. A reforma do Sábado começou naquele tempo. Em 1848 começou a ser reconhecida como
o cumprimento de Apocalipse 7:1-4." —S. N. Haskell, Manual da Bíblia (edição de 1996), pág. 124.
"O selo de Apocalipse 7:1-4 é o mesmo que o nome do Pai, de Apocalipse 14:1. Selo e sinal são às
vezes sinônimos (Rm 4:11). O sinal entre Deus e Seu povo é o Sábado (Êx 31:13-17; Ez 20:12 e
20). O atributo do poder criador distingue o verdadeiro Deus de todos os outros deuses, e esse
atributo se encontra somente no mandamento do Sábado. Portanto, esse mandamento, e somente
esse, contém o título ou nome que realmente sela o Decálogo como a Lei de Deus. Por isso o
Sábado se torna o selo da Lei de Deus e um sinal entre Ele e Seus verdadeiros filhos. A mensagem
do selamento de Apocalipse 7:1-8 é, portanto, apenas a profecia da reforma do Sábado nos últimos
dias." —O. A. Johnson, Bible Text-book, pág. 172.
"Caros irmãos espalhados pelo exterior: chegamos a um tempo em que podemos confiadamente
tomar nossa posição como a que está expressa no título que demos a estas linhas; que a
providência de Deus nos trouxe a um lugar onde a mensagem ou a obra do anjo que ascendia (Ap
7:2) deve cumprir-se.
"Sem passarmos a uma exposição dessa profecia, apresentemos alguns de seus principais aspectos
inquestionáveis:
"1. Os ventos denotam contendas políticas e comoções entre as nações.
"2. Os quatro anjos nos quatro cantos da Terra, retendo esses ventos, são quatro mensageiros
divinos a cujo cargo Deus confiou os negócios das nações, e cujo território é tanto para restringir os
ventos da contenda quando a obra de Deus o requerer, como também para fazer os ventos soprar e
levantar a grande tormenta dos confins da Terra (Jr 25:32), quando a Igreja de Deus estiver
preparada e as nações amadurecidas para essa comoção final.
"3. O anjo do verso 2, subindo da banda do Oriente com o selo do Deus vivo, é idêntico ao terceiro
anjo de Apocalipse 14:9-12.
"4. Seu clamor aos quatro anjos para que não destruíssem a Terra etc., isto é, para reterem o
soprar dos ventos até se completar o selamento dos servos de Deus, mostra de modo conclusivo
que está começando a surgir certa operação de conflito, guerra e comoção, que interfere na obra do
selamento e que, no conselho de Deus, tem de ser restringida até que a obra se complete.
"5. Como o anjo de Apocalipse 14:9 simboliza uma obra da parte da Igreja, assim o clamor deste
anjo denota forçosamente uma fervorosa petição do povo de Deus pela restrição de algum conflito
nacional ou político que esteja começando a interferir em sua obra." —Seventh-Day Adventists in
Time of War, págs. 70 e 71.
A primeira visão de E. G. White foi reimpressa na publicação intitulada To the Little Remmant
Scattered Abroad, de 6 de abril de 1846. Diz o parágrafo 6:
"Bem, prezados irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor, trata-se de uma reunião especial para os
que têm o selo do Deus vivo."
No artigo original publicado no The Day Star foi escrito o seguinte:
"E quando estávamos para entrar no santo templo, Jesus levantou Sua bela voz, e disse: ‘Somente
os 144 mil entram neste lugar.’ E nós exclamamos: ‘Aleluia!’ Bendito seja o Senhor, irmão
Jacobs, trata-se de uma reunião extraordinária para os que têm o selo do Deus vivo. Esse
templo era apoiado em sete colunas, todas de ouro transparente, cravejado das pérolas mais
reluzentes." —The Day Star, 24 de janeiro de 1846. (A frase omitida de Testimonies, vol. 1, pág. 69,
e Primeiros Escritos, pág. 19, está em negrito.)
É desconhecida a razão de esta frase ter sido omitida quando o artigo foi publicado em Testimonies,
vol. 1, pág. 69, mas com referência a essa supressão a irmã White declara o seguinte:
"Não há nisto nada que não sustentemos ainda. Referências a nossas obras publicadas mostrarão
nossa crença de que os vivos justos receberão o selo de Deus antes do fim da graça; também que
eles fruirão honras especiais no reino de Deus." —Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 66 (1883).
Esta explicação dada pela própria irmã White confirma que muitos irmãos tinham recebido o selo do
Deus vivo na testa desde o início da mensagem do terceiro anjo, e que em 1883 o povo do advento
ainda estava crendo nesta verdade.
Em outro testemunho ela declara:
"Os que têm na testa o selo do infinito Deus considerarão o mundo e suas atrações subordinados
aos interesses eternos." —Review and Herald, 13 de julho de 1897.
Ainda outra interessante declaração é a seguinte:
"Vivem em nossa Terra pessoas que passaram dos noventa anos de idade. Vêem-se em sua
debilidade os resultados naturais da idade avançada. Mas eles crêem em Deus, e Deus os ama. O
selo de Deus está sobre eles. Farão parte do número dos quais o Senhor disse: ‘Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.’ " —The SDA Bible Commentary [E. G.
White Comments], vol. 7, pág. 982 (1899).
"Uma irmã sueca disse: ‘Fiquei verdadeiramente renovada desde que cheguei aqui. Sinto-me forte
na fé. Jesus possibilitou a minha vinda, dando-me paz e amor. Quero ser uma humilde seguidora de
Cristo. Quero ter o selo de Deus na minha fronte.’ " —Review and Herald, 18 de maio de 1876.
fonte: o selamento do povo de Deus
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UM POVO QUE DIFUNDE LUZ

Por entre as trevas que baixaram à Terra durante o longo período da supremacia papal, a luz da verdade não poderia ficar inteiramente extinta. Em cada época houve testemunhas de Deus - homens que acalentavam fé em Cristo como único mediador entre Deus e o homem, que mantinham a Escritura Sagrada como a única regra de vida, e santificavam o verdadeiro sábado. Quanto o mundo deve a estes homens, a posteridade jamais saberá. Foram estigmatizados como hereges, impugnados os seus motivos, criticado o seu carácter, e suprimidos, difamados ou mutilados os seus escritos. No entanto, permaneceram firmes, e de século em século mantiveram a fé em sua pureza como sagrado legado às gerações vindouras.
A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma, está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registos humanos. Poucos traços de sua existência se podem encontrar, a não ser nas acusações de seus perseguidores. Foi tática de Roma obliterar todo vestígio de dissidência de suas doutrinas ou decretos. Tudo que fosse herético, quer pessoas quer escritos, procurava ela destruir. Expressões de dúvida ou questões quanto à autoridade dos dogmas papais eram suficientes para tirar a vida do rico ou pobre, elevado ou humilde. Roma se esforçava também por destruir todo registo de sua crueldade para com os que discordavam dela. Os concílios papais decretavam que livros ou escritos contendo relatos desta
natureza deviam ser lançados às chamas. Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos, e de forma desfavorável à preservação; portanto, pouco havia a impedir que os romanistas levassem a efeito o seu desígnio.
Nenhuma igreja dentro dos limites da jurisdição romana ficou muito tempo sem ser perturbada no gozo da liberdade de consciência. Mal o papado obtivera poder, estendeu os braços para esmagar a todos os que se recusassem a reconhecer-lhe o domínio; e, uma após outra, submeteram-se as igrejas ao seu governo.
Na Grã-Bretanha o primitivo cristianismo muito cedo deitou raízes. O evangelho, recebido pelos bretões nos primeiros séculos, não se achava então corrompido pela apostasia romana. A perseguição dos imperadores pagãos, que se estendeu mesmo até àquelas praias distantes, foi a única dádiva que a primeira igreja da Bretanha recebeu de Roma. Muitos dos cristãos, fugindo da perseguição na Inglaterra, encontraram refúgio na Escócia; daí a verdade foi levada à Irlanda, sendo em todos estes países recebida com alegria.
Quando os saxões invadiram a Bretanha, o paganismo conseguiu predomínio. Os conquistadores desdenharam ser instruídos por seus escravos, e os cristãos foram obrigados a retirar-se para as montanhas e os pântanos. Não obstante, a luz por algum tempo oculta continuou a arder. Na Escócia, um século mais tarde, brilhou ela com um fulgor que se estendeu a mui longínquas terras. Da Irlanda vieram o piedoso 
Columba e seus colaboradores, os quais, reunindo em torno de si os crentes dispersos da solitária ilha de Iona, fizeram desta o centro de seus trabalhos missionários. Entre estes evangelistas encontrava-se um observador do sábado bíblico, e assim esta verdade foi introduzida entre o povo. Estabeleceu-se uma escola em Iona, da qual saíram missionários, não somente para a Escócia e Inglaterra, mas para a Alemanha, Suíça e mesmo para a Itália.
Roma, porém, fixara os olhos na Bretanha e resolvera pô-la sob sua supremacia. No século VI seus missionários empreenderam a conversão dos pagãos saxões. Foram recebidos com favor pelos orgulhosos bárbaros, e induziram muitos milhares a professar a fé romana. O trabalho progredia e os dirigentes papais e seus conversos encontraram os cristãos primitivos. Eloquente contraste se apresentou. Os últimos eram simples, humildes e de carácter, doutrina e maneiras segundo as Escrituras, ao passo que os primeiros manifestavam a superstição, a pompa e a arrogância do papado. O emissário de Roma exigiu que estas igrejas cristãs reconhecessem a supremacia do soberano pontífice. Os bretões mansamente replicaram que desejavam amar a todos os homens, mas que o papa não tinha direito à supremacia na igreja, e que eles poderiam prestar-lhe somente a submissão devida a todo seguidor de Cristo. Repetidas tentativas foram feitas para se conseguir sua adesão a Roma; mas esses humildes cristãos, espantados com o orgulho ostentado por seus emissários, firmemente replicavam que não conheciam outro mestre senão a Cristo. Revelou-se, então, o verdadeiro espírito do papado. Disse o chefe romano: "Se não receberdes irmãos que vos trazem paz, recebereis inimigos que vos trarão guerra. Se vos não unirdes connosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, recebereis deles o golpe de morte." - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Não era isto simples ameaça. Guerra, intriga e engano foram empregados contra as testemunhas de uma fé bíblica, até que as igrejas da Bretanha foram destruídas ou obrigadas a submeter-se à autoridade do papa.
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiram por muitos séculos corporações de cristãos que permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afectados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades. Estes cristãos acreditavam na perpetuidade da lei de Deus e observavam o sábado do quarto mandamento. Igrejas que se mantinham nesta fé e prática, existiram na África Central e entre os arménios, na Ásia.
Mas dentre os que resistiram ao cerco cada vez mais apertado do poder papal, os valdenses ocuparam posição preeminente. A falsidade e corrupção papal encontraram a mais decidida resistência na própria terra em que o papa fixara a sede. Durante séculos as igrejas do Piemonte mantiveram-se independentes; mas afinal chegou o tempo em que Roma insistiu em submetê-las. Depois de lutas inúteis contra a tirania, os dirigentes destas igrejas reconheceram relutantemente a supremacia do poder a que o mundo todo parecia render homenagem. Alguns houve, entretanto, que se recusaram a ceder à autoridade do papa ou do prelado. Estavam decididos a manter sua fidelidade a Deus, e preservar a pureza e simplicidade de fé. Houve separação. Os que se apegaram à antiga fé, retiraram-se; alguns, abandonando os Alpes nativos, alçaram a bandeira da verdade em terras estrangeiras; outros se retraíram para os vales afastados e fortalezas das montanhas, e ali preservaram a liberdade de culto a Deus.
A fé que durante muitos séculos fora mantida e ensinada pelos cristãos valdenses, estava em assinalado contraste com as falsas doutrinas que Roma apresentava. A sua crença religiosa baseava-se na Palavra escrita de Deus - o verdadeiro documento religioso do cristianismo. Mas aqueles humildes camponeses, em seu obscuro retiro, excluídos do mundo e presos à labuta diária entre seus rebanhos e vinhedos, não teriam por si sós chegados à verdade em oposição aos dogmas e heresias da igreja apóstata. A fé que professavam não era nova. Sua crença religiosa era a herança de seus pais. Lutavam pela fé da igreja apostólica - a "fé que uma vez foi dada aos santos". Jud. 3. "A igreja no deserto" e não a orgulhosa hierarquia entronizada na grande capital do mundo, era a verdadeira igreja de Cristo, a depositária dos tesouros da verdade que Deus confiara a Seu povo para ser dada ao mundo.
Entre as principais causas que levaram a igreja verdadeira a separar-se da de Roma, estava o ódio desta ao sábado bíblico. Conforme fora predito pela profecia, o poder papal lançou a verdade por terra. A lei de Deus foi lançada ao pó, enquanto se exaltavam as tradições e costumes dos homens. As igrejas que estavam sob o governo do papado, foram logo compelidas a honrar o domingo como dia santo. No meio do erro e superstição que prevaleciam, muitos, mesmo dentre o verdadeiro povo de Deus, ficaram tão desorientados que ao mesmo tempo em que observavam o sábado, afastavam-se do trabalho também no domingo. Isso, porém, não satisfazia aos chefes papais. Exigiam não somente que fosse santificado o domingo, mas que o sábado fosse profanado; e com a mais violenta linguagem denunciavam os que ousavam honrá-lo. Era unicamente fugindo ao poder de Roma que alguém poderia em paz obedecer à lei de Deus.
Os valdenses foram os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição. Declaravam ser a Igreja de Roma a Babilónia apóstata do Apocalipse, e com perigo de vida erguiam-se para resistir a suas corrupções. Opressos pela prolongada perseguição, alguns comprometeram sua fé, cedendo pouco a pouco em seus princípios distintivos, enquanto outros sustentavam firme a verdade. Durante séculos de trevas e apostasia, houve alguns dentre os valdenses que negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e guardavam o verdadeiro sábado. Sob as mais atrozes tempestades da oposição conservaram a fé. Perseguidos embora pela espada dos saboianos (França) e queimados pela fogueira romana, mantiveram-se sem hesitação ao lado da Palavra de Deus e de Sua honra.
Por trás dos elevados baluartes das montanhas - em todos os tempos refúgio dos perseguidos e oprimidos - os valdenses encontraram esconderijo. Ali, conservou-se a luz da verdade a arder por entre as trevas da Idade Média. Ali, durante mil anos, testemunhas da verdade mantiveram a antiga fé.
Deus providenciara para Seu povo um santuário de majestosa grandeza, de acordo com as extraordinárias verdades confiadas à sua guarda. Para os fiéis exilados, eram as montanhas um emblema da imutável justiça de Jeová. Apontavam eles a seus filhos as alturas sobranceiras, em sua imutável majestade, e falavam-lhes d´Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação, cuja Palavra é tão perdurável como os montes eternos. Deus estabelecera firmemente as montanhas e as cingira de fortaleza; braço algum, a não ser o do Poder infinito, poderia movê-las do lugar. De igual maneira estabelecera Ele a Sua lei - fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. O braço do homem poderia atingir a seus semelhantes e destruir-lhes a vida; mas esse braço seria tão impotente para desarreigar as montanhas de seu fundamento e precipitá-las no mar, como para mudar um preceito da lei de Jeová ou anular qualquer de Suas promessas aos que Lhe fazem a vontade. Na fidelidade para com a Sua lei, os servos de Deus deviam ser tão firmes como os outeiros imutáveis.
As montanhas que cingiam os fundos vales eram testemunhas constantes do poder criador de Deus e afirmação sempre infalível de Seu cuidado protector. Esses peregrinos aprenderam a amar os símbolos silenciosos da presença de Jeová. Não condescendiam com murmurações por causa das dificuldades da sorte; nunca se sentiam abandonados na solidão das montanhas. Agradeciam a Deus por haver-lhes provido refúgio da ira e crueldade dos homens. Regozijavam-se diante d´Ele na liberdade de prestar culto. Muitas vezes, quando perseguidos pelos inimigos, a fortaleza das montanhas se provara ser defesa segura. De muitos rochedos elevados entoavam eles louvores a Deus e os exércitos de Roma não podiam fazer silenciar seus cânticos de ações de graças.
Torre Pellice, aqui os cristãos alimentados
pela pura Palavra de Deus viviam, nas grutas. A fé
era fortalecida na persegução.

Pura, singela e fervorosa era a piedade desses seguidores de Cristo. Os princípios da verdade, avaliavam-nos eles acima de casas e terras, amigos, parentes e mesmo da própria vida. Semelhantes princípios ardorosamente procuravam eles gravar no coração dos jovens. Desde a mais tenra infância os jovens eram instruídos nas Escrituras, e ensinava-se-lhes a considerar santos os requisitos da lei de Deus. Sendo raros os exemplares das Escrituras Sagradas, eram suas preciosas palavras confiadas à memória. Muitos eram capazes de repetir longas porções tanto do Antigo como do Novo Testamento. Os pensamentos de Deus associavam-se ao sublime cenário da natureza e às humildes bênçãos da vida diária. Criancinhas aprendiam a olhar com gratidão a Deus como o Doador de toda mercê e conforto.
Os pais, ternos e afectuosos como eram, tão sabiamente amavam os filhos que não permitiam que se habituassem à condescendência própria. Esboçava-se diante deles uma vida de provações e dificuldades, talvez a morte de mártir. Eram ensinados desde a infância a suportar rudezas, a sujeitar-se ao domínio, e contudo a pensar e agir por si mesmos. Muito cedo eram ensinados a encarar responsabilidades, a serem precavidos no falar e a compreenderem a sabedoria do silêncio. Uma palavra indiscreta que deixassem cair no ouvido dos inimigos, poderia pôr em perigo não somente a vida do que falava, mas a de centenas de seus irmãos; pois, semelhantes a lobos à caça da presa, os inimigos da verdade perseguiam os que ousavam reclamar liberdade para a fé religiosa.
Os valdenses haviam sacrificado a prosperidade temporal por amor à verdade, e com paciência perseverante labutavam para ganhar o pão. Cada recanto de terra cultivável entre as montanhas era cuidadosamente aproveitado; fazia-se com que os vales e as encostas menos férteis das colinas também produzissem. A economia e a severa renúncia de si próprio formavam parte da educação que os filhos recebiam como seu único legado. Ensinava-se-lhes que Deus determinara fosse a vida uma disciplina e que suas necessidades poderiam ser supridas apenas mediante o trabalho pessoal, previdência, cuidado e fé. O processo era laborioso e fatigante, mas salutar, precisamente o de que o homem necessita em seu estado decaído - escola que Deus proveu para o seu ensino e desenvolvimento. Enquanto os jovens se habituavam ao trabalho e asperezas, a cultura do intelecto não era negligenciada. Ensinava-se-lhes que todas as suas capacidades pertenciam a Deus, e que deveriam todas ser aperfeiçoadas e desenvolvidas para o Seu serviço.
As igrejas valdenses, em sua pureza e simplicidade, assemelhavam-se à igreja dos tempos apostólicos. Rejeitando a supremacia do papa e prelados, mantinham a Escritura Sagrada como a única autoridade suprema, infalível. Seus pastores, diferentes dos altivos sacerdotes de Roma, seguiam o exemplo de seu Mestre que "veio não para ser servido, mas para servir". Alimentavam o rebanho de Deus, guiando-os às verdes pastagens e fontes vivas de Sua santa Palavra. Longe dos monumentos da pompa e orgulho humano, o povo congregava-se, não em igrejas sumptuosas ou grandes catedrais, mas à sombra das montanhas nos vales alpinos, ou, em tempo de perigo, em alguma fortaleza rochosa, a fim de escutar as palavras da verdade proferidas pelos servos de Cristo. Os pastores não somente pregavam o evangelho, mas visitavam os doentes, doutrinavam as crianças, admoestavam aos que erravam e trabalhavam para resolver as questões e promover harmonia e amor fraternal. Em tempos de paz eram sustentados por ofertas voluntárias do povo; mas, como Paulo, o fabricante de tendas, cada qual aprendia um ofício ou profissão, mediante a qual, sendo necessário, proveria o sustento próprio.
De seus pastores recebiam os jovens instrução. Conquanto se desse atenção aos ramos dos conhecimentos gerais, fazia-se da Escritura Sagrada o estudo principal. Os evangelhos de Mateus e João eram confiados à memória, juntamente com muitas das epístolas. Também se ocupavam em copiar as Escrituras. Alguns manuscritos continham a Bíblia toda, outros apenas breves porções, a que algumas simples explicações do texto eram acrescentadas por aqueles que eram capazes de comentar as Escrituras. Assim se apresentavam os tesouros da verdade durante tanto tempo ocultos pelos que procuravam exaltar-se acima de Deus.
Mediante pacientes e incansáveis labores, por vezes nas profundas e escuras cavernas da Terra, à luz de archotes, eram copiadas as Escrituras Sagradas, versículo por versículo, capítulo por capítulo. Assim a obra prosseguia, resplandecendo, qual ouro puro, a vontade revelada de Deus; e quanto mais brilhante, clara e poderosa era por causa das provações que passavam por seu amor, apenas o poderiam compreender os que se achavam empenhados em obra semelhante. Anjos celestiais circundavam os fiéis obreiros.
Satanás incitara sacerdotes e prelados a enterrarem a Palavra da verdade sob a escória do erro, heresia e superstição; mas de modo maravilhosíssimo foi ela conservada incontaminada através de todos os séculos de trevas. Não trazia o cunho do homem, mas a impressão divina. Os homens se têm demonstrado incansáveis em seus esforços para obscurecer o claro e simples sentido das Escrituras, e fazê-las contradizerem seu próprio testemunho; porém, semelhante à arca sobre as profundas águas encapeladas, a Palavra de Deus leva de vencida as borrascas que a ameaçam de destruição. Assim como tem a mina ricos veios de ouro e prata ocultos por sob a superfície, de maneira que todos os que desejam descobrir os preciosos depósitos devem cavar, assim as Sagradas Escrituras têm tesouros de verdade que são revelados unicamente ao ardoroso, humilde e devoto pesquisador. Deus destinara a Bíblia a ser um compêndio para toda a humanidade, na infância, juventude e idade madura, devendo ser estudada através de todos os tempos. Deu Sua Palavra aos homens como revelação de Si mesmo. Cada nova verdade que se divisa é uma nova revelação do caráter de seu Autor. O estudo das Escrituras é o meio divinamente ordenado para levar o homem a mais íntima comunhão com seu Criador e dar-lhe mais claro conhecimento de Sua vontade. É o meio de comunicação entre Deus e o homem.
Conquanto os valdenses considerassem o temor do Senhor como o princípio da sabedoria, não eram cegos no tocante à importância do contacto com o mundo, do conhecimento dos homens e da vida activa, para expandir o espírito e avivar as percepções. De suas escolas nas montanhas alguns dos jovens foram enviados a instituições de ensino nas cidades da França ou Itália, onde havia campo mais vasto para o estudo, pensamento e observação, do que nos Alpes nativos. Os jovens assim enviados estavam expostos à tentação, testemunhavam o vício, defrontavam-se com os astuciosos agentes de Satanás, que lhes queriam impor as mais subtis heresias e os mais perigosos enganos. Mas sua educação desde a meninice fora de molde a prepará-los para tudo isto.
Nas escolas aonde iam, não deveriam fazer confidentes a quem quer que fosse. Suas vestes eram preparadas de maneira a ocultar seu máximo tesouro - os preciosos manuscritos das Escrituras. A estes, fruto de meses e anos de labuta, levavam consigo e, sempre que o podiam fazer sem despertar suspeita, cautelosamente punham uma porção ao alcance daqueles cujo coração parecia aberto para receber a verdade. Desde os joelhos da mãe a juventude valdense havia sido educada com este propósito em vista; compreendiam o trabalho, e fielmente o executavam. Ganhavam-se conversos à verdadeira fé nessas instituições de ensino, e frequentemente se encontravam seus princípios a penetrar a escola toda; contudo os chefes papais não podiam pelo mais minucioso inquérito descobrir a fonte da chamada heresia corruptora.
O espírito de Cristo é espírito missionário. O primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador. Tal foi o espírito dos cristãos valdenses. Compreendiam que Deus exigia mais deles do que simplesmente preservar a verdade em sua pureza, nas suas próprias igrejas; e que sobre eles repousava a solene responsabilidade de deixarem sua luz resplandecer aos que se achavam em trevas. Pelo forte poder da Palavra de Deus procuravam romper o cativeiro que Roma havia imposto.
Os ministros valdenses eram educados como missionários, exigindo-se primeiramente de cada um que tivesse a expectativa de entrar para o ministério, aquisição de experiência como evangelista. Cada um deveria servir três anos em algum campo missionário antes de assumir o encargo de uma igreja em seu país. Este serviço, exigindo logo de começo renúncia e sacrifício, era introdução apropriada à vida pastoral naqueles tempos que punham à prova a alma. Os jovens que recebiam a ordenação para o sagrado mister, viam diante de si, não a perspectiva de riquezas e glória terrestre, mas uma vida de trabalhos e perigo, e possivelmente o destino de mártir. Os missionários iam de dois em dois, como Jesus enviara Seus discípulos. Cada jovem tinha usualmente por companhia um homem de idade e experiência, achando-se aquele sob a orientação do companheiro, que ficava responsável por seu ensino, e a cuja instrução se esperava que seguisse. Estes coobreiros não estavam sempre juntos, mas muitas vezes se reuniam para orar e aconselhar-se, fortalecendo-se assim mutuamente na fé.
Tornar conhecido o objectivo de sua missão seria assegurar a derrota; ocultavam, portanto, cautelosamente seu verdadeiro caráter. Cada ministro possuía conhecimento de algum ofício ou profissão e os missionários prosseguiam na obra sob a aparência de vocação secular. Usualmente escolhiam a de mercador ou vendedor ambulante. "Levavam sedas, jóias e outros artigos, que naquele tempo não se compravam facilmente, a não ser em mercados distantes; e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários." - Wylie. Em todo o tempo seu coração se levantava a Deus rogando sabedoria a fim de apresentar um tesouro mais precioso do que o ouro ou jóias. Levavam secretamente consigo exemplares da Escritura Sagrada, no todo ou em parte; quando quer que se apresentasse oportunidade, chamavam a atenção dos fregueses para os manuscritos. Muitas vezes assim se despertava o interesse de ler a Palavra de Deus, e alguma porção era de bom grado deixada com os que a desejavam receber.
A obra destes missionários começava nas planícies e vales ao pé de suas próprias montanhas, mas estendia-se muito além destes limites. Descalços e com vestes singelas e poentas da jornada como eram as de seu Mestre, passavam por grande cidades e penetravam em longínquas terras. Por toda parte espalhavam a preciosa verdade. Surgiam igrejas em seu caminho e o sangue dos mártires testemunhava da verdade. O dia de Deus revelará rica colheita de almas enceleiradas pelos labores destes homens fiéis. Velada e silenciosa, a Palavra de Deus rompia caminho através da cristandade e tinha alegre acolhida nos lares e corações.
Para os valdenses não eram as Escrituras simplesmente o registo do trato de Deus para com os homens no passado e a revelação das responsabilidades e deveres do presente, mas o desvendar dos perigos e glórias do futuro. Acreditavam que o fim de todas as coisas não estava muito distante; e, estudando a Bíblia com oração e lágrimas, mais profundamente se impressionavam com suas preciosas declarações e com o dever de tornar conhecidas a outros as suas verdades salvadoras. Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em Jesus. Ao iluminar-lhes a luz o entendimento e ao alegrar-lhes ela o coração, anelavam derramar seus raios sobre os que se achavam nas trevas do erro papal.
Viam que sob a direção do papa e sacerdotes, multidões em vão se esforçavam por obter perdão afligindo o corpo por causa do pecado da alma. Ensinados a confiar nas boas obras para se salvarem, estavam sempre a olhar para si mesmos, ocupando a mente com a sua condição pecaminosa, vendo-se expostos à ira de Deus, afligindo alma e corpo, não achando, contudo, alívio. Almas conscienciosas eram, assim, enredadas pelas doutrinas de Roma. Milhares abandonavam amigos e parentes, passando a vida nas celas dos conventos. Por meio de frequentes jejuns e cruéis açoitamentos, por vigílias à meia-noite, prostrando-se durante horas cansativas sobre as lajes frias e húmidas de sua sombria habitação, por longas peregrinações, penitências humilhantes e terrível tortura, milhares procuravam inutilmente obter paz de consciência. Oprimidos por uma intuição de pecado e perseguidos pelo temor da ira vingadora de Deus, muitos continuavam a sofrer até que a natureza exausta se rendia e, sem um resquício de luz ou esperança, baixavam à sepultura.
Os valdenses ansiavam por partir a estas almas famintas o pão da vida, revelar-lhes as mensagens de paz das promessas de Deus e apontar-lhes a Cristo como a única esperança de salvação. Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus. A confiança nos méritos humanos faz perder de vista o amor infinito de Cristo. Jesus morreu como sacrifício pelo homem porque a raça caída nada pode fazer para se recomendar a Deus. Os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido são o fundamento da fé cristã. A dependência da alma para com Cristo é tão real, e sua união com Ele deve ser tão íntima como a do membro para com o corpo, ou da vara para com a videira.
Os ensinos dos papas e sacerdotes haviam levado os homens a considerar o caráter de Deus, e mesmo o de Cristo, como severo, sombrio e repelente. Representava-se o Salvador tão destituído de simpatia para com o homem em seu estado decaído, que devia ser invocada a mediação de sacerdotes e santos. Aqueles cuja mente fora iluminada pela Palavra de Deus, anelavam guiar estas almas a Jesus, como seu compassivo e amante Salvador que permanece de braços estendidos a convidar todos a irem a Ele com seu fardo de pecados, seus cuidados e fadigas. Almejavam remover os obstáculos que Satanás havia acumulado para que os homens não pudessem ver as promessas, e ir diretamente a Deus, confessando os pecados e obtendo perdão e paz.
Ardorosamente desvendava o missionário valdense as preciosas verdades do evangelho ao espírito inquiridor. Citava com precaução as porções cuidadosamente copiadas da Sagrada Escritura. Era a sua máxima alegria infundir esperança à alma conscienciosa, ferida pelo pecado, e que tão-somente podia ver um Deus de vingança, esperando para executar justiça. Com lábios trémulos e olhos lacrimosos, muitas vezes com os joelhos curvados, expunha a seus irmãos as preciosas promessas que revelam a única esperança do pecador. Assim a luz da verdade penetrava muitas almas obscurecidas, fazendo recuar a nuvem sombria até que o Sol da Justiça resplandecesse no coração, trazendo saúde em seus raios. Dava-se amiúde o caso de alguma porção das Escrituras ser lida várias vezes, desejando o ouvinte que fosse repetida, como se quisesse assegurar-se de que tinha ouvido bem. Em especial se desejava, de maneira ávida, a repetição destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado." I João 1:7. "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15.
Muitos não se iludiam em relação às pretensões de Roma. Viam quão vã é a mediação de homens ou anjos em favor do pecador. Raiando-lhes na mente a verdadeira luz, exclamavam com regozijo: "Cristo é meu Sacerdote; Seu sangue é meu sacrifício; Seu altar é meu confessionário." Confiavam-se inteiramente aos méritos de Jesus, repetindo as palavras: "Sem fé é impossível agradar-Lhe." Heb. 11:6. "Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12.
A certeza do amor de um Salvador parecia, a algumas destas pobres almas agitadas pela tempestade, coisa por demais vasta para ser abrangida. Tão grande era o alívio que sentiam, tal a inundação de luz que lhes sobrevinha, que pareciam transportadas ao Céu. Punham confiantemente suas mãos na de Cristo; firmavam os pés sobre a Rocha dos séculos. Bania-se todo o temor da morte. Podiam agora ambicionar a prisão e a fogueira se desse modo honrassem o nome de seu Redentor.
Em lugares ocultos era a Palavra de Deus apresentada e lida, algumas vezes a uma única alma, outras, a um pequeno grupo que anelava a luz e a verdade. Amiúde a noite toda era passada desta maneira. Tão grande era o assombro e admiração dos ouvintes que o mensageiro da misericórdia frequentemente se via obrigado a cessar a leitura até que o entendimento pudesse apreender as boas novas da salvação. Era comum proferirem-se palavras como estas: "Aceitará Deus em verdade a minha oferta? Olhar-me-á benignamente? Perdoar-me-á Ele?" Lia-se a resposta: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mat. 11:28.
A fé se apegava à promessa, ouvia-se a alegre resposta: "Nada mais de longas peregrinações; nada de penosas jornadas aos relicários sagrados. Posso ir a Jesus tal como estou, pecador e ímpio, e Ele não desprezará a oração de arrependimento. 'Perdoados te são os teus pecados.' Os meus pecados, efectivamente os meus, podem ser perdoados!"
Enchia o coração uma onda de sagrada alegria, e o nome de Jesus era engrandecido em louvores e acções de graças. Estas almas felizes voltavam para casa a fim de difundir a luz, repetir a outros, tão bem quanto podiam, a nova experiência, de que acharam o Caminho verdadeiro e vivo. Havia um estranho e solene poder nas palavras das Escrituras, que falava directamente ao coração dos que se achavam anelantes pela verdade. Era a voz de Deus e levava a convicção aos que ouviam.
O mensageiro da verdade continuava o seu caminho; mas seu aspecto de humildade, sua sinceridade, ardor e profundo fervor, eram assuntos de observação frequente. Em muitos casos os ouvintes não lhe perguntavam donde viera ou para onde ia. Ficavam tão dominados, a princípio pela surpresa e depois pela gratidão e alegria, que não pensavam em interrogá-lo. Quando insistiam com ele para os acompanhar a suas casas, respondia-lhes que devia visitar as ovelhas perdidas do rebanho. Não seria ele um anjo do Céu? Indagavam.
Em muitos casos não mais se via o mensageiro da verdade. Seguira para outros países, ou a vida se lhe consumia em algum calabouço desconhecido, ou talvez seus ossos estivessem alvejando no local em que testificara da verdade. Mas as palavras que deixara após si, não poderiam ser destruídas. Estavam a fazer sua obra no coração dos homens; os benditos resultados só no dia do juízo se revelarão plenamente.
Os missionários valdenses estavam invadindo o reino de Satanás, e os poderes das trevas despertaram para maior vigilância. Todo esforço para avanço da verdade era observado pelo príncipe do mal, e ele excitava os temores de seus agentes. Os chefes papais viram grande perigo para a sua causa no trabalho destes humildes itinerantes. Se fosse permitido à luz da verdade resplandecer sem impedimento, varreria as pesadas nuvens de erro que envolviam o povo; haveria de dirigir o espírito dos homens a Deus unicamente, talvez destruindo, afinal, a supremacia de Roma.
A própria existência deste povo, mantendo a fé da antiga igreja, era testemunho constante da apostasia de Roma, e portanto excitava o ódio e perseguição mais atrozes. Sua recusa de renunciar às Escrituras era também ofensa que Roma não podia tolerar. Decidiu-se ela a exterminá-los da Terra. Começaram então as mais terríveis cruzadas contra o povo de Deus em seus lares montesinos. Puseram-se inquisidores em suas pegadas, e a cena do inocente Abel tombando ante o assassino Caim repetia-se frequentemente.
Reiteradas vezes foram devastadas as suas férteis terras, destruídas as habitações e capelas, de maneira que onde houvera campos florescentes e lares de um povo simples e laborioso, restava apenas um deserto. Assim como o animal de rapina se torna mais feroz provando sangue, a ira dos sectários do papa acendia-se com maior intensidade com o sofrimento de suas vítimas. Muitas destas testemunhas da fé pura foram perseguidas através das montanhas e caçadas nos vales em que se achavam escondidas, encerradas por enormes florestas e cumes rochosos.
Nenhuma acusação se poderia fazer contra o carácter moral da classe proscrita. Mesmo seus inimigos declaravam serem eles um povo pacífico, sossegado e piedoso. Seu grande crime era não quererem adorar a Deus segundo a vontade do papa.
Por tal crime, toda humilhação, insulto e tortura que homens ou diabos podiam inventar, amontoaram-se sobre eles.
Determinando-se Roma a exterminar a odiada seita, uma bula foi promulgada pelo papa, condenando-os como hereges e entregando-os ao morticínio. Não eram acusados como ociosos, desonestos ou desordeiros; mas declarava-se que tinham uma aparência de piedade e santidade que seduzia "as ovelhas do verdadeiro aprisco". Portanto ordenava o papa que "aquela maligna e abominável seita de perversos", caso se recusasse a renunciar, "fosse esmagada como serpentes venenosas". - Wylie. Esperava o altivo potentado ter de responder por estas palavras? Sabia que estavam registradas nos livros do Céu, para lhe serem apresentadas no juízo? "Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos", disse Jesus, "a Mim o fizestes." Mat. 25:40.
Essa bula convocava a todos os membros da igreja para se unirem à cruzada contra os hereges. Como incentivo para se empenharem na obra cruel, "absolvia de todas as penas e castigos eclesiásticos, gerais e particulares; desobrigava a todos os que se unissem à cruzada, de qualquer juramento que pudessem ter feito; legitimava-lhes o direito a qualquer propriedade que pudessem ter ilegalmente adquirido; e prometia remissão de todos os pecados aos que matassem algum herege. Anulava todos os contratos feitos em favor dos valdenses, ordenava que seus criados os abandonassem, proibia a toda pessoa dar-lhes qualquer auxílio que fosse e a todos permitia tomar posse de sua propriedade". - Wylie. Este documento revela claramente o espírito que o ditou. É o bramido do dragão, e não a voz de Cristo, que nele se ouve.
Os dirigentes papais não queriam conformar seu caráter com a grande norma da lei de Deus, mas erigiram uma norma que lhes fosse conveniente, e decidiram obrigar todos a se conformarem com a mesma porque Roma assim o desejava. As mais horríveis tragédias foram encenadas. Sacerdotes e papas corruptos e blasfemos estavam a fazer a obra que Satanás lhes designava. A misericórdia não encontrava guarida em sua natureza. O mesmo espírito que crucificou Cristo e matou os apóstolos, o mesmo que impulsionou o sanguinário Nero contra os fiéis de seu tempo, estava em operação a fim de exterminar da Terra os que eram amados de Deus.
As perseguições desencadeadas durante muitos séculos sobre este povo temente a Deus, foram por ele suportadas com uma paciência e constância que honravam seu Redentor. Apesar das cruzadas contra eles e da desumana carnificina a que foram sujeitos, continuavam a mandar seus missionários a espalhar a preciosa verdade. Eram perseguidos até à morte; contudo, seu sangue regava a semente lançada, e esta não deixou de produzir fruto. Assim os valdenses testemunharam de Deus, séculos antes do nascimento de Lutero. Dispersos em muitos países, plantaram a semente da Reforma que se iniciou no tempo de Wycliffe, cresceu larga e profundamente nos dias de Lutero, e deve ser levada avante até ao final do tempo por aqueles que também estão dispostos a sofrer todas as coisas pela "Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo". Apoc. 1:9.
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MENSAGEM PARA O TEMPO DO FIM

Para cada período da História, Deus tem uma mensagem específica. Essa mensagem é denominada “verdade presente” Exemplo disso é a pregação de Noé, que conclamou o mundo antediluviano ao arrependimento e anunciou a destruição por meio do dilúvio (Gn 6 e 7).
No Novo Testamento, encontramos outro exemplo em que a mensagem presente consistia em aceitar Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Embora essa pregação cristocêntrica permeie a Bíblia em todos os tempos, naquela época, os apóstolos tinham o desafio de levar as pessoas a aceitar o Carpinteiro judeu como o prometido Messias do Antigo Testamento (At 2:22-36; 4:11,12; 5:30,31).
Avançando na História, encontramos no século dezesseis o movimento da Reforma Protestante com a mensagem de que a Bíblia é a única regra de fé (Sola Scriptura) e de que a fé nos méritos de Cristo é o único meio pelo qual alguém pode ser aceito e salvo por Deus (Sola Fide). Tais aspectos da mensagem eram apropriados ao contexto em que os reformadores viviam, pois o papado havia exaltado a tradição em lugar do ‘Assim diz o Senhor” e a salvação pelas obras em lugar da justiça de Cristo.
Tempo do fim.
Qual é a mensagem de Deus para nosso tempo? Para entendermos isso, precisamos identificar o período da História em que vivemos. No capítulo 12 do livro de Daniel, Deus revela ao profeta que o entendimento do seu livro só ocorreria no “tempo do fim” (v. 9). Esse tempo chegaria após o período profetizado “de um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 7), o que equivale a 1260 anos (538 d.C – 1798 d.C), nos quais o Romanismo mudaria o Decálogo, perseguiria os fiéis de Deus e lançaria a verdade por terra (Dn 7:25; 8:12; Ap 12:6,13,14; 13:5,6).
Portanto, em 1798, começou o ”tempo do fim” um período singular em que as principais profecias de Daniel se cumpririam (Dn 8:14; 12:11, 12), haveria um crescente avanço do conhecimento profético e também científico (Dn 12:4) e a História registraria importantes sinais preditos nos evangelhos e no livro do Apocalipse (Mt 24:29; Mc 13:24,25; Lc 21:11,25; Ap 6:12-14). (2)
Para esse tempo, Deus tem uma advertência de especial importância para os habitantes da Terra. É o último aviso de misericórdia a este mundo mergulhado nas trevas do pecado. Encontramos essa mensagem em Apocalipse 14:6-12 – a tríplice mensagem angélica. Essa tríplice mensagem antecede a cena da segunda vinda de Cristo – o Cavaleiro que vem para ceifar a seara da Terra (versos 14-16). Portanto, é uma advertência que deve ser comunicada no tempo do fim, uma solene mensagem que visa a preparar um povo para o encontro com o Rei que Se aproxima. O verso 13, que está entre a tríplice mensagem e os textos da Segunda Vinda, pronuncia uma bênção sobre aqueles que morrem no período em que essas mensagens são pregadas e crêem nelas: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”(3)
A pessoa de Cristo e Sua obra salvadora constituem o tema catalisador dessa tríplice mensagem. Nela, o ”evangelho eterno” as boas novas da justiça e da salvação em Cristo são o tema central e predominante, como demonstrado na introdução da passagem (v. 6).(4)
O primeiro anjo proclama o juízo de Deus (v. 7), o qual começou sua primeira fase em 22 de outubro de 1844. Nessa data, terminou o grande período profético dos 2300 anos de Daniel 8:14, e começou a purificação do santuário celestial, a qual corresponde ao mesmo julgamento visto pelo profeta no (capítulo 7:9-10) (5).
Nessa nova fase de Seu ministério, Cristo não só intercede pela humanidade, como já vinha fazendo, mas atua no juízo em defesa de Seu povo, que está sendo julgado conforme os registros celestiais (Dn 7:10). Para essa fase do julgamento, usam-se os termos juízo pré-advento ou juízo investigativo, pois ocorre no 
período que antecede a segunda vinda de Cristo e no qual os filhos de Deus são julgados/examinados pelo padrão da lei divina que deve ser obedecida como fruto da fé em Cristo.(6) Diante da iminência do julgamento, o anjo conclama a humanidade a temer a Deus, glorificá-Lo e adorá-Lo.
O segundo anjo anuncia a queda de Babilônia (v. 8), o falso sistema religioso dos últimos dias. A queda é conseqüência de o sistema estar fundamentado no erro, por ter rejeitado a verdade bíblica e defender doutrinas espúrias, como: imortalidade da alma, santidade do domingo, salvação pelas obras, etc. Quem não aceitar as palavras de Cristo e não as praticar, experimentará a ruína (Mt 7:26, 27), e quem “ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (2 Jo 9). Assim, a mensagem do segundo anjo é um convite para que saiam de Babilônia todos os que foram enganados por suas falsas doutrinas (Ap 18:1-5) e aceitem a verdade conforme revelada em Cristo.
O terceiro anjo acompanha as outras mensagens com uma advertência contra a adoração à besta e ao recebimento da sua marca (Ap 14:9-11). Essa mensagem demonstra que o conflito final girará em torno da lealdade a Deus por meio da guarda dos Seus mandamentos ou à obediência a preceitos humanos. (7) Uma corporação de Igreja/Estado, nos últimos dias (Ap 13:11, 12), obrigará a humanidade a observar como dia de guarda um falso dia de adoração (Ap 13:16,17) em lugar do dia estipulado por Deus em Sua lei (Êx 20:8-11). Os que aceitarem esse falso dia serão atingidos pelas sete últimas pragas que serão derramadas “sem mistura” de misericórdia (Ap 14:9, 10; 15:1; 16). Em contraste, haverá o grupo daqueles que permanecerão fiéis a Deus mesmo diante das mais terríveis ameaças e que foram classificados como santos por guardarem “os mandamentos de Deus” como fruto de sua “fé em Jesus” (Ap 14:12).
Mensagem específica.
Justamente nesse tempo, o tempo do fim, no qual a tríplice mensagem deve ser proclamada, Deus suscita um povo para cumprir essa solene missão. Esse povo é identificado como aqueles “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Essa última característica – “o testemunho de Jesus” – é definida como a manifesta-ção do dom de profecia (Ap 19:10). A Igreja Adventista do Sétimo Dia se enquadra nessa classificação, pois surge no período do tempo do fim (1844) como resultado dos estudos e do cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse, exaltando a obediência à Lei de Deus, especificamente a validade do sábado, e testemunhando, em seu meio, a manifestação do verdadeiro dom de profecia na pessoa de Eilen G. White.
Desse modo, há um povo que prega uma mensagem específica no tempo determinado pela profecia. Esse povo foi levantado para restaurar as verdades que foram lançadas por terra durante o período de supremacia papal, reparar as “brechas” feitas na lei de Deus, edificando, assim, “as antigas ruínas” (Is 58:12). Nossa responsabilidade é levar ao mundo uma mensagem singular, preparando “a seara da Terra” para a vinda do Filho do homem. “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. [..,] Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção. As mais solenes verdades já confiadas a mortais nos foram dadas, para as proclamarmos ao mundo. A proclamação dessas verdades deve ser nossa obra. O mundo precisa ser advertido, e o povo de Deus deve ser fiel ao legado que se lhe confiou”(9) Tal responsabilidade deve incutir em nós um senso de missão jamais visto em outro povo. Precisamos nos unir e concentrar as nossas forças nessa direção
Mas não podemos nos esquecer de que só cumpriremos essa missão com a ajuda do Espírito Santo. Em Apocalipse 18:1, a Terra é vista sendo iluminada pela glória celestial, e essa glória é a manifestação poderosa do Espírito Santo no tempo do fim, derramando Seu poder sobre a igreja como “chuva serôdia!(10) Esse poder capacitará a igreja para dar, “com potente voz” (verso 2), o último convite ao mundo, antes do fechamento da porta da graça (versos 2-5). Os adventistas do sétimo dia precisam ter como prioridade a busca desse poder a fim de continuar pregando “aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (verso 6) o evangelho eterno, no contexto da tríplice mensagem angélica. Cada pessoa que conheceu a verdade para o tempo presente e se une às fileiras do adventismo, é chamada a proclamar “as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9). Portanto, cumpramos nossa missão!
Referências1. MervinC Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 129,130.
2. Ibid.,p.318,319.
3. Alberto R. Timm, 0 Santuário e as três mensagens angélicas: fatores íntegrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002) p. 232.
4. Lição da Escola Sabatina, “O Último Convite: a mensagem dos três anjos”, outubro-dezembro,1994, p 17.
5. Clifford Goldstein, 1844: Uma explicacâo simples das principais profecias de Daniel – Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 45-48.
6. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 482.
7. Ellen G. White, Eventos Finais, p. 193.
8. Maxwell, 0p.Cit.,p. 422,423.
9. Ellen G. White, Evangelismo, p. 119,120.
10. Ellen G. White, O Grande Conflito pág 611, 612.
Texto de autoria de Ezinaldo Ubirajara Pereira, capelão do Hospital Adventista de Belém, Pará, publicado na Revista Adventista de Agosto/2008.
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15 de set. de 2018

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS

Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!

13 de set. de 2018

A obra do selamento já começou?

Já vimos que o anjo selador é o terceiro anjo (Ap 14:9-13). Logo, a obra do selamento teve início
quando o anjo começou a sua obra. Foi em 1844, quando foi revelada a verdade do Sábado.
" ‘Foi-Lhe [a Deus] muito agradável quando Sua Lei começou a crescer em força. Essa verdade
surge e está em crescimento cada vez mais forte. Ela é o selo! Está chegando! Surge, vindo da
banda do sol nascente; como o Sol, a princípio frio, se torna mais quente e envia seus raios. Quando
essa verdade surgiu, havia apenas um pouco de luz nela, mas esta tem aumentado. Oh, que poder
têm esses raios!’ " —Questions on the Sealing Message, págs. 15 e 16.
Embora esta obra tenha começado em 1844, não era plenamente compreendida nesse tempo. À
irmã White foi dada uma visão da obra do assinalamento:
"Numa reunião efetuada em Dorchester, Massachusetts, em novembro de 1848, foi-me concedida
uma visão da proclamação da mensagem do assinalamento, e do dever que incumbia aos irmãos de
publicarem a luz que resplandecia em nosso caminho.
"Depois da visão eu disse ao meu esposo: ‘Tenho uma mensagem para ti. Deves começar a publicar
um pequeno jornal e mandá-lo ao povo. Seja pequeno a princípio. Mas, lendo-o o povo, mandar-te-
ão meios com que imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde este pequeno começo
foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.’ " —Vida e Ensinos,
pág. 128.
"Com o início desta obra de publicação, não cessamos nossos labores de pregar a verdade, mas
viajamos de um lugar para outro, proclamando as doutrinas que nos haviam trazido tão grande luz e
alegria, animando os crentes, corrigindo erros e pondo as coisas em ordem na Igreja." —Vida e
Ensinos, pág. 130.
Pelos escritos citados podemos ver que o assunto do selamento foi a primeira doutrina publicada em
A Verdade Presente (este era o nome do periódico) no primeiro número, na primeira página.
Portanto, os primeiros Adventistas compreenderam que a obra do selamento começou no início da
mensagem do terceiro anjo.
Em 1849 outra visão, que aqui citamos, foi dada à irmã White sobre a abertura e o fechamento da
porta:
"Vi que a presente prova do Sábado não poderia vir até que a mediação de Jesus no lugar santo
terminasse e Ele passasse para dentro do segundo véu. Portanto, os cristãos que dormiram antes
que a porta fosse aberta no santíssimo, quando terminou o clamor da meia-noite no sétimo mês, em
1844, e que não haviam guardado o verdadeiro Sábado, agora repousam em esperança, pois não
tiveram a luz e o teste sobre o Sábado que nós agora temos, uma vez que a porta foi aberta. Vi que
Satanás estava tentando alguns do povo de Deus neste ponto. Sendo que grande número de bons
cristãos adormeceram nos triunfos da fé e não guardaram o verdadeiro Sábado, eles estavam em
dúvida quanto a ser isto um teste para nós agora. ...
"Satanás está agora usando cada artifício neste tempo de selamento a fim de desviar a mente do
povo de Deus da verdade presente e levá-los a vacilar. Vi que Deus estava estendendo uma
cobertura sobre o Seu povo a fim de protegê-lo no tempo de angústia; e que cada alma que se
decidia pela verdade e era pura de coração devia ser coberta com a proteção do Todo-Poderoso.
"Satanás sabia disto e estava trabalhando com afinco para conservar vacilante e instável na verdade
a mente do maior número possível de pessoas. ...
"Satanás estava procurando lançar mão de todas as suas artes a fim de mantê-los onde estavam
até que a cobertura fosse estendida sobre o povo de Deus, e eles [os que não estavam firmes ao
lado da verdade presente] fossem deixados sem um abrigo da ardente ira de Deus, nas sete últimas
pragas." —Primeiros Escritos, pág. 42 e 43.
"Deus está começando a estender a cobertura sobre Seu povo, e ela logo será estendida sobre todos
os que devem ter um abrigo no dia da matança." —Primeiros Escritos, pág. 44.
A cobertura (selo) de Deus foi estendida sobre Seu povo ou, em outras palavras, o selo do Deus
vivo estava sendo colocado em suas frontes. Os que não foram selados estavam sujeitos às sete
últimas pragas. A profetisa disse que naquele tempo (1849) o selamento já estava em
prosseguimento.
"Nossa posição parece muito clara. Sabemos que temos a verdade, o clamor da meia-noite ficou
atrás; a porta se fechou em 1844 e Jesus em breve sairá da mediação entre Deus e o homem. O
selamento estará realizado, encerrado. Oh, conservemos toda a armadura de Deus a fim de
estarmos prontos para a batalha a qualquer momento. Teremos de lutar agora por polegada após
polegada de terreno. —Carta 5, 1849, págs. 5 e 6. Manuscript Releases, vol. 5, pág. 200.
"O tempo do selamento é muito curto, e logo passará. Agora, enquanto os quatro anjos estão
contendo os ventos, é o tempo de fazer firme a nossa vocação e eleição." —Primeiros Escritos, pág.
58.
"Vi que Satanás operaria mais poderosamente agora do que nunca dantes. Ele sabe que seu tempo
é curto e que o assinalamento dos santos os colocará além de seu alcance. Ele agora opera de toda
maneira que lhe seja possível, e experimentará toda a sua insinuação para fazer que os santos não
estejam em guarda, e fazê-los adormecer sobre a verdade presente ou dela duvidar, para os
impedir de ser assinalados com o selo do Deus vivo." —Ms 7, 1850, págs. 2 e 3. Manuscript
Releases, vol. 8, pág. 220.
Em vez de declarar que o selamento logo começaria, a profetisa claramente afirmou que logo
terminaria.
"Quando Jesus deixa o santuário, então o que é santo e justo será santo e justo ainda, pois todos os
seus pecados estarão então apagados, e eles serão selados com o selo do Deus vivo. Mas os que
são injustos e sujos serão ainda injustos e sujos, pois então não haverá Sacerdote no santuário para
apresentar os sacrifícios, confissões e orações deles diante do trono do Pai. Portanto, o que se faz
para resgatar almas da ira vindoura deve ser feito antes que Jesus deixe o Lugar Santíssimo do
Santuário Celestial." —The Present Truth, vol. 1, no 4.
Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia acreditavam e ensinavam que desde 1844 se
estava cumprindo a primeira parte do capítulo sete de Apocalipse, como o citamos:
"Após o desapontamento de 1844 o povo de Deus viu a luz sobre a questão do santuário no Céu.
Então viram a obrigatoriedade do quarto mandamento, bem como dos outros nove mandamentos do
Decálogo. A reforma do Sábado começou naquele tempo. Em 1848 começou a ser reconhecida como
o cumprimento de Apocalipse 7:1-4." —S. N. Haskell, Manual da Bíblia (edição de 1996), pág. 124.
"O selo de Apocalipse 7:1-4 é o mesmo que o nome do Pai, de Apocalipse 14:1. Selo e sinal são às
vezes sinônimos (Rm 4:11). O sinal entre Deus e Seu povo é o Sábado (Êx 31:13-17; Ez 20:12 e
20). O atributo do poder criador distingue o verdadeiro Deus de todos os outros deuses, e esse
atributo se encontra somente no mandamento do Sábado. Portanto, esse mandamento, e somente
esse, contém o título ou nome que realmente sela o Decálogo como a Lei de Deus. Por isso o
Sábado se torna o selo da Lei de Deus e um sinal entre Ele e Seus verdadeiros filhos. A mensagem
do selamento de Apocalipse 7:1-8 é, portanto, apenas a profecia da reforma do Sábado nos últimos
dias." —O. A. Johnson, Bible Text-book, pág. 172.
"Caros irmãos espalhados pelo exterior: chegamos a um tempo em que podemos confiadamente
tomar nossa posição como a que está expressa no título que demos a estas linhas; que a
providência de Deus nos trouxe a um lugar onde a mensagem ou a obra do anjo que ascendia (Ap
7:2) deve cumprir-se.
"Sem passarmos a uma exposição dessa profecia, apresentemos alguns de seus principais aspectos
inquestionáveis:
"1. Os ventos denotam contendas políticas e comoções entre as nações.
"2. Os quatro anjos nos quatro cantos da Terra, retendo esses ventos, são quatro mensageiros
divinos a cujo cargo Deus confiou os negócios das nações, e cujo território é tanto para restringir os
ventos da contenda quando a obra de Deus o requerer, como também para fazer os ventos soprar e
levantar a grande tormenta dos confins da Terra (Jr 25:32), quando a Igreja de Deus estiver
preparada e as nações amadurecidas para essa comoção final.
"3. O anjo do verso 2, subindo da banda do Oriente com o selo do Deus vivo, é idêntico ao terceiro
anjo de Apocalipse 14:9-12.
"4. Seu clamor aos quatro anjos para que não destruíssem a Terra etc., isto é, para reterem o
soprar dos ventos até se completar o selamento dos servos de Deus, mostra de modo conclusivo
que está começando a surgir certa operação de conflito, guerra e comoção, que interfere na obra do
selamento e que, no conselho de Deus, tem de ser restringida até que a obra se complete.
"5. Como o anjo de Apocalipse 14:9 simboliza uma obra da parte da Igreja, assim o clamor deste
anjo denota forçosamente uma fervorosa petição do povo de Deus pela restrição de algum conflito
nacional ou político que esteja começando a interferir em sua obra." —Seventh-Day Adventists in
Time of War, págs. 70 e 71.
A primeira visão de E. G. White foi reimpressa na publicação intitulada To the Little Remmant
Scattered Abroad, de 6 de abril de 1846. Diz o parágrafo 6:
"Bem, prezados irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor, trata-se de uma reunião especial para os
que têm o selo do Deus vivo."
No artigo original publicado no The Day Star foi escrito o seguinte:
"E quando estávamos para entrar no santo templo, Jesus levantou Sua bela voz, e disse: ‘Somente
os 144 mil entram neste lugar.’ E nós exclamamos: ‘Aleluia!’ Bendito seja o Senhor, irmão
Jacobs, trata-se de uma reunião extraordinária para os que têm o selo do Deus vivo. Esse
templo era apoiado em sete colunas, todas de ouro transparente, cravejado das pérolas mais
reluzentes." —The Day Star, 24 de janeiro de 1846. (A frase omitida de Testimonies, vol. 1, pág. 69,
e Primeiros Escritos, pág. 19, está em negrito.)
É desconhecida a razão de esta frase ter sido omitida quando o artigo foi publicado em Testimonies,
vol. 1, pág. 69, mas com referência a essa supressão a irmã White declara o seguinte:
"Não há nisto nada que não sustentemos ainda. Referências a nossas obras publicadas mostrarão
nossa crença de que os vivos justos receberão o selo de Deus antes do fim da graça; também que
eles fruirão honras especiais no reino de Deus." —Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 66 (1883).
Esta explicação dada pela própria irmã White confirma que muitos irmãos tinham recebido o selo do
Deus vivo na testa desde o início da mensagem do terceiro anjo, e que em 1883 o povo do advento
ainda estava crendo nesta verdade.
Em outro testemunho ela declara:
"Os que têm na testa o selo do infinito Deus considerarão o mundo e suas atrações subordinados
aos interesses eternos." —Review and Herald, 13 de julho de 1897.
Ainda outra interessante declaração é a seguinte:
"Vivem em nossa Terra pessoas que passaram dos noventa anos de idade. Vêem-se em sua
debilidade os resultados naturais da idade avançada. Mas eles crêem em Deus, e Deus os ama. O
selo de Deus está sobre eles. Farão parte do número dos quais o Senhor disse: ‘Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.’ " —The SDA Bible Commentary [E. G.
White Comments], vol. 7, pág. 982 (1899).
"Uma irmã sueca disse: ‘Fiquei verdadeiramente renovada desde que cheguei aqui. Sinto-me forte
na fé. Jesus possibilitou a minha vinda, dando-me paz e amor. Quero ser uma humilde seguidora de
Cristo. Quero ter o selo de Deus na minha fronte.’ " —Review and Herald, 18 de maio de 1876.
fonte: o selamento do povo de Deus

UM POVO QUE DIFUNDE LUZ

Por entre as trevas que baixaram à Terra durante o longo período da supremacia papal, a luz da verdade não poderia ficar inteiramente extinta. Em cada época houve testemunhas de Deus - homens que acalentavam fé em Cristo como único mediador entre Deus e o homem, que mantinham a Escritura Sagrada como a única regra de vida, e santificavam o verdadeiro sábado. Quanto o mundo deve a estes homens, a posteridade jamais saberá. Foram estigmatizados como hereges, impugnados os seus motivos, criticado o seu carácter, e suprimidos, difamados ou mutilados os seus escritos. No entanto, permaneceram firmes, e de século em século mantiveram a fé em sua pureza como sagrado legado às gerações vindouras.
A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma, está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registos humanos. Poucos traços de sua existência se podem encontrar, a não ser nas acusações de seus perseguidores. Foi tática de Roma obliterar todo vestígio de dissidência de suas doutrinas ou decretos. Tudo que fosse herético, quer pessoas quer escritos, procurava ela destruir. Expressões de dúvida ou questões quanto à autoridade dos dogmas papais eram suficientes para tirar a vida do rico ou pobre, elevado ou humilde. Roma se esforçava também por destruir todo registo de sua crueldade para com os que discordavam dela. Os concílios papais decretavam que livros ou escritos contendo relatos desta
natureza deviam ser lançados às chamas. Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos, e de forma desfavorável à preservação; portanto, pouco havia a impedir que os romanistas levassem a efeito o seu desígnio.
Nenhuma igreja dentro dos limites da jurisdição romana ficou muito tempo sem ser perturbada no gozo da liberdade de consciência. Mal o papado obtivera poder, estendeu os braços para esmagar a todos os que se recusassem a reconhecer-lhe o domínio; e, uma após outra, submeteram-se as igrejas ao seu governo.
Na Grã-Bretanha o primitivo cristianismo muito cedo deitou raízes. O evangelho, recebido pelos bretões nos primeiros séculos, não se achava então corrompido pela apostasia romana. A perseguição dos imperadores pagãos, que se estendeu mesmo até àquelas praias distantes, foi a única dádiva que a primeira igreja da Bretanha recebeu de Roma. Muitos dos cristãos, fugindo da perseguição na Inglaterra, encontraram refúgio na Escócia; daí a verdade foi levada à Irlanda, sendo em todos estes países recebida com alegria.
Quando os saxões invadiram a Bretanha, o paganismo conseguiu predomínio. Os conquistadores desdenharam ser instruídos por seus escravos, e os cristãos foram obrigados a retirar-se para as montanhas e os pântanos. Não obstante, a luz por algum tempo oculta continuou a arder. Na Escócia, um século mais tarde, brilhou ela com um fulgor que se estendeu a mui longínquas terras. Da Irlanda vieram o piedoso 
Columba e seus colaboradores, os quais, reunindo em torno de si os crentes dispersos da solitária ilha de Iona, fizeram desta o centro de seus trabalhos missionários. Entre estes evangelistas encontrava-se um observador do sábado bíblico, e assim esta verdade foi introduzida entre o povo. Estabeleceu-se uma escola em Iona, da qual saíram missionários, não somente para a Escócia e Inglaterra, mas para a Alemanha, Suíça e mesmo para a Itália.
Roma, porém, fixara os olhos na Bretanha e resolvera pô-la sob sua supremacia. No século VI seus missionários empreenderam a conversão dos pagãos saxões. Foram recebidos com favor pelos orgulhosos bárbaros, e induziram muitos milhares a professar a fé romana. O trabalho progredia e os dirigentes papais e seus conversos encontraram os cristãos primitivos. Eloquente contraste se apresentou. Os últimos eram simples, humildes e de carácter, doutrina e maneiras segundo as Escrituras, ao passo que os primeiros manifestavam a superstição, a pompa e a arrogância do papado. O emissário de Roma exigiu que estas igrejas cristãs reconhecessem a supremacia do soberano pontífice. Os bretões mansamente replicaram que desejavam amar a todos os homens, mas que o papa não tinha direito à supremacia na igreja, e que eles poderiam prestar-lhe somente a submissão devida a todo seguidor de Cristo. Repetidas tentativas foram feitas para se conseguir sua adesão a Roma; mas esses humildes cristãos, espantados com o orgulho ostentado por seus emissários, firmemente replicavam que não conheciam outro mestre senão a Cristo. Revelou-se, então, o verdadeiro espírito do papado. Disse o chefe romano: "Se não receberdes irmãos que vos trazem paz, recebereis inimigos que vos trarão guerra. Se vos não unirdes connosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, recebereis deles o golpe de morte." - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Não era isto simples ameaça. Guerra, intriga e engano foram empregados contra as testemunhas de uma fé bíblica, até que as igrejas da Bretanha foram destruídas ou obrigadas a submeter-se à autoridade do papa.
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiram por muitos séculos corporações de cristãos que permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afectados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades. Estes cristãos acreditavam na perpetuidade da lei de Deus e observavam o sábado do quarto mandamento. Igrejas que se mantinham nesta fé e prática, existiram na África Central e entre os arménios, na Ásia.
Mas dentre os que resistiram ao cerco cada vez mais apertado do poder papal, os valdenses ocuparam posição preeminente. A falsidade e corrupção papal encontraram a mais decidida resistência na própria terra em que o papa fixara a sede. Durante séculos as igrejas do Piemonte mantiveram-se independentes; mas afinal chegou o tempo em que Roma insistiu em submetê-las. Depois de lutas inúteis contra a tirania, os dirigentes destas igrejas reconheceram relutantemente a supremacia do poder a que o mundo todo parecia render homenagem. Alguns houve, entretanto, que se recusaram a ceder à autoridade do papa ou do prelado. Estavam decididos a manter sua fidelidade a Deus, e preservar a pureza e simplicidade de fé. Houve separação. Os que se apegaram à antiga fé, retiraram-se; alguns, abandonando os Alpes nativos, alçaram a bandeira da verdade em terras estrangeiras; outros se retraíram para os vales afastados e fortalezas das montanhas, e ali preservaram a liberdade de culto a Deus.
A fé que durante muitos séculos fora mantida e ensinada pelos cristãos valdenses, estava em assinalado contraste com as falsas doutrinas que Roma apresentava. A sua crença religiosa baseava-se na Palavra escrita de Deus - o verdadeiro documento religioso do cristianismo. Mas aqueles humildes camponeses, em seu obscuro retiro, excluídos do mundo e presos à labuta diária entre seus rebanhos e vinhedos, não teriam por si sós chegados à verdade em oposição aos dogmas e heresias da igreja apóstata. A fé que professavam não era nova. Sua crença religiosa era a herança de seus pais. Lutavam pela fé da igreja apostólica - a "fé que uma vez foi dada aos santos". Jud. 3. "A igreja no deserto" e não a orgulhosa hierarquia entronizada na grande capital do mundo, era a verdadeira igreja de Cristo, a depositária dos tesouros da verdade que Deus confiara a Seu povo para ser dada ao mundo.
Entre as principais causas que levaram a igreja verdadeira a separar-se da de Roma, estava o ódio desta ao sábado bíblico. Conforme fora predito pela profecia, o poder papal lançou a verdade por terra. A lei de Deus foi lançada ao pó, enquanto se exaltavam as tradições e costumes dos homens. As igrejas que estavam sob o governo do papado, foram logo compelidas a honrar o domingo como dia santo. No meio do erro e superstição que prevaleciam, muitos, mesmo dentre o verdadeiro povo de Deus, ficaram tão desorientados que ao mesmo tempo em que observavam o sábado, afastavam-se do trabalho também no domingo. Isso, porém, não satisfazia aos chefes papais. Exigiam não somente que fosse santificado o domingo, mas que o sábado fosse profanado; e com a mais violenta linguagem denunciavam os que ousavam honrá-lo. Era unicamente fugindo ao poder de Roma que alguém poderia em paz obedecer à lei de Deus.
Os valdenses foram os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição. Declaravam ser a Igreja de Roma a Babilónia apóstata do Apocalipse, e com perigo de vida erguiam-se para resistir a suas corrupções. Opressos pela prolongada perseguição, alguns comprometeram sua fé, cedendo pouco a pouco em seus princípios distintivos, enquanto outros sustentavam firme a verdade. Durante séculos de trevas e apostasia, houve alguns dentre os valdenses que negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e guardavam o verdadeiro sábado. Sob as mais atrozes tempestades da oposição conservaram a fé. Perseguidos embora pela espada dos saboianos (França) e queimados pela fogueira romana, mantiveram-se sem hesitação ao lado da Palavra de Deus e de Sua honra.
Por trás dos elevados baluartes das montanhas - em todos os tempos refúgio dos perseguidos e oprimidos - os valdenses encontraram esconderijo. Ali, conservou-se a luz da verdade a arder por entre as trevas da Idade Média. Ali, durante mil anos, testemunhas da verdade mantiveram a antiga fé.
Deus providenciara para Seu povo um santuário de majestosa grandeza, de acordo com as extraordinárias verdades confiadas à sua guarda. Para os fiéis exilados, eram as montanhas um emblema da imutável justiça de Jeová. Apontavam eles a seus filhos as alturas sobranceiras, em sua imutável majestade, e falavam-lhes d´Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação, cuja Palavra é tão perdurável como os montes eternos. Deus estabelecera firmemente as montanhas e as cingira de fortaleza; braço algum, a não ser o do Poder infinito, poderia movê-las do lugar. De igual maneira estabelecera Ele a Sua lei - fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. O braço do homem poderia atingir a seus semelhantes e destruir-lhes a vida; mas esse braço seria tão impotente para desarreigar as montanhas de seu fundamento e precipitá-las no mar, como para mudar um preceito da lei de Jeová ou anular qualquer de Suas promessas aos que Lhe fazem a vontade. Na fidelidade para com a Sua lei, os servos de Deus deviam ser tão firmes como os outeiros imutáveis.
As montanhas que cingiam os fundos vales eram testemunhas constantes do poder criador de Deus e afirmação sempre infalível de Seu cuidado protector. Esses peregrinos aprenderam a amar os símbolos silenciosos da presença de Jeová. Não condescendiam com murmurações por causa das dificuldades da sorte; nunca se sentiam abandonados na solidão das montanhas. Agradeciam a Deus por haver-lhes provido refúgio da ira e crueldade dos homens. Regozijavam-se diante d´Ele na liberdade de prestar culto. Muitas vezes, quando perseguidos pelos inimigos, a fortaleza das montanhas se provara ser defesa segura. De muitos rochedos elevados entoavam eles louvores a Deus e os exércitos de Roma não podiam fazer silenciar seus cânticos de ações de graças.
Torre Pellice, aqui os cristãos alimentados
pela pura Palavra de Deus viviam, nas grutas. A fé
era fortalecida na persegução.

Pura, singela e fervorosa era a piedade desses seguidores de Cristo. Os princípios da verdade, avaliavam-nos eles acima de casas e terras, amigos, parentes e mesmo da própria vida. Semelhantes princípios ardorosamente procuravam eles gravar no coração dos jovens. Desde a mais tenra infância os jovens eram instruídos nas Escrituras, e ensinava-se-lhes a considerar santos os requisitos da lei de Deus. Sendo raros os exemplares das Escrituras Sagradas, eram suas preciosas palavras confiadas à memória. Muitos eram capazes de repetir longas porções tanto do Antigo como do Novo Testamento. Os pensamentos de Deus associavam-se ao sublime cenário da natureza e às humildes bênçãos da vida diária. Criancinhas aprendiam a olhar com gratidão a Deus como o Doador de toda mercê e conforto.
Os pais, ternos e afectuosos como eram, tão sabiamente amavam os filhos que não permitiam que se habituassem à condescendência própria. Esboçava-se diante deles uma vida de provações e dificuldades, talvez a morte de mártir. Eram ensinados desde a infância a suportar rudezas, a sujeitar-se ao domínio, e contudo a pensar e agir por si mesmos. Muito cedo eram ensinados a encarar responsabilidades, a serem precavidos no falar e a compreenderem a sabedoria do silêncio. Uma palavra indiscreta que deixassem cair no ouvido dos inimigos, poderia pôr em perigo não somente a vida do que falava, mas a de centenas de seus irmãos; pois, semelhantes a lobos à caça da presa, os inimigos da verdade perseguiam os que ousavam reclamar liberdade para a fé religiosa.
Os valdenses haviam sacrificado a prosperidade temporal por amor à verdade, e com paciência perseverante labutavam para ganhar o pão. Cada recanto de terra cultivável entre as montanhas era cuidadosamente aproveitado; fazia-se com que os vales e as encostas menos férteis das colinas também produzissem. A economia e a severa renúncia de si próprio formavam parte da educação que os filhos recebiam como seu único legado. Ensinava-se-lhes que Deus determinara fosse a vida uma disciplina e que suas necessidades poderiam ser supridas apenas mediante o trabalho pessoal, previdência, cuidado e fé. O processo era laborioso e fatigante, mas salutar, precisamente o de que o homem necessita em seu estado decaído - escola que Deus proveu para o seu ensino e desenvolvimento. Enquanto os jovens se habituavam ao trabalho e asperezas, a cultura do intelecto não era negligenciada. Ensinava-se-lhes que todas as suas capacidades pertenciam a Deus, e que deveriam todas ser aperfeiçoadas e desenvolvidas para o Seu serviço.
As igrejas valdenses, em sua pureza e simplicidade, assemelhavam-se à igreja dos tempos apostólicos. Rejeitando a supremacia do papa e prelados, mantinham a Escritura Sagrada como a única autoridade suprema, infalível. Seus pastores, diferentes dos altivos sacerdotes de Roma, seguiam o exemplo de seu Mestre que "veio não para ser servido, mas para servir". Alimentavam o rebanho de Deus, guiando-os às verdes pastagens e fontes vivas de Sua santa Palavra. Longe dos monumentos da pompa e orgulho humano, o povo congregava-se, não em igrejas sumptuosas ou grandes catedrais, mas à sombra das montanhas nos vales alpinos, ou, em tempo de perigo, em alguma fortaleza rochosa, a fim de escutar as palavras da verdade proferidas pelos servos de Cristo. Os pastores não somente pregavam o evangelho, mas visitavam os doentes, doutrinavam as crianças, admoestavam aos que erravam e trabalhavam para resolver as questões e promover harmonia e amor fraternal. Em tempos de paz eram sustentados por ofertas voluntárias do povo; mas, como Paulo, o fabricante de tendas, cada qual aprendia um ofício ou profissão, mediante a qual, sendo necessário, proveria o sustento próprio.
De seus pastores recebiam os jovens instrução. Conquanto se desse atenção aos ramos dos conhecimentos gerais, fazia-se da Escritura Sagrada o estudo principal. Os evangelhos de Mateus e João eram confiados à memória, juntamente com muitas das epístolas. Também se ocupavam em copiar as Escrituras. Alguns manuscritos continham a Bíblia toda, outros apenas breves porções, a que algumas simples explicações do texto eram acrescentadas por aqueles que eram capazes de comentar as Escrituras. Assim se apresentavam os tesouros da verdade durante tanto tempo ocultos pelos que procuravam exaltar-se acima de Deus.
Mediante pacientes e incansáveis labores, por vezes nas profundas e escuras cavernas da Terra, à luz de archotes, eram copiadas as Escrituras Sagradas, versículo por versículo, capítulo por capítulo. Assim a obra prosseguia, resplandecendo, qual ouro puro, a vontade revelada de Deus; e quanto mais brilhante, clara e poderosa era por causa das provações que passavam por seu amor, apenas o poderiam compreender os que se achavam empenhados em obra semelhante. Anjos celestiais circundavam os fiéis obreiros.
Satanás incitara sacerdotes e prelados a enterrarem a Palavra da verdade sob a escória do erro, heresia e superstição; mas de modo maravilhosíssimo foi ela conservada incontaminada através de todos os séculos de trevas. Não trazia o cunho do homem, mas a impressão divina. Os homens se têm demonstrado incansáveis em seus esforços para obscurecer o claro e simples sentido das Escrituras, e fazê-las contradizerem seu próprio testemunho; porém, semelhante à arca sobre as profundas águas encapeladas, a Palavra de Deus leva de vencida as borrascas que a ameaçam de destruição. Assim como tem a mina ricos veios de ouro e prata ocultos por sob a superfície, de maneira que todos os que desejam descobrir os preciosos depósitos devem cavar, assim as Sagradas Escrituras têm tesouros de verdade que são revelados unicamente ao ardoroso, humilde e devoto pesquisador. Deus destinara a Bíblia a ser um compêndio para toda a humanidade, na infância, juventude e idade madura, devendo ser estudada através de todos os tempos. Deu Sua Palavra aos homens como revelação de Si mesmo. Cada nova verdade que se divisa é uma nova revelação do caráter de seu Autor. O estudo das Escrituras é o meio divinamente ordenado para levar o homem a mais íntima comunhão com seu Criador e dar-lhe mais claro conhecimento de Sua vontade. É o meio de comunicação entre Deus e o homem.
Conquanto os valdenses considerassem o temor do Senhor como o princípio da sabedoria, não eram cegos no tocante à importância do contacto com o mundo, do conhecimento dos homens e da vida activa, para expandir o espírito e avivar as percepções. De suas escolas nas montanhas alguns dos jovens foram enviados a instituições de ensino nas cidades da França ou Itália, onde havia campo mais vasto para o estudo, pensamento e observação, do que nos Alpes nativos. Os jovens assim enviados estavam expostos à tentação, testemunhavam o vício, defrontavam-se com os astuciosos agentes de Satanás, que lhes queriam impor as mais subtis heresias e os mais perigosos enganos. Mas sua educação desde a meninice fora de molde a prepará-los para tudo isto.
Nas escolas aonde iam, não deveriam fazer confidentes a quem quer que fosse. Suas vestes eram preparadas de maneira a ocultar seu máximo tesouro - os preciosos manuscritos das Escrituras. A estes, fruto de meses e anos de labuta, levavam consigo e, sempre que o podiam fazer sem despertar suspeita, cautelosamente punham uma porção ao alcance daqueles cujo coração parecia aberto para receber a verdade. Desde os joelhos da mãe a juventude valdense havia sido educada com este propósito em vista; compreendiam o trabalho, e fielmente o executavam. Ganhavam-se conversos à verdadeira fé nessas instituições de ensino, e frequentemente se encontravam seus princípios a penetrar a escola toda; contudo os chefes papais não podiam pelo mais minucioso inquérito descobrir a fonte da chamada heresia corruptora.
O espírito de Cristo é espírito missionário. O primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador. Tal foi o espírito dos cristãos valdenses. Compreendiam que Deus exigia mais deles do que simplesmente preservar a verdade em sua pureza, nas suas próprias igrejas; e que sobre eles repousava a solene responsabilidade de deixarem sua luz resplandecer aos que se achavam em trevas. Pelo forte poder da Palavra de Deus procuravam romper o cativeiro que Roma havia imposto.
Os ministros valdenses eram educados como missionários, exigindo-se primeiramente de cada um que tivesse a expectativa de entrar para o ministério, aquisição de experiência como evangelista. Cada um deveria servir três anos em algum campo missionário antes de assumir o encargo de uma igreja em seu país. Este serviço, exigindo logo de começo renúncia e sacrifício, era introdução apropriada à vida pastoral naqueles tempos que punham à prova a alma. Os jovens que recebiam a ordenação para o sagrado mister, viam diante de si, não a perspectiva de riquezas e glória terrestre, mas uma vida de trabalhos e perigo, e possivelmente o destino de mártir. Os missionários iam de dois em dois, como Jesus enviara Seus discípulos. Cada jovem tinha usualmente por companhia um homem de idade e experiência, achando-se aquele sob a orientação do companheiro, que ficava responsável por seu ensino, e a cuja instrução se esperava que seguisse. Estes coobreiros não estavam sempre juntos, mas muitas vezes se reuniam para orar e aconselhar-se, fortalecendo-se assim mutuamente na fé.
Tornar conhecido o objectivo de sua missão seria assegurar a derrota; ocultavam, portanto, cautelosamente seu verdadeiro caráter. Cada ministro possuía conhecimento de algum ofício ou profissão e os missionários prosseguiam na obra sob a aparência de vocação secular. Usualmente escolhiam a de mercador ou vendedor ambulante. "Levavam sedas, jóias e outros artigos, que naquele tempo não se compravam facilmente, a não ser em mercados distantes; e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários." - Wylie. Em todo o tempo seu coração se levantava a Deus rogando sabedoria a fim de apresentar um tesouro mais precioso do que o ouro ou jóias. Levavam secretamente consigo exemplares da Escritura Sagrada, no todo ou em parte; quando quer que se apresentasse oportunidade, chamavam a atenção dos fregueses para os manuscritos. Muitas vezes assim se despertava o interesse de ler a Palavra de Deus, e alguma porção era de bom grado deixada com os que a desejavam receber.
A obra destes missionários começava nas planícies e vales ao pé de suas próprias montanhas, mas estendia-se muito além destes limites. Descalços e com vestes singelas e poentas da jornada como eram as de seu Mestre, passavam por grande cidades e penetravam em longínquas terras. Por toda parte espalhavam a preciosa verdade. Surgiam igrejas em seu caminho e o sangue dos mártires testemunhava da verdade. O dia de Deus revelará rica colheita de almas enceleiradas pelos labores destes homens fiéis. Velada e silenciosa, a Palavra de Deus rompia caminho através da cristandade e tinha alegre acolhida nos lares e corações.
Para os valdenses não eram as Escrituras simplesmente o registo do trato de Deus para com os homens no passado e a revelação das responsabilidades e deveres do presente, mas o desvendar dos perigos e glórias do futuro. Acreditavam que o fim de todas as coisas não estava muito distante; e, estudando a Bíblia com oração e lágrimas, mais profundamente se impressionavam com suas preciosas declarações e com o dever de tornar conhecidas a outros as suas verdades salvadoras. Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em Jesus. Ao iluminar-lhes a luz o entendimento e ao alegrar-lhes ela o coração, anelavam derramar seus raios sobre os que se achavam nas trevas do erro papal.
Viam que sob a direção do papa e sacerdotes, multidões em vão se esforçavam por obter perdão afligindo o corpo por causa do pecado da alma. Ensinados a confiar nas boas obras para se salvarem, estavam sempre a olhar para si mesmos, ocupando a mente com a sua condição pecaminosa, vendo-se expostos à ira de Deus, afligindo alma e corpo, não achando, contudo, alívio. Almas conscienciosas eram, assim, enredadas pelas doutrinas de Roma. Milhares abandonavam amigos e parentes, passando a vida nas celas dos conventos. Por meio de frequentes jejuns e cruéis açoitamentos, por vigílias à meia-noite, prostrando-se durante horas cansativas sobre as lajes frias e húmidas de sua sombria habitação, por longas peregrinações, penitências humilhantes e terrível tortura, milhares procuravam inutilmente obter paz de consciência. Oprimidos por uma intuição de pecado e perseguidos pelo temor da ira vingadora de Deus, muitos continuavam a sofrer até que a natureza exausta se rendia e, sem um resquício de luz ou esperança, baixavam à sepultura.
Os valdenses ansiavam por partir a estas almas famintas o pão da vida, revelar-lhes as mensagens de paz das promessas de Deus e apontar-lhes a Cristo como a única esperança de salvação. Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus. A confiança nos méritos humanos faz perder de vista o amor infinito de Cristo. Jesus morreu como sacrifício pelo homem porque a raça caída nada pode fazer para se recomendar a Deus. Os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido são o fundamento da fé cristã. A dependência da alma para com Cristo é tão real, e sua união com Ele deve ser tão íntima como a do membro para com o corpo, ou da vara para com a videira.
Os ensinos dos papas e sacerdotes haviam levado os homens a considerar o caráter de Deus, e mesmo o de Cristo, como severo, sombrio e repelente. Representava-se o Salvador tão destituído de simpatia para com o homem em seu estado decaído, que devia ser invocada a mediação de sacerdotes e santos. Aqueles cuja mente fora iluminada pela Palavra de Deus, anelavam guiar estas almas a Jesus, como seu compassivo e amante Salvador que permanece de braços estendidos a convidar todos a irem a Ele com seu fardo de pecados, seus cuidados e fadigas. Almejavam remover os obstáculos que Satanás havia acumulado para que os homens não pudessem ver as promessas, e ir diretamente a Deus, confessando os pecados e obtendo perdão e paz.
Ardorosamente desvendava o missionário valdense as preciosas verdades do evangelho ao espírito inquiridor. Citava com precaução as porções cuidadosamente copiadas da Sagrada Escritura. Era a sua máxima alegria infundir esperança à alma conscienciosa, ferida pelo pecado, e que tão-somente podia ver um Deus de vingança, esperando para executar justiça. Com lábios trémulos e olhos lacrimosos, muitas vezes com os joelhos curvados, expunha a seus irmãos as preciosas promessas que revelam a única esperança do pecador. Assim a luz da verdade penetrava muitas almas obscurecidas, fazendo recuar a nuvem sombria até que o Sol da Justiça resplandecesse no coração, trazendo saúde em seus raios. Dava-se amiúde o caso de alguma porção das Escrituras ser lida várias vezes, desejando o ouvinte que fosse repetida, como se quisesse assegurar-se de que tinha ouvido bem. Em especial se desejava, de maneira ávida, a repetição destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado." I João 1:7. "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15.
Muitos não se iludiam em relação às pretensões de Roma. Viam quão vã é a mediação de homens ou anjos em favor do pecador. Raiando-lhes na mente a verdadeira luz, exclamavam com regozijo: "Cristo é meu Sacerdote; Seu sangue é meu sacrifício; Seu altar é meu confessionário." Confiavam-se inteiramente aos méritos de Jesus, repetindo as palavras: "Sem fé é impossível agradar-Lhe." Heb. 11:6. "Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12.
A certeza do amor de um Salvador parecia, a algumas destas pobres almas agitadas pela tempestade, coisa por demais vasta para ser abrangida. Tão grande era o alívio que sentiam, tal a inundação de luz que lhes sobrevinha, que pareciam transportadas ao Céu. Punham confiantemente suas mãos na de Cristo; firmavam os pés sobre a Rocha dos séculos. Bania-se todo o temor da morte. Podiam agora ambicionar a prisão e a fogueira se desse modo honrassem o nome de seu Redentor.
Em lugares ocultos era a Palavra de Deus apresentada e lida, algumas vezes a uma única alma, outras, a um pequeno grupo que anelava a luz e a verdade. Amiúde a noite toda era passada desta maneira. Tão grande era o assombro e admiração dos ouvintes que o mensageiro da misericórdia frequentemente se via obrigado a cessar a leitura até que o entendimento pudesse apreender as boas novas da salvação. Era comum proferirem-se palavras como estas: "Aceitará Deus em verdade a minha oferta? Olhar-me-á benignamente? Perdoar-me-á Ele?" Lia-se a resposta: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mat. 11:28.
A fé se apegava à promessa, ouvia-se a alegre resposta: "Nada mais de longas peregrinações; nada de penosas jornadas aos relicários sagrados. Posso ir a Jesus tal como estou, pecador e ímpio, e Ele não desprezará a oração de arrependimento. 'Perdoados te são os teus pecados.' Os meus pecados, efectivamente os meus, podem ser perdoados!"
Enchia o coração uma onda de sagrada alegria, e o nome de Jesus era engrandecido em louvores e acções de graças. Estas almas felizes voltavam para casa a fim de difundir a luz, repetir a outros, tão bem quanto podiam, a nova experiência, de que acharam o Caminho verdadeiro e vivo. Havia um estranho e solene poder nas palavras das Escrituras, que falava directamente ao coração dos que se achavam anelantes pela verdade. Era a voz de Deus e levava a convicção aos que ouviam.
O mensageiro da verdade continuava o seu caminho; mas seu aspecto de humildade, sua sinceridade, ardor e profundo fervor, eram assuntos de observação frequente. Em muitos casos os ouvintes não lhe perguntavam donde viera ou para onde ia. Ficavam tão dominados, a princípio pela surpresa e depois pela gratidão e alegria, que não pensavam em interrogá-lo. Quando insistiam com ele para os acompanhar a suas casas, respondia-lhes que devia visitar as ovelhas perdidas do rebanho. Não seria ele um anjo do Céu? Indagavam.
Em muitos casos não mais se via o mensageiro da verdade. Seguira para outros países, ou a vida se lhe consumia em algum calabouço desconhecido, ou talvez seus ossos estivessem alvejando no local em que testificara da verdade. Mas as palavras que deixara após si, não poderiam ser destruídas. Estavam a fazer sua obra no coração dos homens; os benditos resultados só no dia do juízo se revelarão plenamente.
Os missionários valdenses estavam invadindo o reino de Satanás, e os poderes das trevas despertaram para maior vigilância. Todo esforço para avanço da verdade era observado pelo príncipe do mal, e ele excitava os temores de seus agentes. Os chefes papais viram grande perigo para a sua causa no trabalho destes humildes itinerantes. Se fosse permitido à luz da verdade resplandecer sem impedimento, varreria as pesadas nuvens de erro que envolviam o povo; haveria de dirigir o espírito dos homens a Deus unicamente, talvez destruindo, afinal, a supremacia de Roma.
A própria existência deste povo, mantendo a fé da antiga igreja, era testemunho constante da apostasia de Roma, e portanto excitava o ódio e perseguição mais atrozes. Sua recusa de renunciar às Escrituras era também ofensa que Roma não podia tolerar. Decidiu-se ela a exterminá-los da Terra. Começaram então as mais terríveis cruzadas contra o povo de Deus em seus lares montesinos. Puseram-se inquisidores em suas pegadas, e a cena do inocente Abel tombando ante o assassino Caim repetia-se frequentemente.
Reiteradas vezes foram devastadas as suas férteis terras, destruídas as habitações e capelas, de maneira que onde houvera campos florescentes e lares de um povo simples e laborioso, restava apenas um deserto. Assim como o animal de rapina se torna mais feroz provando sangue, a ira dos sectários do papa acendia-se com maior intensidade com o sofrimento de suas vítimas. Muitas destas testemunhas da fé pura foram perseguidas através das montanhas e caçadas nos vales em que se achavam escondidas, encerradas por enormes florestas e cumes rochosos.
Nenhuma acusação se poderia fazer contra o carácter moral da classe proscrita. Mesmo seus inimigos declaravam serem eles um povo pacífico, sossegado e piedoso. Seu grande crime era não quererem adorar a Deus segundo a vontade do papa.
Por tal crime, toda humilhação, insulto e tortura que homens ou diabos podiam inventar, amontoaram-se sobre eles.
Determinando-se Roma a exterminar a odiada seita, uma bula foi promulgada pelo papa, condenando-os como hereges e entregando-os ao morticínio. Não eram acusados como ociosos, desonestos ou desordeiros; mas declarava-se que tinham uma aparência de piedade e santidade que seduzia "as ovelhas do verdadeiro aprisco". Portanto ordenava o papa que "aquela maligna e abominável seita de perversos", caso se recusasse a renunciar, "fosse esmagada como serpentes venenosas". - Wylie. Esperava o altivo potentado ter de responder por estas palavras? Sabia que estavam registradas nos livros do Céu, para lhe serem apresentadas no juízo? "Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos", disse Jesus, "a Mim o fizestes." Mat. 25:40.
Essa bula convocava a todos os membros da igreja para se unirem à cruzada contra os hereges. Como incentivo para se empenharem na obra cruel, "absolvia de todas as penas e castigos eclesiásticos, gerais e particulares; desobrigava a todos os que se unissem à cruzada, de qualquer juramento que pudessem ter feito; legitimava-lhes o direito a qualquer propriedade que pudessem ter ilegalmente adquirido; e prometia remissão de todos os pecados aos que matassem algum herege. Anulava todos os contratos feitos em favor dos valdenses, ordenava que seus criados os abandonassem, proibia a toda pessoa dar-lhes qualquer auxílio que fosse e a todos permitia tomar posse de sua propriedade". - Wylie. Este documento revela claramente o espírito que o ditou. É o bramido do dragão, e não a voz de Cristo, que nele se ouve.
Os dirigentes papais não queriam conformar seu caráter com a grande norma da lei de Deus, mas erigiram uma norma que lhes fosse conveniente, e decidiram obrigar todos a se conformarem com a mesma porque Roma assim o desejava. As mais horríveis tragédias foram encenadas. Sacerdotes e papas corruptos e blasfemos estavam a fazer a obra que Satanás lhes designava. A misericórdia não encontrava guarida em sua natureza. O mesmo espírito que crucificou Cristo e matou os apóstolos, o mesmo que impulsionou o sanguinário Nero contra os fiéis de seu tempo, estava em operação a fim de exterminar da Terra os que eram amados de Deus.
As perseguições desencadeadas durante muitos séculos sobre este povo temente a Deus, foram por ele suportadas com uma paciência e constância que honravam seu Redentor. Apesar das cruzadas contra eles e da desumana carnificina a que foram sujeitos, continuavam a mandar seus missionários a espalhar a preciosa verdade. Eram perseguidos até à morte; contudo, seu sangue regava a semente lançada, e esta não deixou de produzir fruto. Assim os valdenses testemunharam de Deus, séculos antes do nascimento de Lutero. Dispersos em muitos países, plantaram a semente da Reforma que se iniciou no tempo de Wycliffe, cresceu larga e profundamente nos dias de Lutero, e deve ser levada avante até ao final do tempo por aqueles que também estão dispostos a sofrer todas as coisas pela "Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo". Apoc. 1:9.

MENSAGEM PARA O TEMPO DO FIM

Para cada período da História, Deus tem uma mensagem específica. Essa mensagem é denominada “verdade presente” Exemplo disso é a pregação de Noé, que conclamou o mundo antediluviano ao arrependimento e anunciou a destruição por meio do dilúvio (Gn 6 e 7).
No Novo Testamento, encontramos outro exemplo em que a mensagem presente consistia em aceitar Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Embora essa pregação cristocêntrica permeie a Bíblia em todos os tempos, naquela época, os apóstolos tinham o desafio de levar as pessoas a aceitar o Carpinteiro judeu como o prometido Messias do Antigo Testamento (At 2:22-36; 4:11,12; 5:30,31).
Avançando na História, encontramos no século dezesseis o movimento da Reforma Protestante com a mensagem de que a Bíblia é a única regra de fé (Sola Scriptura) e de que a fé nos méritos de Cristo é o único meio pelo qual alguém pode ser aceito e salvo por Deus (Sola Fide). Tais aspectos da mensagem eram apropriados ao contexto em que os reformadores viviam, pois o papado havia exaltado a tradição em lugar do ‘Assim diz o Senhor” e a salvação pelas obras em lugar da justiça de Cristo.
Tempo do fim.
Qual é a mensagem de Deus para nosso tempo? Para entendermos isso, precisamos identificar o período da História em que vivemos. No capítulo 12 do livro de Daniel, Deus revela ao profeta que o entendimento do seu livro só ocorreria no “tempo do fim” (v. 9). Esse tempo chegaria após o período profetizado “de um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 7), o que equivale a 1260 anos (538 d.C – 1798 d.C), nos quais o Romanismo mudaria o Decálogo, perseguiria os fiéis de Deus e lançaria a verdade por terra (Dn 7:25; 8:12; Ap 12:6,13,14; 13:5,6).
Portanto, em 1798, começou o ”tempo do fim” um período singular em que as principais profecias de Daniel se cumpririam (Dn 8:14; 12:11, 12), haveria um crescente avanço do conhecimento profético e também científico (Dn 12:4) e a História registraria importantes sinais preditos nos evangelhos e no livro do Apocalipse (Mt 24:29; Mc 13:24,25; Lc 21:11,25; Ap 6:12-14). (2)
Para esse tempo, Deus tem uma advertência de especial importância para os habitantes da Terra. É o último aviso de misericórdia a este mundo mergulhado nas trevas do pecado. Encontramos essa mensagem em Apocalipse 14:6-12 – a tríplice mensagem angélica. Essa tríplice mensagem antecede a cena da segunda vinda de Cristo – o Cavaleiro que vem para ceifar a seara da Terra (versos 14-16). Portanto, é uma advertência que deve ser comunicada no tempo do fim, uma solene mensagem que visa a preparar um povo para o encontro com o Rei que Se aproxima. O verso 13, que está entre a tríplice mensagem e os textos da Segunda Vinda, pronuncia uma bênção sobre aqueles que morrem no período em que essas mensagens são pregadas e crêem nelas: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”(3)
A pessoa de Cristo e Sua obra salvadora constituem o tema catalisador dessa tríplice mensagem. Nela, o ”evangelho eterno” as boas novas da justiça e da salvação em Cristo são o tema central e predominante, como demonstrado na introdução da passagem (v. 6).(4)
O primeiro anjo proclama o juízo de Deus (v. 7), o qual começou sua primeira fase em 22 de outubro de 1844. Nessa data, terminou o grande período profético dos 2300 anos de Daniel 8:14, e começou a purificação do santuário celestial, a qual corresponde ao mesmo julgamento visto pelo profeta no (capítulo 7:9-10) (5).
Nessa nova fase de Seu ministério, Cristo não só intercede pela humanidade, como já vinha fazendo, mas atua no juízo em defesa de Seu povo, que está sendo julgado conforme os registros celestiais (Dn 7:10). Para essa fase do julgamento, usam-se os termos juízo pré-advento ou juízo investigativo, pois ocorre no 
período que antecede a segunda vinda de Cristo e no qual os filhos de Deus são julgados/examinados pelo padrão da lei divina que deve ser obedecida como fruto da fé em Cristo.(6) Diante da iminência do julgamento, o anjo conclama a humanidade a temer a Deus, glorificá-Lo e adorá-Lo.
O segundo anjo anuncia a queda de Babilônia (v. 8), o falso sistema religioso dos últimos dias. A queda é conseqüência de o sistema estar fundamentado no erro, por ter rejeitado a verdade bíblica e defender doutrinas espúrias, como: imortalidade da alma, santidade do domingo, salvação pelas obras, etc. Quem não aceitar as palavras de Cristo e não as praticar, experimentará a ruína (Mt 7:26, 27), e quem “ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (2 Jo 9). Assim, a mensagem do segundo anjo é um convite para que saiam de Babilônia todos os que foram enganados por suas falsas doutrinas (Ap 18:1-5) e aceitem a verdade conforme revelada em Cristo.
O terceiro anjo acompanha as outras mensagens com uma advertência contra a adoração à besta e ao recebimento da sua marca (Ap 14:9-11). Essa mensagem demonstra que o conflito final girará em torno da lealdade a Deus por meio da guarda dos Seus mandamentos ou à obediência a preceitos humanos. (7) Uma corporação de Igreja/Estado, nos últimos dias (Ap 13:11, 12), obrigará a humanidade a observar como dia de guarda um falso dia de adoração (Ap 13:16,17) em lugar do dia estipulado por Deus em Sua lei (Êx 20:8-11). Os que aceitarem esse falso dia serão atingidos pelas sete últimas pragas que serão derramadas “sem mistura” de misericórdia (Ap 14:9, 10; 15:1; 16). Em contraste, haverá o grupo daqueles que permanecerão fiéis a Deus mesmo diante das mais terríveis ameaças e que foram classificados como santos por guardarem “os mandamentos de Deus” como fruto de sua “fé em Jesus” (Ap 14:12).
Mensagem específica.
Justamente nesse tempo, o tempo do fim, no qual a tríplice mensagem deve ser proclamada, Deus suscita um povo para cumprir essa solene missão. Esse povo é identificado como aqueles “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Essa última característica – “o testemunho de Jesus” – é definida como a manifesta-ção do dom de profecia (Ap 19:10). A Igreja Adventista do Sétimo Dia se enquadra nessa classificação, pois surge no período do tempo do fim (1844) como resultado dos estudos e do cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse, exaltando a obediência à Lei de Deus, especificamente a validade do sábado, e testemunhando, em seu meio, a manifestação do verdadeiro dom de profecia na pessoa de Eilen G. White.
Desse modo, há um povo que prega uma mensagem específica no tempo determinado pela profecia. Esse povo foi levantado para restaurar as verdades que foram lançadas por terra durante o período de supremacia papal, reparar as “brechas” feitas na lei de Deus, edificando, assim, “as antigas ruínas” (Is 58:12). Nossa responsabilidade é levar ao mundo uma mensagem singular, preparando “a seara da Terra” para a vinda do Filho do homem. “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. [..,] Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção. As mais solenes verdades já confiadas a mortais nos foram dadas, para as proclamarmos ao mundo. A proclamação dessas verdades deve ser nossa obra. O mundo precisa ser advertido, e o povo de Deus deve ser fiel ao legado que se lhe confiou”(9) Tal responsabilidade deve incutir em nós um senso de missão jamais visto em outro povo. Precisamos nos unir e concentrar as nossas forças nessa direção
Mas não podemos nos esquecer de que só cumpriremos essa missão com a ajuda do Espírito Santo. Em Apocalipse 18:1, a Terra é vista sendo iluminada pela glória celestial, e essa glória é a manifestação poderosa do Espírito Santo no tempo do fim, derramando Seu poder sobre a igreja como “chuva serôdia!(10) Esse poder capacitará a igreja para dar, “com potente voz” (verso 2), o último convite ao mundo, antes do fechamento da porta da graça (versos 2-5). Os adventistas do sétimo dia precisam ter como prioridade a busca desse poder a fim de continuar pregando “aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (verso 6) o evangelho eterno, no contexto da tríplice mensagem angélica. Cada pessoa que conheceu a verdade para o tempo presente e se une às fileiras do adventismo, é chamada a proclamar “as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9). Portanto, cumpramos nossa missão!
Referências1. MervinC Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 129,130.
2. Ibid.,p.318,319.
3. Alberto R. Timm, 0 Santuário e as três mensagens angélicas: fatores íntegrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002) p. 232.
4. Lição da Escola Sabatina, “O Último Convite: a mensagem dos três anjos”, outubro-dezembro,1994, p 17.
5. Clifford Goldstein, 1844: Uma explicacâo simples das principais profecias de Daniel – Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 45-48.
6. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 482.
7. Ellen G. White, Eventos Finais, p. 193.
8. Maxwell, 0p.Cit.,p. 422,423.
9. Ellen G. White, Evangelismo, p. 119,120.
10. Ellen G. White, O Grande Conflito pág 611, 612.
Texto de autoria de Ezinaldo Ubirajara Pereira, capelão do Hospital Adventista de Belém, Pará, publicado na Revista Adventista de Agosto/2008.
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15 de set. de 2018

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS

Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!

13 de set. de 2018

A obra do selamento já começou?

Já vimos que o anjo selador é o terceiro anjo (Ap 14:9-13). Logo, a obra do selamento teve início
quando o anjo começou a sua obra. Foi em 1844, quando foi revelada a verdade do Sábado.
" ‘Foi-Lhe [a Deus] muito agradável quando Sua Lei começou a crescer em força. Essa verdade
surge e está em crescimento cada vez mais forte. Ela é o selo! Está chegando! Surge, vindo da
banda do sol nascente; como o Sol, a princípio frio, se torna mais quente e envia seus raios. Quando
essa verdade surgiu, havia apenas um pouco de luz nela, mas esta tem aumentado. Oh, que poder
têm esses raios!’ " —Questions on the Sealing Message, págs. 15 e 16.
Embora esta obra tenha começado em 1844, não era plenamente compreendida nesse tempo. À
irmã White foi dada uma visão da obra do assinalamento:
"Numa reunião efetuada em Dorchester, Massachusetts, em novembro de 1848, foi-me concedida
uma visão da proclamação da mensagem do assinalamento, e do dever que incumbia aos irmãos de
publicarem a luz que resplandecia em nosso caminho.
"Depois da visão eu disse ao meu esposo: ‘Tenho uma mensagem para ti. Deves começar a publicar
um pequeno jornal e mandá-lo ao povo. Seja pequeno a princípio. Mas, lendo-o o povo, mandar-te-
ão meios com que imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde este pequeno começo
foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.’ " —Vida e Ensinos,
pág. 128.
"Com o início desta obra de publicação, não cessamos nossos labores de pregar a verdade, mas
viajamos de um lugar para outro, proclamando as doutrinas que nos haviam trazido tão grande luz e
alegria, animando os crentes, corrigindo erros e pondo as coisas em ordem na Igreja." —Vida e
Ensinos, pág. 130.
Pelos escritos citados podemos ver que o assunto do selamento foi a primeira doutrina publicada em
A Verdade Presente (este era o nome do periódico) no primeiro número, na primeira página.
Portanto, os primeiros Adventistas compreenderam que a obra do selamento começou no início da
mensagem do terceiro anjo.
Em 1849 outra visão, que aqui citamos, foi dada à irmã White sobre a abertura e o fechamento da
porta:
"Vi que a presente prova do Sábado não poderia vir até que a mediação de Jesus no lugar santo
terminasse e Ele passasse para dentro do segundo véu. Portanto, os cristãos que dormiram antes
que a porta fosse aberta no santíssimo, quando terminou o clamor da meia-noite no sétimo mês, em
1844, e que não haviam guardado o verdadeiro Sábado, agora repousam em esperança, pois não
tiveram a luz e o teste sobre o Sábado que nós agora temos, uma vez que a porta foi aberta. Vi que
Satanás estava tentando alguns do povo de Deus neste ponto. Sendo que grande número de bons
cristãos adormeceram nos triunfos da fé e não guardaram o verdadeiro Sábado, eles estavam em
dúvida quanto a ser isto um teste para nós agora. ...
"Satanás está agora usando cada artifício neste tempo de selamento a fim de desviar a mente do
povo de Deus da verdade presente e levá-los a vacilar. Vi que Deus estava estendendo uma
cobertura sobre o Seu povo a fim de protegê-lo no tempo de angústia; e que cada alma que se
decidia pela verdade e era pura de coração devia ser coberta com a proteção do Todo-Poderoso.
"Satanás sabia disto e estava trabalhando com afinco para conservar vacilante e instável na verdade
a mente do maior número possível de pessoas. ...
"Satanás estava procurando lançar mão de todas as suas artes a fim de mantê-los onde estavam
até que a cobertura fosse estendida sobre o povo de Deus, e eles [os que não estavam firmes ao
lado da verdade presente] fossem deixados sem um abrigo da ardente ira de Deus, nas sete últimas
pragas." —Primeiros Escritos, pág. 42 e 43.
"Deus está começando a estender a cobertura sobre Seu povo, e ela logo será estendida sobre todos
os que devem ter um abrigo no dia da matança." —Primeiros Escritos, pág. 44.
A cobertura (selo) de Deus foi estendida sobre Seu povo ou, em outras palavras, o selo do Deus
vivo estava sendo colocado em suas frontes. Os que não foram selados estavam sujeitos às sete
últimas pragas. A profetisa disse que naquele tempo (1849) o selamento já estava em
prosseguimento.
"Nossa posição parece muito clara. Sabemos que temos a verdade, o clamor da meia-noite ficou
atrás; a porta se fechou em 1844 e Jesus em breve sairá da mediação entre Deus e o homem. O
selamento estará realizado, encerrado. Oh, conservemos toda a armadura de Deus a fim de
estarmos prontos para a batalha a qualquer momento. Teremos de lutar agora por polegada após
polegada de terreno. —Carta 5, 1849, págs. 5 e 6. Manuscript Releases, vol. 5, pág. 200.
"O tempo do selamento é muito curto, e logo passará. Agora, enquanto os quatro anjos estão
contendo os ventos, é o tempo de fazer firme a nossa vocação e eleição." —Primeiros Escritos, pág.
58.
"Vi que Satanás operaria mais poderosamente agora do que nunca dantes. Ele sabe que seu tempo
é curto e que o assinalamento dos santos os colocará além de seu alcance. Ele agora opera de toda
maneira que lhe seja possível, e experimentará toda a sua insinuação para fazer que os santos não
estejam em guarda, e fazê-los adormecer sobre a verdade presente ou dela duvidar, para os
impedir de ser assinalados com o selo do Deus vivo." —Ms 7, 1850, págs. 2 e 3. Manuscript
Releases, vol. 8, pág. 220.
Em vez de declarar que o selamento logo começaria, a profetisa claramente afirmou que logo
terminaria.
"Quando Jesus deixa o santuário, então o que é santo e justo será santo e justo ainda, pois todos os
seus pecados estarão então apagados, e eles serão selados com o selo do Deus vivo. Mas os que
são injustos e sujos serão ainda injustos e sujos, pois então não haverá Sacerdote no santuário para
apresentar os sacrifícios, confissões e orações deles diante do trono do Pai. Portanto, o que se faz
para resgatar almas da ira vindoura deve ser feito antes que Jesus deixe o Lugar Santíssimo do
Santuário Celestial." —The Present Truth, vol. 1, no 4.
Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia acreditavam e ensinavam que desde 1844 se
estava cumprindo a primeira parte do capítulo sete de Apocalipse, como o citamos:
"Após o desapontamento de 1844 o povo de Deus viu a luz sobre a questão do santuário no Céu.
Então viram a obrigatoriedade do quarto mandamento, bem como dos outros nove mandamentos do
Decálogo. A reforma do Sábado começou naquele tempo. Em 1848 começou a ser reconhecida como
o cumprimento de Apocalipse 7:1-4." —S. N. Haskell, Manual da Bíblia (edição de 1996), pág. 124.
"O selo de Apocalipse 7:1-4 é o mesmo que o nome do Pai, de Apocalipse 14:1. Selo e sinal são às
vezes sinônimos (Rm 4:11). O sinal entre Deus e Seu povo é o Sábado (Êx 31:13-17; Ez 20:12 e
20). O atributo do poder criador distingue o verdadeiro Deus de todos os outros deuses, e esse
atributo se encontra somente no mandamento do Sábado. Portanto, esse mandamento, e somente
esse, contém o título ou nome que realmente sela o Decálogo como a Lei de Deus. Por isso o
Sábado se torna o selo da Lei de Deus e um sinal entre Ele e Seus verdadeiros filhos. A mensagem
do selamento de Apocalipse 7:1-8 é, portanto, apenas a profecia da reforma do Sábado nos últimos
dias." —O. A. Johnson, Bible Text-book, pág. 172.
"Caros irmãos espalhados pelo exterior: chegamos a um tempo em que podemos confiadamente
tomar nossa posição como a que está expressa no título que demos a estas linhas; que a
providência de Deus nos trouxe a um lugar onde a mensagem ou a obra do anjo que ascendia (Ap
7:2) deve cumprir-se.
"Sem passarmos a uma exposição dessa profecia, apresentemos alguns de seus principais aspectos
inquestionáveis:
"1. Os ventos denotam contendas políticas e comoções entre as nações.
"2. Os quatro anjos nos quatro cantos da Terra, retendo esses ventos, são quatro mensageiros
divinos a cujo cargo Deus confiou os negócios das nações, e cujo território é tanto para restringir os
ventos da contenda quando a obra de Deus o requerer, como também para fazer os ventos soprar e
levantar a grande tormenta dos confins da Terra (Jr 25:32), quando a Igreja de Deus estiver
preparada e as nações amadurecidas para essa comoção final.
"3. O anjo do verso 2, subindo da banda do Oriente com o selo do Deus vivo, é idêntico ao terceiro
anjo de Apocalipse 14:9-12.
"4. Seu clamor aos quatro anjos para que não destruíssem a Terra etc., isto é, para reterem o
soprar dos ventos até se completar o selamento dos servos de Deus, mostra de modo conclusivo
que está começando a surgir certa operação de conflito, guerra e comoção, que interfere na obra do
selamento e que, no conselho de Deus, tem de ser restringida até que a obra se complete.
"5. Como o anjo de Apocalipse 14:9 simboliza uma obra da parte da Igreja, assim o clamor deste
anjo denota forçosamente uma fervorosa petição do povo de Deus pela restrição de algum conflito
nacional ou político que esteja começando a interferir em sua obra." —Seventh-Day Adventists in
Time of War, págs. 70 e 71.
A primeira visão de E. G. White foi reimpressa na publicação intitulada To the Little Remmant
Scattered Abroad, de 6 de abril de 1846. Diz o parágrafo 6:
"Bem, prezados irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor, trata-se de uma reunião especial para os
que têm o selo do Deus vivo."
No artigo original publicado no The Day Star foi escrito o seguinte:
"E quando estávamos para entrar no santo templo, Jesus levantou Sua bela voz, e disse: ‘Somente
os 144 mil entram neste lugar.’ E nós exclamamos: ‘Aleluia!’ Bendito seja o Senhor, irmão
Jacobs, trata-se de uma reunião extraordinária para os que têm o selo do Deus vivo. Esse
templo era apoiado em sete colunas, todas de ouro transparente, cravejado das pérolas mais
reluzentes." —The Day Star, 24 de janeiro de 1846. (A frase omitida de Testimonies, vol. 1, pág. 69,
e Primeiros Escritos, pág. 19, está em negrito.)
É desconhecida a razão de esta frase ter sido omitida quando o artigo foi publicado em Testimonies,
vol. 1, pág. 69, mas com referência a essa supressão a irmã White declara o seguinte:
"Não há nisto nada que não sustentemos ainda. Referências a nossas obras publicadas mostrarão
nossa crença de que os vivos justos receberão o selo de Deus antes do fim da graça; também que
eles fruirão honras especiais no reino de Deus." —Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 66 (1883).
Esta explicação dada pela própria irmã White confirma que muitos irmãos tinham recebido o selo do
Deus vivo na testa desde o início da mensagem do terceiro anjo, e que em 1883 o povo do advento
ainda estava crendo nesta verdade.
Em outro testemunho ela declara:
"Os que têm na testa o selo do infinito Deus considerarão o mundo e suas atrações subordinados
aos interesses eternos." —Review and Herald, 13 de julho de 1897.
Ainda outra interessante declaração é a seguinte:
"Vivem em nossa Terra pessoas que passaram dos noventa anos de idade. Vêem-se em sua
debilidade os resultados naturais da idade avançada. Mas eles crêem em Deus, e Deus os ama. O
selo de Deus está sobre eles. Farão parte do número dos quais o Senhor disse: ‘Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.’ " —The SDA Bible Commentary [E. G.
White Comments], vol. 7, pág. 982 (1899).
"Uma irmã sueca disse: ‘Fiquei verdadeiramente renovada desde que cheguei aqui. Sinto-me forte
na fé. Jesus possibilitou a minha vinda, dando-me paz e amor. Quero ser uma humilde seguidora de
Cristo. Quero ter o selo de Deus na minha fronte.’ " —Review and Herald, 18 de maio de 1876.
fonte: o selamento do povo de Deus

UM POVO QUE DIFUNDE LUZ

Por entre as trevas que baixaram à Terra durante o longo período da supremacia papal, a luz da verdade não poderia ficar inteiramente extinta. Em cada época houve testemunhas de Deus - homens que acalentavam fé em Cristo como único mediador entre Deus e o homem, que mantinham a Escritura Sagrada como a única regra de vida, e santificavam o verdadeiro sábado. Quanto o mundo deve a estes homens, a posteridade jamais saberá. Foram estigmatizados como hereges, impugnados os seus motivos, criticado o seu carácter, e suprimidos, difamados ou mutilados os seus escritos. No entanto, permaneceram firmes, e de século em século mantiveram a fé em sua pureza como sagrado legado às gerações vindouras.
A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma, está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registos humanos. Poucos traços de sua existência se podem encontrar, a não ser nas acusações de seus perseguidores. Foi tática de Roma obliterar todo vestígio de dissidência de suas doutrinas ou decretos. Tudo que fosse herético, quer pessoas quer escritos, procurava ela destruir. Expressões de dúvida ou questões quanto à autoridade dos dogmas papais eram suficientes para tirar a vida do rico ou pobre, elevado ou humilde. Roma se esforçava também por destruir todo registo de sua crueldade para com os que discordavam dela. Os concílios papais decretavam que livros ou escritos contendo relatos desta
natureza deviam ser lançados às chamas. Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos, e de forma desfavorável à preservação; portanto, pouco havia a impedir que os romanistas levassem a efeito o seu desígnio.
Nenhuma igreja dentro dos limites da jurisdição romana ficou muito tempo sem ser perturbada no gozo da liberdade de consciência. Mal o papado obtivera poder, estendeu os braços para esmagar a todos os que se recusassem a reconhecer-lhe o domínio; e, uma após outra, submeteram-se as igrejas ao seu governo.
Na Grã-Bretanha o primitivo cristianismo muito cedo deitou raízes. O evangelho, recebido pelos bretões nos primeiros séculos, não se achava então corrompido pela apostasia romana. A perseguição dos imperadores pagãos, que se estendeu mesmo até àquelas praias distantes, foi a única dádiva que a primeira igreja da Bretanha recebeu de Roma. Muitos dos cristãos, fugindo da perseguição na Inglaterra, encontraram refúgio na Escócia; daí a verdade foi levada à Irlanda, sendo em todos estes países recebida com alegria.
Quando os saxões invadiram a Bretanha, o paganismo conseguiu predomínio. Os conquistadores desdenharam ser instruídos por seus escravos, e os cristãos foram obrigados a retirar-se para as montanhas e os pântanos. Não obstante, a luz por algum tempo oculta continuou a arder. Na Escócia, um século mais tarde, brilhou ela com um fulgor que se estendeu a mui longínquas terras. Da Irlanda vieram o piedoso 
Columba e seus colaboradores, os quais, reunindo em torno de si os crentes dispersos da solitária ilha de Iona, fizeram desta o centro de seus trabalhos missionários. Entre estes evangelistas encontrava-se um observador do sábado bíblico, e assim esta verdade foi introduzida entre o povo. Estabeleceu-se uma escola em Iona, da qual saíram missionários, não somente para a Escócia e Inglaterra, mas para a Alemanha, Suíça e mesmo para a Itália.
Roma, porém, fixara os olhos na Bretanha e resolvera pô-la sob sua supremacia. No século VI seus missionários empreenderam a conversão dos pagãos saxões. Foram recebidos com favor pelos orgulhosos bárbaros, e induziram muitos milhares a professar a fé romana. O trabalho progredia e os dirigentes papais e seus conversos encontraram os cristãos primitivos. Eloquente contraste se apresentou. Os últimos eram simples, humildes e de carácter, doutrina e maneiras segundo as Escrituras, ao passo que os primeiros manifestavam a superstição, a pompa e a arrogância do papado. O emissário de Roma exigiu que estas igrejas cristãs reconhecessem a supremacia do soberano pontífice. Os bretões mansamente replicaram que desejavam amar a todos os homens, mas que o papa não tinha direito à supremacia na igreja, e que eles poderiam prestar-lhe somente a submissão devida a todo seguidor de Cristo. Repetidas tentativas foram feitas para se conseguir sua adesão a Roma; mas esses humildes cristãos, espantados com o orgulho ostentado por seus emissários, firmemente replicavam que não conheciam outro mestre senão a Cristo. Revelou-se, então, o verdadeiro espírito do papado. Disse o chefe romano: "Se não receberdes irmãos que vos trazem paz, recebereis inimigos que vos trarão guerra. Se vos não unirdes connosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, recebereis deles o golpe de morte." - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Não era isto simples ameaça. Guerra, intriga e engano foram empregados contra as testemunhas de uma fé bíblica, até que as igrejas da Bretanha foram destruídas ou obrigadas a submeter-se à autoridade do papa.
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiram por muitos séculos corporações de cristãos que permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afectados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades. Estes cristãos acreditavam na perpetuidade da lei de Deus e observavam o sábado do quarto mandamento. Igrejas que se mantinham nesta fé e prática, existiram na África Central e entre os arménios, na Ásia.
Mas dentre os que resistiram ao cerco cada vez mais apertado do poder papal, os valdenses ocuparam posição preeminente. A falsidade e corrupção papal encontraram a mais decidida resistência na própria terra em que o papa fixara a sede. Durante séculos as igrejas do Piemonte mantiveram-se independentes; mas afinal chegou o tempo em que Roma insistiu em submetê-las. Depois de lutas inúteis contra a tirania, os dirigentes destas igrejas reconheceram relutantemente a supremacia do poder a que o mundo todo parecia render homenagem. Alguns houve, entretanto, que se recusaram a ceder à autoridade do papa ou do prelado. Estavam decididos a manter sua fidelidade a Deus, e preservar a pureza e simplicidade de fé. Houve separação. Os que se apegaram à antiga fé, retiraram-se; alguns, abandonando os Alpes nativos, alçaram a bandeira da verdade em terras estrangeiras; outros se retraíram para os vales afastados e fortalezas das montanhas, e ali preservaram a liberdade de culto a Deus.
A fé que durante muitos séculos fora mantida e ensinada pelos cristãos valdenses, estava em assinalado contraste com as falsas doutrinas que Roma apresentava. A sua crença religiosa baseava-se na Palavra escrita de Deus - o verdadeiro documento religioso do cristianismo. Mas aqueles humildes camponeses, em seu obscuro retiro, excluídos do mundo e presos à labuta diária entre seus rebanhos e vinhedos, não teriam por si sós chegados à verdade em oposição aos dogmas e heresias da igreja apóstata. A fé que professavam não era nova. Sua crença religiosa era a herança de seus pais. Lutavam pela fé da igreja apostólica - a "fé que uma vez foi dada aos santos". Jud. 3. "A igreja no deserto" e não a orgulhosa hierarquia entronizada na grande capital do mundo, era a verdadeira igreja de Cristo, a depositária dos tesouros da verdade que Deus confiara a Seu povo para ser dada ao mundo.
Entre as principais causas que levaram a igreja verdadeira a separar-se da de Roma, estava o ódio desta ao sábado bíblico. Conforme fora predito pela profecia, o poder papal lançou a verdade por terra. A lei de Deus foi lançada ao pó, enquanto se exaltavam as tradições e costumes dos homens. As igrejas que estavam sob o governo do papado, foram logo compelidas a honrar o domingo como dia santo. No meio do erro e superstição que prevaleciam, muitos, mesmo dentre o verdadeiro povo de Deus, ficaram tão desorientados que ao mesmo tempo em que observavam o sábado, afastavam-se do trabalho também no domingo. Isso, porém, não satisfazia aos chefes papais. Exigiam não somente que fosse santificado o domingo, mas que o sábado fosse profanado; e com a mais violenta linguagem denunciavam os que ousavam honrá-lo. Era unicamente fugindo ao poder de Roma que alguém poderia em paz obedecer à lei de Deus.
Os valdenses foram os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição. Declaravam ser a Igreja de Roma a Babilónia apóstata do Apocalipse, e com perigo de vida erguiam-se para resistir a suas corrupções. Opressos pela prolongada perseguição, alguns comprometeram sua fé, cedendo pouco a pouco em seus princípios distintivos, enquanto outros sustentavam firme a verdade. Durante séculos de trevas e apostasia, houve alguns dentre os valdenses que negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e guardavam o verdadeiro sábado. Sob as mais atrozes tempestades da oposição conservaram a fé. Perseguidos embora pela espada dos saboianos (França) e queimados pela fogueira romana, mantiveram-se sem hesitação ao lado da Palavra de Deus e de Sua honra.
Por trás dos elevados baluartes das montanhas - em todos os tempos refúgio dos perseguidos e oprimidos - os valdenses encontraram esconderijo. Ali, conservou-se a luz da verdade a arder por entre as trevas da Idade Média. Ali, durante mil anos, testemunhas da verdade mantiveram a antiga fé.
Deus providenciara para Seu povo um santuário de majestosa grandeza, de acordo com as extraordinárias verdades confiadas à sua guarda. Para os fiéis exilados, eram as montanhas um emblema da imutável justiça de Jeová. Apontavam eles a seus filhos as alturas sobranceiras, em sua imutável majestade, e falavam-lhes d´Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação, cuja Palavra é tão perdurável como os montes eternos. Deus estabelecera firmemente as montanhas e as cingira de fortaleza; braço algum, a não ser o do Poder infinito, poderia movê-las do lugar. De igual maneira estabelecera Ele a Sua lei - fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. O braço do homem poderia atingir a seus semelhantes e destruir-lhes a vida; mas esse braço seria tão impotente para desarreigar as montanhas de seu fundamento e precipitá-las no mar, como para mudar um preceito da lei de Jeová ou anular qualquer de Suas promessas aos que Lhe fazem a vontade. Na fidelidade para com a Sua lei, os servos de Deus deviam ser tão firmes como os outeiros imutáveis.
As montanhas que cingiam os fundos vales eram testemunhas constantes do poder criador de Deus e afirmação sempre infalível de Seu cuidado protector. Esses peregrinos aprenderam a amar os símbolos silenciosos da presença de Jeová. Não condescendiam com murmurações por causa das dificuldades da sorte; nunca se sentiam abandonados na solidão das montanhas. Agradeciam a Deus por haver-lhes provido refúgio da ira e crueldade dos homens. Regozijavam-se diante d´Ele na liberdade de prestar culto. Muitas vezes, quando perseguidos pelos inimigos, a fortaleza das montanhas se provara ser defesa segura. De muitos rochedos elevados entoavam eles louvores a Deus e os exércitos de Roma não podiam fazer silenciar seus cânticos de ações de graças.
Torre Pellice, aqui os cristãos alimentados
pela pura Palavra de Deus viviam, nas grutas. A fé
era fortalecida na persegução.

Pura, singela e fervorosa era a piedade desses seguidores de Cristo. Os princípios da verdade, avaliavam-nos eles acima de casas e terras, amigos, parentes e mesmo da própria vida. Semelhantes princípios ardorosamente procuravam eles gravar no coração dos jovens. Desde a mais tenra infância os jovens eram instruídos nas Escrituras, e ensinava-se-lhes a considerar santos os requisitos da lei de Deus. Sendo raros os exemplares das Escrituras Sagradas, eram suas preciosas palavras confiadas à memória. Muitos eram capazes de repetir longas porções tanto do Antigo como do Novo Testamento. Os pensamentos de Deus associavam-se ao sublime cenário da natureza e às humildes bênçãos da vida diária. Criancinhas aprendiam a olhar com gratidão a Deus como o Doador de toda mercê e conforto.
Os pais, ternos e afectuosos como eram, tão sabiamente amavam os filhos que não permitiam que se habituassem à condescendência própria. Esboçava-se diante deles uma vida de provações e dificuldades, talvez a morte de mártir. Eram ensinados desde a infância a suportar rudezas, a sujeitar-se ao domínio, e contudo a pensar e agir por si mesmos. Muito cedo eram ensinados a encarar responsabilidades, a serem precavidos no falar e a compreenderem a sabedoria do silêncio. Uma palavra indiscreta que deixassem cair no ouvido dos inimigos, poderia pôr em perigo não somente a vida do que falava, mas a de centenas de seus irmãos; pois, semelhantes a lobos à caça da presa, os inimigos da verdade perseguiam os que ousavam reclamar liberdade para a fé religiosa.
Os valdenses haviam sacrificado a prosperidade temporal por amor à verdade, e com paciência perseverante labutavam para ganhar o pão. Cada recanto de terra cultivável entre as montanhas era cuidadosamente aproveitado; fazia-se com que os vales e as encostas menos férteis das colinas também produzissem. A economia e a severa renúncia de si próprio formavam parte da educação que os filhos recebiam como seu único legado. Ensinava-se-lhes que Deus determinara fosse a vida uma disciplina e que suas necessidades poderiam ser supridas apenas mediante o trabalho pessoal, previdência, cuidado e fé. O processo era laborioso e fatigante, mas salutar, precisamente o de que o homem necessita em seu estado decaído - escola que Deus proveu para o seu ensino e desenvolvimento. Enquanto os jovens se habituavam ao trabalho e asperezas, a cultura do intelecto não era negligenciada. Ensinava-se-lhes que todas as suas capacidades pertenciam a Deus, e que deveriam todas ser aperfeiçoadas e desenvolvidas para o Seu serviço.
As igrejas valdenses, em sua pureza e simplicidade, assemelhavam-se à igreja dos tempos apostólicos. Rejeitando a supremacia do papa e prelados, mantinham a Escritura Sagrada como a única autoridade suprema, infalível. Seus pastores, diferentes dos altivos sacerdotes de Roma, seguiam o exemplo de seu Mestre que "veio não para ser servido, mas para servir". Alimentavam o rebanho de Deus, guiando-os às verdes pastagens e fontes vivas de Sua santa Palavra. Longe dos monumentos da pompa e orgulho humano, o povo congregava-se, não em igrejas sumptuosas ou grandes catedrais, mas à sombra das montanhas nos vales alpinos, ou, em tempo de perigo, em alguma fortaleza rochosa, a fim de escutar as palavras da verdade proferidas pelos servos de Cristo. Os pastores não somente pregavam o evangelho, mas visitavam os doentes, doutrinavam as crianças, admoestavam aos que erravam e trabalhavam para resolver as questões e promover harmonia e amor fraternal. Em tempos de paz eram sustentados por ofertas voluntárias do povo; mas, como Paulo, o fabricante de tendas, cada qual aprendia um ofício ou profissão, mediante a qual, sendo necessário, proveria o sustento próprio.
De seus pastores recebiam os jovens instrução. Conquanto se desse atenção aos ramos dos conhecimentos gerais, fazia-se da Escritura Sagrada o estudo principal. Os evangelhos de Mateus e João eram confiados à memória, juntamente com muitas das epístolas. Também se ocupavam em copiar as Escrituras. Alguns manuscritos continham a Bíblia toda, outros apenas breves porções, a que algumas simples explicações do texto eram acrescentadas por aqueles que eram capazes de comentar as Escrituras. Assim se apresentavam os tesouros da verdade durante tanto tempo ocultos pelos que procuravam exaltar-se acima de Deus.
Mediante pacientes e incansáveis labores, por vezes nas profundas e escuras cavernas da Terra, à luz de archotes, eram copiadas as Escrituras Sagradas, versículo por versículo, capítulo por capítulo. Assim a obra prosseguia, resplandecendo, qual ouro puro, a vontade revelada de Deus; e quanto mais brilhante, clara e poderosa era por causa das provações que passavam por seu amor, apenas o poderiam compreender os que se achavam empenhados em obra semelhante. Anjos celestiais circundavam os fiéis obreiros.
Satanás incitara sacerdotes e prelados a enterrarem a Palavra da verdade sob a escória do erro, heresia e superstição; mas de modo maravilhosíssimo foi ela conservada incontaminada através de todos os séculos de trevas. Não trazia o cunho do homem, mas a impressão divina. Os homens se têm demonstrado incansáveis em seus esforços para obscurecer o claro e simples sentido das Escrituras, e fazê-las contradizerem seu próprio testemunho; porém, semelhante à arca sobre as profundas águas encapeladas, a Palavra de Deus leva de vencida as borrascas que a ameaçam de destruição. Assim como tem a mina ricos veios de ouro e prata ocultos por sob a superfície, de maneira que todos os que desejam descobrir os preciosos depósitos devem cavar, assim as Sagradas Escrituras têm tesouros de verdade que são revelados unicamente ao ardoroso, humilde e devoto pesquisador. Deus destinara a Bíblia a ser um compêndio para toda a humanidade, na infância, juventude e idade madura, devendo ser estudada através de todos os tempos. Deu Sua Palavra aos homens como revelação de Si mesmo. Cada nova verdade que se divisa é uma nova revelação do caráter de seu Autor. O estudo das Escrituras é o meio divinamente ordenado para levar o homem a mais íntima comunhão com seu Criador e dar-lhe mais claro conhecimento de Sua vontade. É o meio de comunicação entre Deus e o homem.
Conquanto os valdenses considerassem o temor do Senhor como o princípio da sabedoria, não eram cegos no tocante à importância do contacto com o mundo, do conhecimento dos homens e da vida activa, para expandir o espírito e avivar as percepções. De suas escolas nas montanhas alguns dos jovens foram enviados a instituições de ensino nas cidades da França ou Itália, onde havia campo mais vasto para o estudo, pensamento e observação, do que nos Alpes nativos. Os jovens assim enviados estavam expostos à tentação, testemunhavam o vício, defrontavam-se com os astuciosos agentes de Satanás, que lhes queriam impor as mais subtis heresias e os mais perigosos enganos. Mas sua educação desde a meninice fora de molde a prepará-los para tudo isto.
Nas escolas aonde iam, não deveriam fazer confidentes a quem quer que fosse. Suas vestes eram preparadas de maneira a ocultar seu máximo tesouro - os preciosos manuscritos das Escrituras. A estes, fruto de meses e anos de labuta, levavam consigo e, sempre que o podiam fazer sem despertar suspeita, cautelosamente punham uma porção ao alcance daqueles cujo coração parecia aberto para receber a verdade. Desde os joelhos da mãe a juventude valdense havia sido educada com este propósito em vista; compreendiam o trabalho, e fielmente o executavam. Ganhavam-se conversos à verdadeira fé nessas instituições de ensino, e frequentemente se encontravam seus princípios a penetrar a escola toda; contudo os chefes papais não podiam pelo mais minucioso inquérito descobrir a fonte da chamada heresia corruptora.
O espírito de Cristo é espírito missionário. O primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador. Tal foi o espírito dos cristãos valdenses. Compreendiam que Deus exigia mais deles do que simplesmente preservar a verdade em sua pureza, nas suas próprias igrejas; e que sobre eles repousava a solene responsabilidade de deixarem sua luz resplandecer aos que se achavam em trevas. Pelo forte poder da Palavra de Deus procuravam romper o cativeiro que Roma havia imposto.
Os ministros valdenses eram educados como missionários, exigindo-se primeiramente de cada um que tivesse a expectativa de entrar para o ministério, aquisição de experiência como evangelista. Cada um deveria servir três anos em algum campo missionário antes de assumir o encargo de uma igreja em seu país. Este serviço, exigindo logo de começo renúncia e sacrifício, era introdução apropriada à vida pastoral naqueles tempos que punham à prova a alma. Os jovens que recebiam a ordenação para o sagrado mister, viam diante de si, não a perspectiva de riquezas e glória terrestre, mas uma vida de trabalhos e perigo, e possivelmente o destino de mártir. Os missionários iam de dois em dois, como Jesus enviara Seus discípulos. Cada jovem tinha usualmente por companhia um homem de idade e experiência, achando-se aquele sob a orientação do companheiro, que ficava responsável por seu ensino, e a cuja instrução se esperava que seguisse. Estes coobreiros não estavam sempre juntos, mas muitas vezes se reuniam para orar e aconselhar-se, fortalecendo-se assim mutuamente na fé.
Tornar conhecido o objectivo de sua missão seria assegurar a derrota; ocultavam, portanto, cautelosamente seu verdadeiro caráter. Cada ministro possuía conhecimento de algum ofício ou profissão e os missionários prosseguiam na obra sob a aparência de vocação secular. Usualmente escolhiam a de mercador ou vendedor ambulante. "Levavam sedas, jóias e outros artigos, que naquele tempo não se compravam facilmente, a não ser em mercados distantes; e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários." - Wylie. Em todo o tempo seu coração se levantava a Deus rogando sabedoria a fim de apresentar um tesouro mais precioso do que o ouro ou jóias. Levavam secretamente consigo exemplares da Escritura Sagrada, no todo ou em parte; quando quer que se apresentasse oportunidade, chamavam a atenção dos fregueses para os manuscritos. Muitas vezes assim se despertava o interesse de ler a Palavra de Deus, e alguma porção era de bom grado deixada com os que a desejavam receber.
A obra destes missionários começava nas planícies e vales ao pé de suas próprias montanhas, mas estendia-se muito além destes limites. Descalços e com vestes singelas e poentas da jornada como eram as de seu Mestre, passavam por grande cidades e penetravam em longínquas terras. Por toda parte espalhavam a preciosa verdade. Surgiam igrejas em seu caminho e o sangue dos mártires testemunhava da verdade. O dia de Deus revelará rica colheita de almas enceleiradas pelos labores destes homens fiéis. Velada e silenciosa, a Palavra de Deus rompia caminho através da cristandade e tinha alegre acolhida nos lares e corações.
Para os valdenses não eram as Escrituras simplesmente o registo do trato de Deus para com os homens no passado e a revelação das responsabilidades e deveres do presente, mas o desvendar dos perigos e glórias do futuro. Acreditavam que o fim de todas as coisas não estava muito distante; e, estudando a Bíblia com oração e lágrimas, mais profundamente se impressionavam com suas preciosas declarações e com o dever de tornar conhecidas a outros as suas verdades salvadoras. Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em Jesus. Ao iluminar-lhes a luz o entendimento e ao alegrar-lhes ela o coração, anelavam derramar seus raios sobre os que se achavam nas trevas do erro papal.
Viam que sob a direção do papa e sacerdotes, multidões em vão se esforçavam por obter perdão afligindo o corpo por causa do pecado da alma. Ensinados a confiar nas boas obras para se salvarem, estavam sempre a olhar para si mesmos, ocupando a mente com a sua condição pecaminosa, vendo-se expostos à ira de Deus, afligindo alma e corpo, não achando, contudo, alívio. Almas conscienciosas eram, assim, enredadas pelas doutrinas de Roma. Milhares abandonavam amigos e parentes, passando a vida nas celas dos conventos. Por meio de frequentes jejuns e cruéis açoitamentos, por vigílias à meia-noite, prostrando-se durante horas cansativas sobre as lajes frias e húmidas de sua sombria habitação, por longas peregrinações, penitências humilhantes e terrível tortura, milhares procuravam inutilmente obter paz de consciência. Oprimidos por uma intuição de pecado e perseguidos pelo temor da ira vingadora de Deus, muitos continuavam a sofrer até que a natureza exausta se rendia e, sem um resquício de luz ou esperança, baixavam à sepultura.
Os valdenses ansiavam por partir a estas almas famintas o pão da vida, revelar-lhes as mensagens de paz das promessas de Deus e apontar-lhes a Cristo como a única esperança de salvação. Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus. A confiança nos méritos humanos faz perder de vista o amor infinito de Cristo. Jesus morreu como sacrifício pelo homem porque a raça caída nada pode fazer para se recomendar a Deus. Os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido são o fundamento da fé cristã. A dependência da alma para com Cristo é tão real, e sua união com Ele deve ser tão íntima como a do membro para com o corpo, ou da vara para com a videira.
Os ensinos dos papas e sacerdotes haviam levado os homens a considerar o caráter de Deus, e mesmo o de Cristo, como severo, sombrio e repelente. Representava-se o Salvador tão destituído de simpatia para com o homem em seu estado decaído, que devia ser invocada a mediação de sacerdotes e santos. Aqueles cuja mente fora iluminada pela Palavra de Deus, anelavam guiar estas almas a Jesus, como seu compassivo e amante Salvador que permanece de braços estendidos a convidar todos a irem a Ele com seu fardo de pecados, seus cuidados e fadigas. Almejavam remover os obstáculos que Satanás havia acumulado para que os homens não pudessem ver as promessas, e ir diretamente a Deus, confessando os pecados e obtendo perdão e paz.
Ardorosamente desvendava o missionário valdense as preciosas verdades do evangelho ao espírito inquiridor. Citava com precaução as porções cuidadosamente copiadas da Sagrada Escritura. Era a sua máxima alegria infundir esperança à alma conscienciosa, ferida pelo pecado, e que tão-somente podia ver um Deus de vingança, esperando para executar justiça. Com lábios trémulos e olhos lacrimosos, muitas vezes com os joelhos curvados, expunha a seus irmãos as preciosas promessas que revelam a única esperança do pecador. Assim a luz da verdade penetrava muitas almas obscurecidas, fazendo recuar a nuvem sombria até que o Sol da Justiça resplandecesse no coração, trazendo saúde em seus raios. Dava-se amiúde o caso de alguma porção das Escrituras ser lida várias vezes, desejando o ouvinte que fosse repetida, como se quisesse assegurar-se de que tinha ouvido bem. Em especial se desejava, de maneira ávida, a repetição destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado." I João 1:7. "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15.
Muitos não se iludiam em relação às pretensões de Roma. Viam quão vã é a mediação de homens ou anjos em favor do pecador. Raiando-lhes na mente a verdadeira luz, exclamavam com regozijo: "Cristo é meu Sacerdote; Seu sangue é meu sacrifício; Seu altar é meu confessionário." Confiavam-se inteiramente aos méritos de Jesus, repetindo as palavras: "Sem fé é impossível agradar-Lhe." Heb. 11:6. "Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12.
A certeza do amor de um Salvador parecia, a algumas destas pobres almas agitadas pela tempestade, coisa por demais vasta para ser abrangida. Tão grande era o alívio que sentiam, tal a inundação de luz que lhes sobrevinha, que pareciam transportadas ao Céu. Punham confiantemente suas mãos na de Cristo; firmavam os pés sobre a Rocha dos séculos. Bania-se todo o temor da morte. Podiam agora ambicionar a prisão e a fogueira se desse modo honrassem o nome de seu Redentor.
Em lugares ocultos era a Palavra de Deus apresentada e lida, algumas vezes a uma única alma, outras, a um pequeno grupo que anelava a luz e a verdade. Amiúde a noite toda era passada desta maneira. Tão grande era o assombro e admiração dos ouvintes que o mensageiro da misericórdia frequentemente se via obrigado a cessar a leitura até que o entendimento pudesse apreender as boas novas da salvação. Era comum proferirem-se palavras como estas: "Aceitará Deus em verdade a minha oferta? Olhar-me-á benignamente? Perdoar-me-á Ele?" Lia-se a resposta: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mat. 11:28.
A fé se apegava à promessa, ouvia-se a alegre resposta: "Nada mais de longas peregrinações; nada de penosas jornadas aos relicários sagrados. Posso ir a Jesus tal como estou, pecador e ímpio, e Ele não desprezará a oração de arrependimento. 'Perdoados te são os teus pecados.' Os meus pecados, efectivamente os meus, podem ser perdoados!"
Enchia o coração uma onda de sagrada alegria, e o nome de Jesus era engrandecido em louvores e acções de graças. Estas almas felizes voltavam para casa a fim de difundir a luz, repetir a outros, tão bem quanto podiam, a nova experiência, de que acharam o Caminho verdadeiro e vivo. Havia um estranho e solene poder nas palavras das Escrituras, que falava directamente ao coração dos que se achavam anelantes pela verdade. Era a voz de Deus e levava a convicção aos que ouviam.
O mensageiro da verdade continuava o seu caminho; mas seu aspecto de humildade, sua sinceridade, ardor e profundo fervor, eram assuntos de observação frequente. Em muitos casos os ouvintes não lhe perguntavam donde viera ou para onde ia. Ficavam tão dominados, a princípio pela surpresa e depois pela gratidão e alegria, que não pensavam em interrogá-lo. Quando insistiam com ele para os acompanhar a suas casas, respondia-lhes que devia visitar as ovelhas perdidas do rebanho. Não seria ele um anjo do Céu? Indagavam.
Em muitos casos não mais se via o mensageiro da verdade. Seguira para outros países, ou a vida se lhe consumia em algum calabouço desconhecido, ou talvez seus ossos estivessem alvejando no local em que testificara da verdade. Mas as palavras que deixara após si, não poderiam ser destruídas. Estavam a fazer sua obra no coração dos homens; os benditos resultados só no dia do juízo se revelarão plenamente.
Os missionários valdenses estavam invadindo o reino de Satanás, e os poderes das trevas despertaram para maior vigilância. Todo esforço para avanço da verdade era observado pelo príncipe do mal, e ele excitava os temores de seus agentes. Os chefes papais viram grande perigo para a sua causa no trabalho destes humildes itinerantes. Se fosse permitido à luz da verdade resplandecer sem impedimento, varreria as pesadas nuvens de erro que envolviam o povo; haveria de dirigir o espírito dos homens a Deus unicamente, talvez destruindo, afinal, a supremacia de Roma.
A própria existência deste povo, mantendo a fé da antiga igreja, era testemunho constante da apostasia de Roma, e portanto excitava o ódio e perseguição mais atrozes. Sua recusa de renunciar às Escrituras era também ofensa que Roma não podia tolerar. Decidiu-se ela a exterminá-los da Terra. Começaram então as mais terríveis cruzadas contra o povo de Deus em seus lares montesinos. Puseram-se inquisidores em suas pegadas, e a cena do inocente Abel tombando ante o assassino Caim repetia-se frequentemente.
Reiteradas vezes foram devastadas as suas férteis terras, destruídas as habitações e capelas, de maneira que onde houvera campos florescentes e lares de um povo simples e laborioso, restava apenas um deserto. Assim como o animal de rapina se torna mais feroz provando sangue, a ira dos sectários do papa acendia-se com maior intensidade com o sofrimento de suas vítimas. Muitas destas testemunhas da fé pura foram perseguidas através das montanhas e caçadas nos vales em que se achavam escondidas, encerradas por enormes florestas e cumes rochosos.
Nenhuma acusação se poderia fazer contra o carácter moral da classe proscrita. Mesmo seus inimigos declaravam serem eles um povo pacífico, sossegado e piedoso. Seu grande crime era não quererem adorar a Deus segundo a vontade do papa.
Por tal crime, toda humilhação, insulto e tortura que homens ou diabos podiam inventar, amontoaram-se sobre eles.
Determinando-se Roma a exterminar a odiada seita, uma bula foi promulgada pelo papa, condenando-os como hereges e entregando-os ao morticínio. Não eram acusados como ociosos, desonestos ou desordeiros; mas declarava-se que tinham uma aparência de piedade e santidade que seduzia "as ovelhas do verdadeiro aprisco". Portanto ordenava o papa que "aquela maligna e abominável seita de perversos", caso se recusasse a renunciar, "fosse esmagada como serpentes venenosas". - Wylie. Esperava o altivo potentado ter de responder por estas palavras? Sabia que estavam registradas nos livros do Céu, para lhe serem apresentadas no juízo? "Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos", disse Jesus, "a Mim o fizestes." Mat. 25:40.
Essa bula convocava a todos os membros da igreja para se unirem à cruzada contra os hereges. Como incentivo para se empenharem na obra cruel, "absolvia de todas as penas e castigos eclesiásticos, gerais e particulares; desobrigava a todos os que se unissem à cruzada, de qualquer juramento que pudessem ter feito; legitimava-lhes o direito a qualquer propriedade que pudessem ter ilegalmente adquirido; e prometia remissão de todos os pecados aos que matassem algum herege. Anulava todos os contratos feitos em favor dos valdenses, ordenava que seus criados os abandonassem, proibia a toda pessoa dar-lhes qualquer auxílio que fosse e a todos permitia tomar posse de sua propriedade". - Wylie. Este documento revela claramente o espírito que o ditou. É o bramido do dragão, e não a voz de Cristo, que nele se ouve.
Os dirigentes papais não queriam conformar seu caráter com a grande norma da lei de Deus, mas erigiram uma norma que lhes fosse conveniente, e decidiram obrigar todos a se conformarem com a mesma porque Roma assim o desejava. As mais horríveis tragédias foram encenadas. Sacerdotes e papas corruptos e blasfemos estavam a fazer a obra que Satanás lhes designava. A misericórdia não encontrava guarida em sua natureza. O mesmo espírito que crucificou Cristo e matou os apóstolos, o mesmo que impulsionou o sanguinário Nero contra os fiéis de seu tempo, estava em operação a fim de exterminar da Terra os que eram amados de Deus.
As perseguições desencadeadas durante muitos séculos sobre este povo temente a Deus, foram por ele suportadas com uma paciência e constância que honravam seu Redentor. Apesar das cruzadas contra eles e da desumana carnificina a que foram sujeitos, continuavam a mandar seus missionários a espalhar a preciosa verdade. Eram perseguidos até à morte; contudo, seu sangue regava a semente lançada, e esta não deixou de produzir fruto. Assim os valdenses testemunharam de Deus, séculos antes do nascimento de Lutero. Dispersos em muitos países, plantaram a semente da Reforma que se iniciou no tempo de Wycliffe, cresceu larga e profundamente nos dias de Lutero, e deve ser levada avante até ao final do tempo por aqueles que também estão dispostos a sofrer todas as coisas pela "Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo". Apoc. 1:9.

MENSAGEM PARA O TEMPO DO FIM

Para cada período da História, Deus tem uma mensagem específica. Essa mensagem é denominada “verdade presente” Exemplo disso é a pregação de Noé, que conclamou o mundo antediluviano ao arrependimento e anunciou a destruição por meio do dilúvio (Gn 6 e 7).
No Novo Testamento, encontramos outro exemplo em que a mensagem presente consistia em aceitar Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Embora essa pregação cristocêntrica permeie a Bíblia em todos os tempos, naquela época, os apóstolos tinham o desafio de levar as pessoas a aceitar o Carpinteiro judeu como o prometido Messias do Antigo Testamento (At 2:22-36; 4:11,12; 5:30,31).
Avançando na História, encontramos no século dezesseis o movimento da Reforma Protestante com a mensagem de que a Bíblia é a única regra de fé (Sola Scriptura) e de que a fé nos méritos de Cristo é o único meio pelo qual alguém pode ser aceito e salvo por Deus (Sola Fide). Tais aspectos da mensagem eram apropriados ao contexto em que os reformadores viviam, pois o papado havia exaltado a tradição em lugar do ‘Assim diz o Senhor” e a salvação pelas obras em lugar da justiça de Cristo.
Tempo do fim.
Qual é a mensagem de Deus para nosso tempo? Para entendermos isso, precisamos identificar o período da História em que vivemos. No capítulo 12 do livro de Daniel, Deus revela ao profeta que o entendimento do seu livro só ocorreria no “tempo do fim” (v. 9). Esse tempo chegaria após o período profetizado “de um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 7), o que equivale a 1260 anos (538 d.C – 1798 d.C), nos quais o Romanismo mudaria o Decálogo, perseguiria os fiéis de Deus e lançaria a verdade por terra (Dn 7:25; 8:12; Ap 12:6,13,14; 13:5,6).
Portanto, em 1798, começou o ”tempo do fim” um período singular em que as principais profecias de Daniel se cumpririam (Dn 8:14; 12:11, 12), haveria um crescente avanço do conhecimento profético e também científico (Dn 12:4) e a História registraria importantes sinais preditos nos evangelhos e no livro do Apocalipse (Mt 24:29; Mc 13:24,25; Lc 21:11,25; Ap 6:12-14). (2)
Para esse tempo, Deus tem uma advertência de especial importância para os habitantes da Terra. É o último aviso de misericórdia a este mundo mergulhado nas trevas do pecado. Encontramos essa mensagem em Apocalipse 14:6-12 – a tríplice mensagem angélica. Essa tríplice mensagem antecede a cena da segunda vinda de Cristo – o Cavaleiro que vem para ceifar a seara da Terra (versos 14-16). Portanto, é uma advertência que deve ser comunicada no tempo do fim, uma solene mensagem que visa a preparar um povo para o encontro com o Rei que Se aproxima. O verso 13, que está entre a tríplice mensagem e os textos da Segunda Vinda, pronuncia uma bênção sobre aqueles que morrem no período em que essas mensagens são pregadas e crêem nelas: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”(3)
A pessoa de Cristo e Sua obra salvadora constituem o tema catalisador dessa tríplice mensagem. Nela, o ”evangelho eterno” as boas novas da justiça e da salvação em Cristo são o tema central e predominante, como demonstrado na introdução da passagem (v. 6).(4)
O primeiro anjo proclama o juízo de Deus (v. 7), o qual começou sua primeira fase em 22 de outubro de 1844. Nessa data, terminou o grande período profético dos 2300 anos de Daniel 8:14, e começou a purificação do santuário celestial, a qual corresponde ao mesmo julgamento visto pelo profeta no (capítulo 7:9-10) (5).
Nessa nova fase de Seu ministério, Cristo não só intercede pela humanidade, como já vinha fazendo, mas atua no juízo em defesa de Seu povo, que está sendo julgado conforme os registros celestiais (Dn 7:10). Para essa fase do julgamento, usam-se os termos juízo pré-advento ou juízo investigativo, pois ocorre no 
período que antecede a segunda vinda de Cristo e no qual os filhos de Deus são julgados/examinados pelo padrão da lei divina que deve ser obedecida como fruto da fé em Cristo.(6) Diante da iminência do julgamento, o anjo conclama a humanidade a temer a Deus, glorificá-Lo e adorá-Lo.
O segundo anjo anuncia a queda de Babilônia (v. 8), o falso sistema religioso dos últimos dias. A queda é conseqüência de o sistema estar fundamentado no erro, por ter rejeitado a verdade bíblica e defender doutrinas espúrias, como: imortalidade da alma, santidade do domingo, salvação pelas obras, etc. Quem não aceitar as palavras de Cristo e não as praticar, experimentará a ruína (Mt 7:26, 27), e quem “ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (2 Jo 9). Assim, a mensagem do segundo anjo é um convite para que saiam de Babilônia todos os que foram enganados por suas falsas doutrinas (Ap 18:1-5) e aceitem a verdade conforme revelada em Cristo.
O terceiro anjo acompanha as outras mensagens com uma advertência contra a adoração à besta e ao recebimento da sua marca (Ap 14:9-11). Essa mensagem demonstra que o conflito final girará em torno da lealdade a Deus por meio da guarda dos Seus mandamentos ou à obediência a preceitos humanos. (7) Uma corporação de Igreja/Estado, nos últimos dias (Ap 13:11, 12), obrigará a humanidade a observar como dia de guarda um falso dia de adoração (Ap 13:16,17) em lugar do dia estipulado por Deus em Sua lei (Êx 20:8-11). Os que aceitarem esse falso dia serão atingidos pelas sete últimas pragas que serão derramadas “sem mistura” de misericórdia (Ap 14:9, 10; 15:1; 16). Em contraste, haverá o grupo daqueles que permanecerão fiéis a Deus mesmo diante das mais terríveis ameaças e que foram classificados como santos por guardarem “os mandamentos de Deus” como fruto de sua “fé em Jesus” (Ap 14:12).
Mensagem específica.
Justamente nesse tempo, o tempo do fim, no qual a tríplice mensagem deve ser proclamada, Deus suscita um povo para cumprir essa solene missão. Esse povo é identificado como aqueles “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Essa última característica – “o testemunho de Jesus” – é definida como a manifesta-ção do dom de profecia (Ap 19:10). A Igreja Adventista do Sétimo Dia se enquadra nessa classificação, pois surge no período do tempo do fim (1844) como resultado dos estudos e do cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse, exaltando a obediência à Lei de Deus, especificamente a validade do sábado, e testemunhando, em seu meio, a manifestação do verdadeiro dom de profecia na pessoa de Eilen G. White.
Desse modo, há um povo que prega uma mensagem específica no tempo determinado pela profecia. Esse povo foi levantado para restaurar as verdades que foram lançadas por terra durante o período de supremacia papal, reparar as “brechas” feitas na lei de Deus, edificando, assim, “as antigas ruínas” (Is 58:12). Nossa responsabilidade é levar ao mundo uma mensagem singular, preparando “a seara da Terra” para a vinda do Filho do homem. “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. [..,] Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção. As mais solenes verdades já confiadas a mortais nos foram dadas, para as proclamarmos ao mundo. A proclamação dessas verdades deve ser nossa obra. O mundo precisa ser advertido, e o povo de Deus deve ser fiel ao legado que se lhe confiou”(9) Tal responsabilidade deve incutir em nós um senso de missão jamais visto em outro povo. Precisamos nos unir e concentrar as nossas forças nessa direção
Mas não podemos nos esquecer de que só cumpriremos essa missão com a ajuda do Espírito Santo. Em Apocalipse 18:1, a Terra é vista sendo iluminada pela glória celestial, e essa glória é a manifestação poderosa do Espírito Santo no tempo do fim, derramando Seu poder sobre a igreja como “chuva serôdia!(10) Esse poder capacitará a igreja para dar, “com potente voz” (verso 2), o último convite ao mundo, antes do fechamento da porta da graça (versos 2-5). Os adventistas do sétimo dia precisam ter como prioridade a busca desse poder a fim de continuar pregando “aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (verso 6) o evangelho eterno, no contexto da tríplice mensagem angélica. Cada pessoa que conheceu a verdade para o tempo presente e se une às fileiras do adventismo, é chamada a proclamar “as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9). Portanto, cumpramos nossa missão!
Referências1. MervinC Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 129,130.
2. Ibid.,p.318,319.
3. Alberto R. Timm, 0 Santuário e as três mensagens angélicas: fatores íntegrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002) p. 232.
4. Lição da Escola Sabatina, “O Último Convite: a mensagem dos três anjos”, outubro-dezembro,1994, p 17.
5. Clifford Goldstein, 1844: Uma explicacâo simples das principais profecias de Daniel – Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 45-48.
6. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 482.
7. Ellen G. White, Eventos Finais, p. 193.
8. Maxwell, 0p.Cit.,p. 422,423.
9. Ellen G. White, Evangelismo, p. 119,120.
10. Ellen G. White, O Grande Conflito pág 611, 612.
Texto de autoria de Ezinaldo Ubirajara Pereira, capelão do Hospital Adventista de Belém, Pará, publicado na Revista Adventista de Agosto/2008.
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15 de set. de 2018

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS

Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!

13 de set. de 2018

A obra do selamento já começou?

Já vimos que o anjo selador é o terceiro anjo (Ap 14:9-13). Logo, a obra do selamento teve início
quando o anjo começou a sua obra. Foi em 1844, quando foi revelada a verdade do Sábado.
" ‘Foi-Lhe [a Deus] muito agradável quando Sua Lei começou a crescer em força. Essa verdade
surge e está em crescimento cada vez mais forte. Ela é o selo! Está chegando! Surge, vindo da
banda do sol nascente; como o Sol, a princípio frio, se torna mais quente e envia seus raios. Quando
essa verdade surgiu, havia apenas um pouco de luz nela, mas esta tem aumentado. Oh, que poder
têm esses raios!’ " —Questions on the Sealing Message, págs. 15 e 16.
Embora esta obra tenha começado em 1844, não era plenamente compreendida nesse tempo. À
irmã White foi dada uma visão da obra do assinalamento:
"Numa reunião efetuada em Dorchester, Massachusetts, em novembro de 1848, foi-me concedida
uma visão da proclamação da mensagem do assinalamento, e do dever que incumbia aos irmãos de
publicarem a luz que resplandecia em nosso caminho.
"Depois da visão eu disse ao meu esposo: ‘Tenho uma mensagem para ti. Deves começar a publicar
um pequeno jornal e mandá-lo ao povo. Seja pequeno a princípio. Mas, lendo-o o povo, mandar-te-
ão meios com que imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde este pequeno começo
foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.’ " —Vida e Ensinos,
pág. 128.
"Com o início desta obra de publicação, não cessamos nossos labores de pregar a verdade, mas
viajamos de um lugar para outro, proclamando as doutrinas que nos haviam trazido tão grande luz e
alegria, animando os crentes, corrigindo erros e pondo as coisas em ordem na Igreja." —Vida e
Ensinos, pág. 130.
Pelos escritos citados podemos ver que o assunto do selamento foi a primeira doutrina publicada em
A Verdade Presente (este era o nome do periódico) no primeiro número, na primeira página.
Portanto, os primeiros Adventistas compreenderam que a obra do selamento começou no início da
mensagem do terceiro anjo.
Em 1849 outra visão, que aqui citamos, foi dada à irmã White sobre a abertura e o fechamento da
porta:
"Vi que a presente prova do Sábado não poderia vir até que a mediação de Jesus no lugar santo
terminasse e Ele passasse para dentro do segundo véu. Portanto, os cristãos que dormiram antes
que a porta fosse aberta no santíssimo, quando terminou o clamor da meia-noite no sétimo mês, em
1844, e que não haviam guardado o verdadeiro Sábado, agora repousam em esperança, pois não
tiveram a luz e o teste sobre o Sábado que nós agora temos, uma vez que a porta foi aberta. Vi que
Satanás estava tentando alguns do povo de Deus neste ponto. Sendo que grande número de bons
cristãos adormeceram nos triunfos da fé e não guardaram o verdadeiro Sábado, eles estavam em
dúvida quanto a ser isto um teste para nós agora. ...
"Satanás está agora usando cada artifício neste tempo de selamento a fim de desviar a mente do
povo de Deus da verdade presente e levá-los a vacilar. Vi que Deus estava estendendo uma
cobertura sobre o Seu povo a fim de protegê-lo no tempo de angústia; e que cada alma que se
decidia pela verdade e era pura de coração devia ser coberta com a proteção do Todo-Poderoso.
"Satanás sabia disto e estava trabalhando com afinco para conservar vacilante e instável na verdade
a mente do maior número possível de pessoas. ...
"Satanás estava procurando lançar mão de todas as suas artes a fim de mantê-los onde estavam
até que a cobertura fosse estendida sobre o povo de Deus, e eles [os que não estavam firmes ao
lado da verdade presente] fossem deixados sem um abrigo da ardente ira de Deus, nas sete últimas
pragas." —Primeiros Escritos, pág. 42 e 43.
"Deus está começando a estender a cobertura sobre Seu povo, e ela logo será estendida sobre todos
os que devem ter um abrigo no dia da matança." —Primeiros Escritos, pág. 44.
A cobertura (selo) de Deus foi estendida sobre Seu povo ou, em outras palavras, o selo do Deus
vivo estava sendo colocado em suas frontes. Os que não foram selados estavam sujeitos às sete
últimas pragas. A profetisa disse que naquele tempo (1849) o selamento já estava em
prosseguimento.
"Nossa posição parece muito clara. Sabemos que temos a verdade, o clamor da meia-noite ficou
atrás; a porta se fechou em 1844 e Jesus em breve sairá da mediação entre Deus e o homem. O
selamento estará realizado, encerrado. Oh, conservemos toda a armadura de Deus a fim de
estarmos prontos para a batalha a qualquer momento. Teremos de lutar agora por polegada após
polegada de terreno. —Carta 5, 1849, págs. 5 e 6. Manuscript Releases, vol. 5, pág. 200.
"O tempo do selamento é muito curto, e logo passará. Agora, enquanto os quatro anjos estão
contendo os ventos, é o tempo de fazer firme a nossa vocação e eleição." —Primeiros Escritos, pág.
58.
"Vi que Satanás operaria mais poderosamente agora do que nunca dantes. Ele sabe que seu tempo
é curto e que o assinalamento dos santos os colocará além de seu alcance. Ele agora opera de toda
maneira que lhe seja possível, e experimentará toda a sua insinuação para fazer que os santos não
estejam em guarda, e fazê-los adormecer sobre a verdade presente ou dela duvidar, para os
impedir de ser assinalados com o selo do Deus vivo." —Ms 7, 1850, págs. 2 e 3. Manuscript
Releases, vol. 8, pág. 220.
Em vez de declarar que o selamento logo começaria, a profetisa claramente afirmou que logo
terminaria.
"Quando Jesus deixa o santuário, então o que é santo e justo será santo e justo ainda, pois todos os
seus pecados estarão então apagados, e eles serão selados com o selo do Deus vivo. Mas os que
são injustos e sujos serão ainda injustos e sujos, pois então não haverá Sacerdote no santuário para
apresentar os sacrifícios, confissões e orações deles diante do trono do Pai. Portanto, o que se faz
para resgatar almas da ira vindoura deve ser feito antes que Jesus deixe o Lugar Santíssimo do
Santuário Celestial." —The Present Truth, vol. 1, no 4.
Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia acreditavam e ensinavam que desde 1844 se
estava cumprindo a primeira parte do capítulo sete de Apocalipse, como o citamos:
"Após o desapontamento de 1844 o povo de Deus viu a luz sobre a questão do santuário no Céu.
Então viram a obrigatoriedade do quarto mandamento, bem como dos outros nove mandamentos do
Decálogo. A reforma do Sábado começou naquele tempo. Em 1848 começou a ser reconhecida como
o cumprimento de Apocalipse 7:1-4." —S. N. Haskell, Manual da Bíblia (edição de 1996), pág. 124.
"O selo de Apocalipse 7:1-4 é o mesmo que o nome do Pai, de Apocalipse 14:1. Selo e sinal são às
vezes sinônimos (Rm 4:11). O sinal entre Deus e Seu povo é o Sábado (Êx 31:13-17; Ez 20:12 e
20). O atributo do poder criador distingue o verdadeiro Deus de todos os outros deuses, e esse
atributo se encontra somente no mandamento do Sábado. Portanto, esse mandamento, e somente
esse, contém o título ou nome que realmente sela o Decálogo como a Lei de Deus. Por isso o
Sábado se torna o selo da Lei de Deus e um sinal entre Ele e Seus verdadeiros filhos. A mensagem
do selamento de Apocalipse 7:1-8 é, portanto, apenas a profecia da reforma do Sábado nos últimos
dias." —O. A. Johnson, Bible Text-book, pág. 172.
"Caros irmãos espalhados pelo exterior: chegamos a um tempo em que podemos confiadamente
tomar nossa posição como a que está expressa no título que demos a estas linhas; que a
providência de Deus nos trouxe a um lugar onde a mensagem ou a obra do anjo que ascendia (Ap
7:2) deve cumprir-se.
"Sem passarmos a uma exposição dessa profecia, apresentemos alguns de seus principais aspectos
inquestionáveis:
"1. Os ventos denotam contendas políticas e comoções entre as nações.
"2. Os quatro anjos nos quatro cantos da Terra, retendo esses ventos, são quatro mensageiros
divinos a cujo cargo Deus confiou os negócios das nações, e cujo território é tanto para restringir os
ventos da contenda quando a obra de Deus o requerer, como também para fazer os ventos soprar e
levantar a grande tormenta dos confins da Terra (Jr 25:32), quando a Igreja de Deus estiver
preparada e as nações amadurecidas para essa comoção final.
"3. O anjo do verso 2, subindo da banda do Oriente com o selo do Deus vivo, é idêntico ao terceiro
anjo de Apocalipse 14:9-12.
"4. Seu clamor aos quatro anjos para que não destruíssem a Terra etc., isto é, para reterem o
soprar dos ventos até se completar o selamento dos servos de Deus, mostra de modo conclusivo
que está começando a surgir certa operação de conflito, guerra e comoção, que interfere na obra do
selamento e que, no conselho de Deus, tem de ser restringida até que a obra se complete.
"5. Como o anjo de Apocalipse 14:9 simboliza uma obra da parte da Igreja, assim o clamor deste
anjo denota forçosamente uma fervorosa petição do povo de Deus pela restrição de algum conflito
nacional ou político que esteja começando a interferir em sua obra." —Seventh-Day Adventists in
Time of War, págs. 70 e 71.
A primeira visão de E. G. White foi reimpressa na publicação intitulada To the Little Remmant
Scattered Abroad, de 6 de abril de 1846. Diz o parágrafo 6:
"Bem, prezados irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor, trata-se de uma reunião especial para os
que têm o selo do Deus vivo."
No artigo original publicado no The Day Star foi escrito o seguinte:
"E quando estávamos para entrar no santo templo, Jesus levantou Sua bela voz, e disse: ‘Somente
os 144 mil entram neste lugar.’ E nós exclamamos: ‘Aleluia!’ Bendito seja o Senhor, irmão
Jacobs, trata-se de uma reunião extraordinária para os que têm o selo do Deus vivo. Esse
templo era apoiado em sete colunas, todas de ouro transparente, cravejado das pérolas mais
reluzentes." —The Day Star, 24 de janeiro de 1846. (A frase omitida de Testimonies, vol. 1, pág. 69,
e Primeiros Escritos, pág. 19, está em negrito.)
É desconhecida a razão de esta frase ter sido omitida quando o artigo foi publicado em Testimonies,
vol. 1, pág. 69, mas com referência a essa supressão a irmã White declara o seguinte:
"Não há nisto nada que não sustentemos ainda. Referências a nossas obras publicadas mostrarão
nossa crença de que os vivos justos receberão o selo de Deus antes do fim da graça; também que
eles fruirão honras especiais no reino de Deus." —Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 66 (1883).
Esta explicação dada pela própria irmã White confirma que muitos irmãos tinham recebido o selo do
Deus vivo na testa desde o início da mensagem do terceiro anjo, e que em 1883 o povo do advento
ainda estava crendo nesta verdade.
Em outro testemunho ela declara:
"Os que têm na testa o selo do infinito Deus considerarão o mundo e suas atrações subordinados
aos interesses eternos." —Review and Herald, 13 de julho de 1897.
Ainda outra interessante declaração é a seguinte:
"Vivem em nossa Terra pessoas que passaram dos noventa anos de idade. Vêem-se em sua
debilidade os resultados naturais da idade avançada. Mas eles crêem em Deus, e Deus os ama. O
selo de Deus está sobre eles. Farão parte do número dos quais o Senhor disse: ‘Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.’ " —The SDA Bible Commentary [E. G.
White Comments], vol. 7, pág. 982 (1899).
"Uma irmã sueca disse: ‘Fiquei verdadeiramente renovada desde que cheguei aqui. Sinto-me forte
na fé. Jesus possibilitou a minha vinda, dando-me paz e amor. Quero ser uma humilde seguidora de
Cristo. Quero ter o selo de Deus na minha fronte.’ " —Review and Herald, 18 de maio de 1876.
fonte: o selamento do povo de Deus

UM POVO QUE DIFUNDE LUZ

Por entre as trevas que baixaram à Terra durante o longo período da supremacia papal, a luz da verdade não poderia ficar inteiramente extinta. Em cada época houve testemunhas de Deus - homens que acalentavam fé em Cristo como único mediador entre Deus e o homem, que mantinham a Escritura Sagrada como a única regra de vida, e santificavam o verdadeiro sábado. Quanto o mundo deve a estes homens, a posteridade jamais saberá. Foram estigmatizados como hereges, impugnados os seus motivos, criticado o seu carácter, e suprimidos, difamados ou mutilados os seus escritos. No entanto, permaneceram firmes, e de século em século mantiveram a fé em sua pureza como sagrado legado às gerações vindouras.
A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma, está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registos humanos. Poucos traços de sua existência se podem encontrar, a não ser nas acusações de seus perseguidores. Foi tática de Roma obliterar todo vestígio de dissidência de suas doutrinas ou decretos. Tudo que fosse herético, quer pessoas quer escritos, procurava ela destruir. Expressões de dúvida ou questões quanto à autoridade dos dogmas papais eram suficientes para tirar a vida do rico ou pobre, elevado ou humilde. Roma se esforçava também por destruir todo registo de sua crueldade para com os que discordavam dela. Os concílios papais decretavam que livros ou escritos contendo relatos desta
natureza deviam ser lançados às chamas. Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos, e de forma desfavorável à preservação; portanto, pouco havia a impedir que os romanistas levassem a efeito o seu desígnio.
Nenhuma igreja dentro dos limites da jurisdição romana ficou muito tempo sem ser perturbada no gozo da liberdade de consciência. Mal o papado obtivera poder, estendeu os braços para esmagar a todos os que se recusassem a reconhecer-lhe o domínio; e, uma após outra, submeteram-se as igrejas ao seu governo.
Na Grã-Bretanha o primitivo cristianismo muito cedo deitou raízes. O evangelho, recebido pelos bretões nos primeiros séculos, não se achava então corrompido pela apostasia romana. A perseguição dos imperadores pagãos, que se estendeu mesmo até àquelas praias distantes, foi a única dádiva que a primeira igreja da Bretanha recebeu de Roma. Muitos dos cristãos, fugindo da perseguição na Inglaterra, encontraram refúgio na Escócia; daí a verdade foi levada à Irlanda, sendo em todos estes países recebida com alegria.
Quando os saxões invadiram a Bretanha, o paganismo conseguiu predomínio. Os conquistadores desdenharam ser instruídos por seus escravos, e os cristãos foram obrigados a retirar-se para as montanhas e os pântanos. Não obstante, a luz por algum tempo oculta continuou a arder. Na Escócia, um século mais tarde, brilhou ela com um fulgor que se estendeu a mui longínquas terras. Da Irlanda vieram o piedoso 
Columba e seus colaboradores, os quais, reunindo em torno de si os crentes dispersos da solitária ilha de Iona, fizeram desta o centro de seus trabalhos missionários. Entre estes evangelistas encontrava-se um observador do sábado bíblico, e assim esta verdade foi introduzida entre o povo. Estabeleceu-se uma escola em Iona, da qual saíram missionários, não somente para a Escócia e Inglaterra, mas para a Alemanha, Suíça e mesmo para a Itália.
Roma, porém, fixara os olhos na Bretanha e resolvera pô-la sob sua supremacia. No século VI seus missionários empreenderam a conversão dos pagãos saxões. Foram recebidos com favor pelos orgulhosos bárbaros, e induziram muitos milhares a professar a fé romana. O trabalho progredia e os dirigentes papais e seus conversos encontraram os cristãos primitivos. Eloquente contraste se apresentou. Os últimos eram simples, humildes e de carácter, doutrina e maneiras segundo as Escrituras, ao passo que os primeiros manifestavam a superstição, a pompa e a arrogância do papado. O emissário de Roma exigiu que estas igrejas cristãs reconhecessem a supremacia do soberano pontífice. Os bretões mansamente replicaram que desejavam amar a todos os homens, mas que o papa não tinha direito à supremacia na igreja, e que eles poderiam prestar-lhe somente a submissão devida a todo seguidor de Cristo. Repetidas tentativas foram feitas para se conseguir sua adesão a Roma; mas esses humildes cristãos, espantados com o orgulho ostentado por seus emissários, firmemente replicavam que não conheciam outro mestre senão a Cristo. Revelou-se, então, o verdadeiro espírito do papado. Disse o chefe romano: "Se não receberdes irmãos que vos trazem paz, recebereis inimigos que vos trarão guerra. Se vos não unirdes connosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, recebereis deles o golpe de morte." - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Não era isto simples ameaça. Guerra, intriga e engano foram empregados contra as testemunhas de uma fé bíblica, até que as igrejas da Bretanha foram destruídas ou obrigadas a submeter-se à autoridade do papa.
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiram por muitos séculos corporações de cristãos que permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afectados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades. Estes cristãos acreditavam na perpetuidade da lei de Deus e observavam o sábado do quarto mandamento. Igrejas que se mantinham nesta fé e prática, existiram na África Central e entre os arménios, na Ásia.
Mas dentre os que resistiram ao cerco cada vez mais apertado do poder papal, os valdenses ocuparam posição preeminente. A falsidade e corrupção papal encontraram a mais decidida resistência na própria terra em que o papa fixara a sede. Durante séculos as igrejas do Piemonte mantiveram-se independentes; mas afinal chegou o tempo em que Roma insistiu em submetê-las. Depois de lutas inúteis contra a tirania, os dirigentes destas igrejas reconheceram relutantemente a supremacia do poder a que o mundo todo parecia render homenagem. Alguns houve, entretanto, que se recusaram a ceder à autoridade do papa ou do prelado. Estavam decididos a manter sua fidelidade a Deus, e preservar a pureza e simplicidade de fé. Houve separação. Os que se apegaram à antiga fé, retiraram-se; alguns, abandonando os Alpes nativos, alçaram a bandeira da verdade em terras estrangeiras; outros se retraíram para os vales afastados e fortalezas das montanhas, e ali preservaram a liberdade de culto a Deus.
A fé que durante muitos séculos fora mantida e ensinada pelos cristãos valdenses, estava em assinalado contraste com as falsas doutrinas que Roma apresentava. A sua crença religiosa baseava-se na Palavra escrita de Deus - o verdadeiro documento religioso do cristianismo. Mas aqueles humildes camponeses, em seu obscuro retiro, excluídos do mundo e presos à labuta diária entre seus rebanhos e vinhedos, não teriam por si sós chegados à verdade em oposição aos dogmas e heresias da igreja apóstata. A fé que professavam não era nova. Sua crença religiosa era a herança de seus pais. Lutavam pela fé da igreja apostólica - a "fé que uma vez foi dada aos santos". Jud. 3. "A igreja no deserto" e não a orgulhosa hierarquia entronizada na grande capital do mundo, era a verdadeira igreja de Cristo, a depositária dos tesouros da verdade que Deus confiara a Seu povo para ser dada ao mundo.
Entre as principais causas que levaram a igreja verdadeira a separar-se da de Roma, estava o ódio desta ao sábado bíblico. Conforme fora predito pela profecia, o poder papal lançou a verdade por terra. A lei de Deus foi lançada ao pó, enquanto se exaltavam as tradições e costumes dos homens. As igrejas que estavam sob o governo do papado, foram logo compelidas a honrar o domingo como dia santo. No meio do erro e superstição que prevaleciam, muitos, mesmo dentre o verdadeiro povo de Deus, ficaram tão desorientados que ao mesmo tempo em que observavam o sábado, afastavam-se do trabalho também no domingo. Isso, porém, não satisfazia aos chefes papais. Exigiam não somente que fosse santificado o domingo, mas que o sábado fosse profanado; e com a mais violenta linguagem denunciavam os que ousavam honrá-lo. Era unicamente fugindo ao poder de Roma que alguém poderia em paz obedecer à lei de Deus.
Os valdenses foram os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição. Declaravam ser a Igreja de Roma a Babilónia apóstata do Apocalipse, e com perigo de vida erguiam-se para resistir a suas corrupções. Opressos pela prolongada perseguição, alguns comprometeram sua fé, cedendo pouco a pouco em seus princípios distintivos, enquanto outros sustentavam firme a verdade. Durante séculos de trevas e apostasia, houve alguns dentre os valdenses que negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e guardavam o verdadeiro sábado. Sob as mais atrozes tempestades da oposição conservaram a fé. Perseguidos embora pela espada dos saboianos (França) e queimados pela fogueira romana, mantiveram-se sem hesitação ao lado da Palavra de Deus e de Sua honra.
Por trás dos elevados baluartes das montanhas - em todos os tempos refúgio dos perseguidos e oprimidos - os valdenses encontraram esconderijo. Ali, conservou-se a luz da verdade a arder por entre as trevas da Idade Média. Ali, durante mil anos, testemunhas da verdade mantiveram a antiga fé.
Deus providenciara para Seu povo um santuário de majestosa grandeza, de acordo com as extraordinárias verdades confiadas à sua guarda. Para os fiéis exilados, eram as montanhas um emblema da imutável justiça de Jeová. Apontavam eles a seus filhos as alturas sobranceiras, em sua imutável majestade, e falavam-lhes d´Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação, cuja Palavra é tão perdurável como os montes eternos. Deus estabelecera firmemente as montanhas e as cingira de fortaleza; braço algum, a não ser o do Poder infinito, poderia movê-las do lugar. De igual maneira estabelecera Ele a Sua lei - fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. O braço do homem poderia atingir a seus semelhantes e destruir-lhes a vida; mas esse braço seria tão impotente para desarreigar as montanhas de seu fundamento e precipitá-las no mar, como para mudar um preceito da lei de Jeová ou anular qualquer de Suas promessas aos que Lhe fazem a vontade. Na fidelidade para com a Sua lei, os servos de Deus deviam ser tão firmes como os outeiros imutáveis.
As montanhas que cingiam os fundos vales eram testemunhas constantes do poder criador de Deus e afirmação sempre infalível de Seu cuidado protector. Esses peregrinos aprenderam a amar os símbolos silenciosos da presença de Jeová. Não condescendiam com murmurações por causa das dificuldades da sorte; nunca se sentiam abandonados na solidão das montanhas. Agradeciam a Deus por haver-lhes provido refúgio da ira e crueldade dos homens. Regozijavam-se diante d´Ele na liberdade de prestar culto. Muitas vezes, quando perseguidos pelos inimigos, a fortaleza das montanhas se provara ser defesa segura. De muitos rochedos elevados entoavam eles louvores a Deus e os exércitos de Roma não podiam fazer silenciar seus cânticos de ações de graças.
Torre Pellice, aqui os cristãos alimentados
pela pura Palavra de Deus viviam, nas grutas. A fé
era fortalecida na persegução.

Pura, singela e fervorosa era a piedade desses seguidores de Cristo. Os princípios da verdade, avaliavam-nos eles acima de casas e terras, amigos, parentes e mesmo da própria vida. Semelhantes princípios ardorosamente procuravam eles gravar no coração dos jovens. Desde a mais tenra infância os jovens eram instruídos nas Escrituras, e ensinava-se-lhes a considerar santos os requisitos da lei de Deus. Sendo raros os exemplares das Escrituras Sagradas, eram suas preciosas palavras confiadas à memória. Muitos eram capazes de repetir longas porções tanto do Antigo como do Novo Testamento. Os pensamentos de Deus associavam-se ao sublime cenário da natureza e às humildes bênçãos da vida diária. Criancinhas aprendiam a olhar com gratidão a Deus como o Doador de toda mercê e conforto.
Os pais, ternos e afectuosos como eram, tão sabiamente amavam os filhos que não permitiam que se habituassem à condescendência própria. Esboçava-se diante deles uma vida de provações e dificuldades, talvez a morte de mártir. Eram ensinados desde a infância a suportar rudezas, a sujeitar-se ao domínio, e contudo a pensar e agir por si mesmos. Muito cedo eram ensinados a encarar responsabilidades, a serem precavidos no falar e a compreenderem a sabedoria do silêncio. Uma palavra indiscreta que deixassem cair no ouvido dos inimigos, poderia pôr em perigo não somente a vida do que falava, mas a de centenas de seus irmãos; pois, semelhantes a lobos à caça da presa, os inimigos da verdade perseguiam os que ousavam reclamar liberdade para a fé religiosa.
Os valdenses haviam sacrificado a prosperidade temporal por amor à verdade, e com paciência perseverante labutavam para ganhar o pão. Cada recanto de terra cultivável entre as montanhas era cuidadosamente aproveitado; fazia-se com que os vales e as encostas menos férteis das colinas também produzissem. A economia e a severa renúncia de si próprio formavam parte da educação que os filhos recebiam como seu único legado. Ensinava-se-lhes que Deus determinara fosse a vida uma disciplina e que suas necessidades poderiam ser supridas apenas mediante o trabalho pessoal, previdência, cuidado e fé. O processo era laborioso e fatigante, mas salutar, precisamente o de que o homem necessita em seu estado decaído - escola que Deus proveu para o seu ensino e desenvolvimento. Enquanto os jovens se habituavam ao trabalho e asperezas, a cultura do intelecto não era negligenciada. Ensinava-se-lhes que todas as suas capacidades pertenciam a Deus, e que deveriam todas ser aperfeiçoadas e desenvolvidas para o Seu serviço.
As igrejas valdenses, em sua pureza e simplicidade, assemelhavam-se à igreja dos tempos apostólicos. Rejeitando a supremacia do papa e prelados, mantinham a Escritura Sagrada como a única autoridade suprema, infalível. Seus pastores, diferentes dos altivos sacerdotes de Roma, seguiam o exemplo de seu Mestre que "veio não para ser servido, mas para servir". Alimentavam o rebanho de Deus, guiando-os às verdes pastagens e fontes vivas de Sua santa Palavra. Longe dos monumentos da pompa e orgulho humano, o povo congregava-se, não em igrejas sumptuosas ou grandes catedrais, mas à sombra das montanhas nos vales alpinos, ou, em tempo de perigo, em alguma fortaleza rochosa, a fim de escutar as palavras da verdade proferidas pelos servos de Cristo. Os pastores não somente pregavam o evangelho, mas visitavam os doentes, doutrinavam as crianças, admoestavam aos que erravam e trabalhavam para resolver as questões e promover harmonia e amor fraternal. Em tempos de paz eram sustentados por ofertas voluntárias do povo; mas, como Paulo, o fabricante de tendas, cada qual aprendia um ofício ou profissão, mediante a qual, sendo necessário, proveria o sustento próprio.
De seus pastores recebiam os jovens instrução. Conquanto se desse atenção aos ramos dos conhecimentos gerais, fazia-se da Escritura Sagrada o estudo principal. Os evangelhos de Mateus e João eram confiados à memória, juntamente com muitas das epístolas. Também se ocupavam em copiar as Escrituras. Alguns manuscritos continham a Bíblia toda, outros apenas breves porções, a que algumas simples explicações do texto eram acrescentadas por aqueles que eram capazes de comentar as Escrituras. Assim se apresentavam os tesouros da verdade durante tanto tempo ocultos pelos que procuravam exaltar-se acima de Deus.
Mediante pacientes e incansáveis labores, por vezes nas profundas e escuras cavernas da Terra, à luz de archotes, eram copiadas as Escrituras Sagradas, versículo por versículo, capítulo por capítulo. Assim a obra prosseguia, resplandecendo, qual ouro puro, a vontade revelada de Deus; e quanto mais brilhante, clara e poderosa era por causa das provações que passavam por seu amor, apenas o poderiam compreender os que se achavam empenhados em obra semelhante. Anjos celestiais circundavam os fiéis obreiros.
Satanás incitara sacerdotes e prelados a enterrarem a Palavra da verdade sob a escória do erro, heresia e superstição; mas de modo maravilhosíssimo foi ela conservada incontaminada através de todos os séculos de trevas. Não trazia o cunho do homem, mas a impressão divina. Os homens se têm demonstrado incansáveis em seus esforços para obscurecer o claro e simples sentido das Escrituras, e fazê-las contradizerem seu próprio testemunho; porém, semelhante à arca sobre as profundas águas encapeladas, a Palavra de Deus leva de vencida as borrascas que a ameaçam de destruição. Assim como tem a mina ricos veios de ouro e prata ocultos por sob a superfície, de maneira que todos os que desejam descobrir os preciosos depósitos devem cavar, assim as Sagradas Escrituras têm tesouros de verdade que são revelados unicamente ao ardoroso, humilde e devoto pesquisador. Deus destinara a Bíblia a ser um compêndio para toda a humanidade, na infância, juventude e idade madura, devendo ser estudada através de todos os tempos. Deu Sua Palavra aos homens como revelação de Si mesmo. Cada nova verdade que se divisa é uma nova revelação do caráter de seu Autor. O estudo das Escrituras é o meio divinamente ordenado para levar o homem a mais íntima comunhão com seu Criador e dar-lhe mais claro conhecimento de Sua vontade. É o meio de comunicação entre Deus e o homem.
Conquanto os valdenses considerassem o temor do Senhor como o princípio da sabedoria, não eram cegos no tocante à importância do contacto com o mundo, do conhecimento dos homens e da vida activa, para expandir o espírito e avivar as percepções. De suas escolas nas montanhas alguns dos jovens foram enviados a instituições de ensino nas cidades da França ou Itália, onde havia campo mais vasto para o estudo, pensamento e observação, do que nos Alpes nativos. Os jovens assim enviados estavam expostos à tentação, testemunhavam o vício, defrontavam-se com os astuciosos agentes de Satanás, que lhes queriam impor as mais subtis heresias e os mais perigosos enganos. Mas sua educação desde a meninice fora de molde a prepará-los para tudo isto.
Nas escolas aonde iam, não deveriam fazer confidentes a quem quer que fosse. Suas vestes eram preparadas de maneira a ocultar seu máximo tesouro - os preciosos manuscritos das Escrituras. A estes, fruto de meses e anos de labuta, levavam consigo e, sempre que o podiam fazer sem despertar suspeita, cautelosamente punham uma porção ao alcance daqueles cujo coração parecia aberto para receber a verdade. Desde os joelhos da mãe a juventude valdense havia sido educada com este propósito em vista; compreendiam o trabalho, e fielmente o executavam. Ganhavam-se conversos à verdadeira fé nessas instituições de ensino, e frequentemente se encontravam seus princípios a penetrar a escola toda; contudo os chefes papais não podiam pelo mais minucioso inquérito descobrir a fonte da chamada heresia corruptora.
O espírito de Cristo é espírito missionário. O primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador. Tal foi o espírito dos cristãos valdenses. Compreendiam que Deus exigia mais deles do que simplesmente preservar a verdade em sua pureza, nas suas próprias igrejas; e que sobre eles repousava a solene responsabilidade de deixarem sua luz resplandecer aos que se achavam em trevas. Pelo forte poder da Palavra de Deus procuravam romper o cativeiro que Roma havia imposto.
Os ministros valdenses eram educados como missionários, exigindo-se primeiramente de cada um que tivesse a expectativa de entrar para o ministério, aquisição de experiência como evangelista. Cada um deveria servir três anos em algum campo missionário antes de assumir o encargo de uma igreja em seu país. Este serviço, exigindo logo de começo renúncia e sacrifício, era introdução apropriada à vida pastoral naqueles tempos que punham à prova a alma. Os jovens que recebiam a ordenação para o sagrado mister, viam diante de si, não a perspectiva de riquezas e glória terrestre, mas uma vida de trabalhos e perigo, e possivelmente o destino de mártir. Os missionários iam de dois em dois, como Jesus enviara Seus discípulos. Cada jovem tinha usualmente por companhia um homem de idade e experiência, achando-se aquele sob a orientação do companheiro, que ficava responsável por seu ensino, e a cuja instrução se esperava que seguisse. Estes coobreiros não estavam sempre juntos, mas muitas vezes se reuniam para orar e aconselhar-se, fortalecendo-se assim mutuamente na fé.
Tornar conhecido o objectivo de sua missão seria assegurar a derrota; ocultavam, portanto, cautelosamente seu verdadeiro caráter. Cada ministro possuía conhecimento de algum ofício ou profissão e os missionários prosseguiam na obra sob a aparência de vocação secular. Usualmente escolhiam a de mercador ou vendedor ambulante. "Levavam sedas, jóias e outros artigos, que naquele tempo não se compravam facilmente, a não ser em mercados distantes; e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários." - Wylie. Em todo o tempo seu coração se levantava a Deus rogando sabedoria a fim de apresentar um tesouro mais precioso do que o ouro ou jóias. Levavam secretamente consigo exemplares da Escritura Sagrada, no todo ou em parte; quando quer que se apresentasse oportunidade, chamavam a atenção dos fregueses para os manuscritos. Muitas vezes assim se despertava o interesse de ler a Palavra de Deus, e alguma porção era de bom grado deixada com os que a desejavam receber.
A obra destes missionários começava nas planícies e vales ao pé de suas próprias montanhas, mas estendia-se muito além destes limites. Descalços e com vestes singelas e poentas da jornada como eram as de seu Mestre, passavam por grande cidades e penetravam em longínquas terras. Por toda parte espalhavam a preciosa verdade. Surgiam igrejas em seu caminho e o sangue dos mártires testemunhava da verdade. O dia de Deus revelará rica colheita de almas enceleiradas pelos labores destes homens fiéis. Velada e silenciosa, a Palavra de Deus rompia caminho através da cristandade e tinha alegre acolhida nos lares e corações.
Para os valdenses não eram as Escrituras simplesmente o registo do trato de Deus para com os homens no passado e a revelação das responsabilidades e deveres do presente, mas o desvendar dos perigos e glórias do futuro. Acreditavam que o fim de todas as coisas não estava muito distante; e, estudando a Bíblia com oração e lágrimas, mais profundamente se impressionavam com suas preciosas declarações e com o dever de tornar conhecidas a outros as suas verdades salvadoras. Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em Jesus. Ao iluminar-lhes a luz o entendimento e ao alegrar-lhes ela o coração, anelavam derramar seus raios sobre os que se achavam nas trevas do erro papal.
Viam que sob a direção do papa e sacerdotes, multidões em vão se esforçavam por obter perdão afligindo o corpo por causa do pecado da alma. Ensinados a confiar nas boas obras para se salvarem, estavam sempre a olhar para si mesmos, ocupando a mente com a sua condição pecaminosa, vendo-se expostos à ira de Deus, afligindo alma e corpo, não achando, contudo, alívio. Almas conscienciosas eram, assim, enredadas pelas doutrinas de Roma. Milhares abandonavam amigos e parentes, passando a vida nas celas dos conventos. Por meio de frequentes jejuns e cruéis açoitamentos, por vigílias à meia-noite, prostrando-se durante horas cansativas sobre as lajes frias e húmidas de sua sombria habitação, por longas peregrinações, penitências humilhantes e terrível tortura, milhares procuravam inutilmente obter paz de consciência. Oprimidos por uma intuição de pecado e perseguidos pelo temor da ira vingadora de Deus, muitos continuavam a sofrer até que a natureza exausta se rendia e, sem um resquício de luz ou esperança, baixavam à sepultura.
Os valdenses ansiavam por partir a estas almas famintas o pão da vida, revelar-lhes as mensagens de paz das promessas de Deus e apontar-lhes a Cristo como a única esperança de salvação. Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus. A confiança nos méritos humanos faz perder de vista o amor infinito de Cristo. Jesus morreu como sacrifício pelo homem porque a raça caída nada pode fazer para se recomendar a Deus. Os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido são o fundamento da fé cristã. A dependência da alma para com Cristo é tão real, e sua união com Ele deve ser tão íntima como a do membro para com o corpo, ou da vara para com a videira.
Os ensinos dos papas e sacerdotes haviam levado os homens a considerar o caráter de Deus, e mesmo o de Cristo, como severo, sombrio e repelente. Representava-se o Salvador tão destituído de simpatia para com o homem em seu estado decaído, que devia ser invocada a mediação de sacerdotes e santos. Aqueles cuja mente fora iluminada pela Palavra de Deus, anelavam guiar estas almas a Jesus, como seu compassivo e amante Salvador que permanece de braços estendidos a convidar todos a irem a Ele com seu fardo de pecados, seus cuidados e fadigas. Almejavam remover os obstáculos que Satanás havia acumulado para que os homens não pudessem ver as promessas, e ir diretamente a Deus, confessando os pecados e obtendo perdão e paz.
Ardorosamente desvendava o missionário valdense as preciosas verdades do evangelho ao espírito inquiridor. Citava com precaução as porções cuidadosamente copiadas da Sagrada Escritura. Era a sua máxima alegria infundir esperança à alma conscienciosa, ferida pelo pecado, e que tão-somente podia ver um Deus de vingança, esperando para executar justiça. Com lábios trémulos e olhos lacrimosos, muitas vezes com os joelhos curvados, expunha a seus irmãos as preciosas promessas que revelam a única esperança do pecador. Assim a luz da verdade penetrava muitas almas obscurecidas, fazendo recuar a nuvem sombria até que o Sol da Justiça resplandecesse no coração, trazendo saúde em seus raios. Dava-se amiúde o caso de alguma porção das Escrituras ser lida várias vezes, desejando o ouvinte que fosse repetida, como se quisesse assegurar-se de que tinha ouvido bem. Em especial se desejava, de maneira ávida, a repetição destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado." I João 1:7. "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15.
Muitos não se iludiam em relação às pretensões de Roma. Viam quão vã é a mediação de homens ou anjos em favor do pecador. Raiando-lhes na mente a verdadeira luz, exclamavam com regozijo: "Cristo é meu Sacerdote; Seu sangue é meu sacrifício; Seu altar é meu confessionário." Confiavam-se inteiramente aos méritos de Jesus, repetindo as palavras: "Sem fé é impossível agradar-Lhe." Heb. 11:6. "Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12.
A certeza do amor de um Salvador parecia, a algumas destas pobres almas agitadas pela tempestade, coisa por demais vasta para ser abrangida. Tão grande era o alívio que sentiam, tal a inundação de luz que lhes sobrevinha, que pareciam transportadas ao Céu. Punham confiantemente suas mãos na de Cristo; firmavam os pés sobre a Rocha dos séculos. Bania-se todo o temor da morte. Podiam agora ambicionar a prisão e a fogueira se desse modo honrassem o nome de seu Redentor.
Em lugares ocultos era a Palavra de Deus apresentada e lida, algumas vezes a uma única alma, outras, a um pequeno grupo que anelava a luz e a verdade. Amiúde a noite toda era passada desta maneira. Tão grande era o assombro e admiração dos ouvintes que o mensageiro da misericórdia frequentemente se via obrigado a cessar a leitura até que o entendimento pudesse apreender as boas novas da salvação. Era comum proferirem-se palavras como estas: "Aceitará Deus em verdade a minha oferta? Olhar-me-á benignamente? Perdoar-me-á Ele?" Lia-se a resposta: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mat. 11:28.
A fé se apegava à promessa, ouvia-se a alegre resposta: "Nada mais de longas peregrinações; nada de penosas jornadas aos relicários sagrados. Posso ir a Jesus tal como estou, pecador e ímpio, e Ele não desprezará a oração de arrependimento. 'Perdoados te são os teus pecados.' Os meus pecados, efectivamente os meus, podem ser perdoados!"
Enchia o coração uma onda de sagrada alegria, e o nome de Jesus era engrandecido em louvores e acções de graças. Estas almas felizes voltavam para casa a fim de difundir a luz, repetir a outros, tão bem quanto podiam, a nova experiência, de que acharam o Caminho verdadeiro e vivo. Havia um estranho e solene poder nas palavras das Escrituras, que falava directamente ao coração dos que se achavam anelantes pela verdade. Era a voz de Deus e levava a convicção aos que ouviam.
O mensageiro da verdade continuava o seu caminho; mas seu aspecto de humildade, sua sinceridade, ardor e profundo fervor, eram assuntos de observação frequente. Em muitos casos os ouvintes não lhe perguntavam donde viera ou para onde ia. Ficavam tão dominados, a princípio pela surpresa e depois pela gratidão e alegria, que não pensavam em interrogá-lo. Quando insistiam com ele para os acompanhar a suas casas, respondia-lhes que devia visitar as ovelhas perdidas do rebanho. Não seria ele um anjo do Céu? Indagavam.
Em muitos casos não mais se via o mensageiro da verdade. Seguira para outros países, ou a vida se lhe consumia em algum calabouço desconhecido, ou talvez seus ossos estivessem alvejando no local em que testificara da verdade. Mas as palavras que deixara após si, não poderiam ser destruídas. Estavam a fazer sua obra no coração dos homens; os benditos resultados só no dia do juízo se revelarão plenamente.
Os missionários valdenses estavam invadindo o reino de Satanás, e os poderes das trevas despertaram para maior vigilância. Todo esforço para avanço da verdade era observado pelo príncipe do mal, e ele excitava os temores de seus agentes. Os chefes papais viram grande perigo para a sua causa no trabalho destes humildes itinerantes. Se fosse permitido à luz da verdade resplandecer sem impedimento, varreria as pesadas nuvens de erro que envolviam o povo; haveria de dirigir o espírito dos homens a Deus unicamente, talvez destruindo, afinal, a supremacia de Roma.
A própria existência deste povo, mantendo a fé da antiga igreja, era testemunho constante da apostasia de Roma, e portanto excitava o ódio e perseguição mais atrozes. Sua recusa de renunciar às Escrituras era também ofensa que Roma não podia tolerar. Decidiu-se ela a exterminá-los da Terra. Começaram então as mais terríveis cruzadas contra o povo de Deus em seus lares montesinos. Puseram-se inquisidores em suas pegadas, e a cena do inocente Abel tombando ante o assassino Caim repetia-se frequentemente.
Reiteradas vezes foram devastadas as suas férteis terras, destruídas as habitações e capelas, de maneira que onde houvera campos florescentes e lares de um povo simples e laborioso, restava apenas um deserto. Assim como o animal de rapina se torna mais feroz provando sangue, a ira dos sectários do papa acendia-se com maior intensidade com o sofrimento de suas vítimas. Muitas destas testemunhas da fé pura foram perseguidas através das montanhas e caçadas nos vales em que se achavam escondidas, encerradas por enormes florestas e cumes rochosos.
Nenhuma acusação se poderia fazer contra o carácter moral da classe proscrita. Mesmo seus inimigos declaravam serem eles um povo pacífico, sossegado e piedoso. Seu grande crime era não quererem adorar a Deus segundo a vontade do papa.
Por tal crime, toda humilhação, insulto e tortura que homens ou diabos podiam inventar, amontoaram-se sobre eles.
Determinando-se Roma a exterminar a odiada seita, uma bula foi promulgada pelo papa, condenando-os como hereges e entregando-os ao morticínio. Não eram acusados como ociosos, desonestos ou desordeiros; mas declarava-se que tinham uma aparência de piedade e santidade que seduzia "as ovelhas do verdadeiro aprisco". Portanto ordenava o papa que "aquela maligna e abominável seita de perversos", caso se recusasse a renunciar, "fosse esmagada como serpentes venenosas". - Wylie. Esperava o altivo potentado ter de responder por estas palavras? Sabia que estavam registradas nos livros do Céu, para lhe serem apresentadas no juízo? "Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos", disse Jesus, "a Mim o fizestes." Mat. 25:40.
Essa bula convocava a todos os membros da igreja para se unirem à cruzada contra os hereges. Como incentivo para se empenharem na obra cruel, "absolvia de todas as penas e castigos eclesiásticos, gerais e particulares; desobrigava a todos os que se unissem à cruzada, de qualquer juramento que pudessem ter feito; legitimava-lhes o direito a qualquer propriedade que pudessem ter ilegalmente adquirido; e prometia remissão de todos os pecados aos que matassem algum herege. Anulava todos os contratos feitos em favor dos valdenses, ordenava que seus criados os abandonassem, proibia a toda pessoa dar-lhes qualquer auxílio que fosse e a todos permitia tomar posse de sua propriedade". - Wylie. Este documento revela claramente o espírito que o ditou. É o bramido do dragão, e não a voz de Cristo, que nele se ouve.
Os dirigentes papais não queriam conformar seu caráter com a grande norma da lei de Deus, mas erigiram uma norma que lhes fosse conveniente, e decidiram obrigar todos a se conformarem com a mesma porque Roma assim o desejava. As mais horríveis tragédias foram encenadas. Sacerdotes e papas corruptos e blasfemos estavam a fazer a obra que Satanás lhes designava. A misericórdia não encontrava guarida em sua natureza. O mesmo espírito que crucificou Cristo e matou os apóstolos, o mesmo que impulsionou o sanguinário Nero contra os fiéis de seu tempo, estava em operação a fim de exterminar da Terra os que eram amados de Deus.
As perseguições desencadeadas durante muitos séculos sobre este povo temente a Deus, foram por ele suportadas com uma paciência e constância que honravam seu Redentor. Apesar das cruzadas contra eles e da desumana carnificina a que foram sujeitos, continuavam a mandar seus missionários a espalhar a preciosa verdade. Eram perseguidos até à morte; contudo, seu sangue regava a semente lançada, e esta não deixou de produzir fruto. Assim os valdenses testemunharam de Deus, séculos antes do nascimento de Lutero. Dispersos em muitos países, plantaram a semente da Reforma que se iniciou no tempo de Wycliffe, cresceu larga e profundamente nos dias de Lutero, e deve ser levada avante até ao final do tempo por aqueles que também estão dispostos a sofrer todas as coisas pela "Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo". Apoc. 1:9.

MENSAGEM PARA O TEMPO DO FIM

Para cada período da História, Deus tem uma mensagem específica. Essa mensagem é denominada “verdade presente” Exemplo disso é a pregação de Noé, que conclamou o mundo antediluviano ao arrependimento e anunciou a destruição por meio do dilúvio (Gn 6 e 7).
No Novo Testamento, encontramos outro exemplo em que a mensagem presente consistia em aceitar Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Embora essa pregação cristocêntrica permeie a Bíblia em todos os tempos, naquela época, os apóstolos tinham o desafio de levar as pessoas a aceitar o Carpinteiro judeu como o prometido Messias do Antigo Testamento (At 2:22-36; 4:11,12; 5:30,31).
Avançando na História, encontramos no século dezesseis o movimento da Reforma Protestante com a mensagem de que a Bíblia é a única regra de fé (Sola Scriptura) e de que a fé nos méritos de Cristo é o único meio pelo qual alguém pode ser aceito e salvo por Deus (Sola Fide). Tais aspectos da mensagem eram apropriados ao contexto em que os reformadores viviam, pois o papado havia exaltado a tradição em lugar do ‘Assim diz o Senhor” e a salvação pelas obras em lugar da justiça de Cristo.
Tempo do fim.
Qual é a mensagem de Deus para nosso tempo? Para entendermos isso, precisamos identificar o período da História em que vivemos. No capítulo 12 do livro de Daniel, Deus revela ao profeta que o entendimento do seu livro só ocorreria no “tempo do fim” (v. 9). Esse tempo chegaria após o período profetizado “de um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 7), o que equivale a 1260 anos (538 d.C – 1798 d.C), nos quais o Romanismo mudaria o Decálogo, perseguiria os fiéis de Deus e lançaria a verdade por terra (Dn 7:25; 8:12; Ap 12:6,13,14; 13:5,6).
Portanto, em 1798, começou o ”tempo do fim” um período singular em que as principais profecias de Daniel se cumpririam (Dn 8:14; 12:11, 12), haveria um crescente avanço do conhecimento profético e também científico (Dn 12:4) e a História registraria importantes sinais preditos nos evangelhos e no livro do Apocalipse (Mt 24:29; Mc 13:24,25; Lc 21:11,25; Ap 6:12-14). (2)
Para esse tempo, Deus tem uma advertência de especial importância para os habitantes da Terra. É o último aviso de misericórdia a este mundo mergulhado nas trevas do pecado. Encontramos essa mensagem em Apocalipse 14:6-12 – a tríplice mensagem angélica. Essa tríplice mensagem antecede a cena da segunda vinda de Cristo – o Cavaleiro que vem para ceifar a seara da Terra (versos 14-16). Portanto, é uma advertência que deve ser comunicada no tempo do fim, uma solene mensagem que visa a preparar um povo para o encontro com o Rei que Se aproxima. O verso 13, que está entre a tríplice mensagem e os textos da Segunda Vinda, pronuncia uma bênção sobre aqueles que morrem no período em que essas mensagens são pregadas e crêem nelas: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”(3)
A pessoa de Cristo e Sua obra salvadora constituem o tema catalisador dessa tríplice mensagem. Nela, o ”evangelho eterno” as boas novas da justiça e da salvação em Cristo são o tema central e predominante, como demonstrado na introdução da passagem (v. 6).(4)
O primeiro anjo proclama o juízo de Deus (v. 7), o qual começou sua primeira fase em 22 de outubro de 1844. Nessa data, terminou o grande período profético dos 2300 anos de Daniel 8:14, e começou a purificação do santuário celestial, a qual corresponde ao mesmo julgamento visto pelo profeta no (capítulo 7:9-10) (5).
Nessa nova fase de Seu ministério, Cristo não só intercede pela humanidade, como já vinha fazendo, mas atua no juízo em defesa de Seu povo, que está sendo julgado conforme os registros celestiais (Dn 7:10). Para essa fase do julgamento, usam-se os termos juízo pré-advento ou juízo investigativo, pois ocorre no 
período que antecede a segunda vinda de Cristo e no qual os filhos de Deus são julgados/examinados pelo padrão da lei divina que deve ser obedecida como fruto da fé em Cristo.(6) Diante da iminência do julgamento, o anjo conclama a humanidade a temer a Deus, glorificá-Lo e adorá-Lo.
O segundo anjo anuncia a queda de Babilônia (v. 8), o falso sistema religioso dos últimos dias. A queda é conseqüência de o sistema estar fundamentado no erro, por ter rejeitado a verdade bíblica e defender doutrinas espúrias, como: imortalidade da alma, santidade do domingo, salvação pelas obras, etc. Quem não aceitar as palavras de Cristo e não as praticar, experimentará a ruína (Mt 7:26, 27), e quem “ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (2 Jo 9). Assim, a mensagem do segundo anjo é um convite para que saiam de Babilônia todos os que foram enganados por suas falsas doutrinas (Ap 18:1-5) e aceitem a verdade conforme revelada em Cristo.
O terceiro anjo acompanha as outras mensagens com uma advertência contra a adoração à besta e ao recebimento da sua marca (Ap 14:9-11). Essa mensagem demonstra que o conflito final girará em torno da lealdade a Deus por meio da guarda dos Seus mandamentos ou à obediência a preceitos humanos. (7) Uma corporação de Igreja/Estado, nos últimos dias (Ap 13:11, 12), obrigará a humanidade a observar como dia de guarda um falso dia de adoração (Ap 13:16,17) em lugar do dia estipulado por Deus em Sua lei (Êx 20:8-11). Os que aceitarem esse falso dia serão atingidos pelas sete últimas pragas que serão derramadas “sem mistura” de misericórdia (Ap 14:9, 10; 15:1; 16). Em contraste, haverá o grupo daqueles que permanecerão fiéis a Deus mesmo diante das mais terríveis ameaças e que foram classificados como santos por guardarem “os mandamentos de Deus” como fruto de sua “fé em Jesus” (Ap 14:12).
Mensagem específica.
Justamente nesse tempo, o tempo do fim, no qual a tríplice mensagem deve ser proclamada, Deus suscita um povo para cumprir essa solene missão. Esse povo é identificado como aqueles “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Essa última característica – “o testemunho de Jesus” – é definida como a manifesta-ção do dom de profecia (Ap 19:10). A Igreja Adventista do Sétimo Dia se enquadra nessa classificação, pois surge no período do tempo do fim (1844) como resultado dos estudos e do cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse, exaltando a obediência à Lei de Deus, especificamente a validade do sábado, e testemunhando, em seu meio, a manifestação do verdadeiro dom de profecia na pessoa de Eilen G. White.
Desse modo, há um povo que prega uma mensagem específica no tempo determinado pela profecia. Esse povo foi levantado para restaurar as verdades que foram lançadas por terra durante o período de supremacia papal, reparar as “brechas” feitas na lei de Deus, edificando, assim, “as antigas ruínas” (Is 58:12). Nossa responsabilidade é levar ao mundo uma mensagem singular, preparando “a seara da Terra” para a vinda do Filho do homem. “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. [..,] Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção. As mais solenes verdades já confiadas a mortais nos foram dadas, para as proclamarmos ao mundo. A proclamação dessas verdades deve ser nossa obra. O mundo precisa ser advertido, e o povo de Deus deve ser fiel ao legado que se lhe confiou”(9) Tal responsabilidade deve incutir em nós um senso de missão jamais visto em outro povo. Precisamos nos unir e concentrar as nossas forças nessa direção
Mas não podemos nos esquecer de que só cumpriremos essa missão com a ajuda do Espírito Santo. Em Apocalipse 18:1, a Terra é vista sendo iluminada pela glória celestial, e essa glória é a manifestação poderosa do Espírito Santo no tempo do fim, derramando Seu poder sobre a igreja como “chuva serôdia!(10) Esse poder capacitará a igreja para dar, “com potente voz” (verso 2), o último convite ao mundo, antes do fechamento da porta da graça (versos 2-5). Os adventistas do sétimo dia precisam ter como prioridade a busca desse poder a fim de continuar pregando “aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (verso 6) o evangelho eterno, no contexto da tríplice mensagem angélica. Cada pessoa que conheceu a verdade para o tempo presente e se une às fileiras do adventismo, é chamada a proclamar “as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9). Portanto, cumpramos nossa missão!
Referências1. MervinC Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 129,130.
2. Ibid.,p.318,319.
3. Alberto R. Timm, 0 Santuário e as três mensagens angélicas: fatores íntegrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002) p. 232.
4. Lição da Escola Sabatina, “O Último Convite: a mensagem dos três anjos”, outubro-dezembro,1994, p 17.
5. Clifford Goldstein, 1844: Uma explicacâo simples das principais profecias de Daniel – Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 45-48.
6. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 482.
7. Ellen G. White, Eventos Finais, p. 193.
8. Maxwell, 0p.Cit.,p. 422,423.
9. Ellen G. White, Evangelismo, p. 119,120.
10. Ellen G. White, O Grande Conflito pág 611, 612.
Texto de autoria de Ezinaldo Ubirajara Pereira, capelão do Hospital Adventista de Belém, Pará, publicado na Revista Adventista de Agosto/2008.
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15 de set. de 2018

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS

Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!

13 de set. de 2018

A obra do selamento já começou?

Já vimos que o anjo selador é o terceiro anjo (Ap 14:9-13). Logo, a obra do selamento teve início
quando o anjo começou a sua obra. Foi em 1844, quando foi revelada a verdade do Sábado.
" ‘Foi-Lhe [a Deus] muito agradável quando Sua Lei começou a crescer em força. Essa verdade
surge e está em crescimento cada vez mais forte. Ela é o selo! Está chegando! Surge, vindo da
banda do sol nascente; como o Sol, a princípio frio, se torna mais quente e envia seus raios. Quando
essa verdade surgiu, havia apenas um pouco de luz nela, mas esta tem aumentado. Oh, que poder
têm esses raios!’ " —Questions on the Sealing Message, págs. 15 e 16.
Embora esta obra tenha começado em 1844, não era plenamente compreendida nesse tempo. À
irmã White foi dada uma visão da obra do assinalamento:
"Numa reunião efetuada em Dorchester, Massachusetts, em novembro de 1848, foi-me concedida
uma visão da proclamação da mensagem do assinalamento, e do dever que incumbia aos irmãos de
publicarem a luz que resplandecia em nosso caminho.
"Depois da visão eu disse ao meu esposo: ‘Tenho uma mensagem para ti. Deves começar a publicar
um pequeno jornal e mandá-lo ao povo. Seja pequeno a princípio. Mas, lendo-o o povo, mandar-te-
ão meios com que imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde este pequeno começo
foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.’ " —Vida e Ensinos,
pág. 128.
"Com o início desta obra de publicação, não cessamos nossos labores de pregar a verdade, mas
viajamos de um lugar para outro, proclamando as doutrinas que nos haviam trazido tão grande luz e
alegria, animando os crentes, corrigindo erros e pondo as coisas em ordem na Igreja." —Vida e
Ensinos, pág. 130.
Pelos escritos citados podemos ver que o assunto do selamento foi a primeira doutrina publicada em
A Verdade Presente (este era o nome do periódico) no primeiro número, na primeira página.
Portanto, os primeiros Adventistas compreenderam que a obra do selamento começou no início da
mensagem do terceiro anjo.
Em 1849 outra visão, que aqui citamos, foi dada à irmã White sobre a abertura e o fechamento da
porta:
"Vi que a presente prova do Sábado não poderia vir até que a mediação de Jesus no lugar santo
terminasse e Ele passasse para dentro do segundo véu. Portanto, os cristãos que dormiram antes
que a porta fosse aberta no santíssimo, quando terminou o clamor da meia-noite no sétimo mês, em
1844, e que não haviam guardado o verdadeiro Sábado, agora repousam em esperança, pois não
tiveram a luz e o teste sobre o Sábado que nós agora temos, uma vez que a porta foi aberta. Vi que
Satanás estava tentando alguns do povo de Deus neste ponto. Sendo que grande número de bons
cristãos adormeceram nos triunfos da fé e não guardaram o verdadeiro Sábado, eles estavam em
dúvida quanto a ser isto um teste para nós agora. ...
"Satanás está agora usando cada artifício neste tempo de selamento a fim de desviar a mente do
povo de Deus da verdade presente e levá-los a vacilar. Vi que Deus estava estendendo uma
cobertura sobre o Seu povo a fim de protegê-lo no tempo de angústia; e que cada alma que se
decidia pela verdade e era pura de coração devia ser coberta com a proteção do Todo-Poderoso.
"Satanás sabia disto e estava trabalhando com afinco para conservar vacilante e instável na verdade
a mente do maior número possível de pessoas. ...
"Satanás estava procurando lançar mão de todas as suas artes a fim de mantê-los onde estavam
até que a cobertura fosse estendida sobre o povo de Deus, e eles [os que não estavam firmes ao
lado da verdade presente] fossem deixados sem um abrigo da ardente ira de Deus, nas sete últimas
pragas." —Primeiros Escritos, pág. 42 e 43.
"Deus está começando a estender a cobertura sobre Seu povo, e ela logo será estendida sobre todos
os que devem ter um abrigo no dia da matança." —Primeiros Escritos, pág. 44.
A cobertura (selo) de Deus foi estendida sobre Seu povo ou, em outras palavras, o selo do Deus
vivo estava sendo colocado em suas frontes. Os que não foram selados estavam sujeitos às sete
últimas pragas. A profetisa disse que naquele tempo (1849) o selamento já estava em
prosseguimento.
"Nossa posição parece muito clara. Sabemos que temos a verdade, o clamor da meia-noite ficou
atrás; a porta se fechou em 1844 e Jesus em breve sairá da mediação entre Deus e o homem. O
selamento estará realizado, encerrado. Oh, conservemos toda a armadura de Deus a fim de
estarmos prontos para a batalha a qualquer momento. Teremos de lutar agora por polegada após
polegada de terreno. —Carta 5, 1849, págs. 5 e 6. Manuscript Releases, vol. 5, pág. 200.
"O tempo do selamento é muito curto, e logo passará. Agora, enquanto os quatro anjos estão
contendo os ventos, é o tempo de fazer firme a nossa vocação e eleição." —Primeiros Escritos, pág.
58.
"Vi que Satanás operaria mais poderosamente agora do que nunca dantes. Ele sabe que seu tempo
é curto e que o assinalamento dos santos os colocará além de seu alcance. Ele agora opera de toda
maneira que lhe seja possível, e experimentará toda a sua insinuação para fazer que os santos não
estejam em guarda, e fazê-los adormecer sobre a verdade presente ou dela duvidar, para os
impedir de ser assinalados com o selo do Deus vivo." —Ms 7, 1850, págs. 2 e 3. Manuscript
Releases, vol. 8, pág. 220.
Em vez de declarar que o selamento logo começaria, a profetisa claramente afirmou que logo
terminaria.
"Quando Jesus deixa o santuário, então o que é santo e justo será santo e justo ainda, pois todos os
seus pecados estarão então apagados, e eles serão selados com o selo do Deus vivo. Mas os que
são injustos e sujos serão ainda injustos e sujos, pois então não haverá Sacerdote no santuário para
apresentar os sacrifícios, confissões e orações deles diante do trono do Pai. Portanto, o que se faz
para resgatar almas da ira vindoura deve ser feito antes que Jesus deixe o Lugar Santíssimo do
Santuário Celestial." —The Present Truth, vol. 1, no 4.
Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia acreditavam e ensinavam que desde 1844 se
estava cumprindo a primeira parte do capítulo sete de Apocalipse, como o citamos:
"Após o desapontamento de 1844 o povo de Deus viu a luz sobre a questão do santuário no Céu.
Então viram a obrigatoriedade do quarto mandamento, bem como dos outros nove mandamentos do
Decálogo. A reforma do Sábado começou naquele tempo. Em 1848 começou a ser reconhecida como
o cumprimento de Apocalipse 7:1-4." —S. N. Haskell, Manual da Bíblia (edição de 1996), pág. 124.
"O selo de Apocalipse 7:1-4 é o mesmo que o nome do Pai, de Apocalipse 14:1. Selo e sinal são às
vezes sinônimos (Rm 4:11). O sinal entre Deus e Seu povo é o Sábado (Êx 31:13-17; Ez 20:12 e
20). O atributo do poder criador distingue o verdadeiro Deus de todos os outros deuses, e esse
atributo se encontra somente no mandamento do Sábado. Portanto, esse mandamento, e somente
esse, contém o título ou nome que realmente sela o Decálogo como a Lei de Deus. Por isso o
Sábado se torna o selo da Lei de Deus e um sinal entre Ele e Seus verdadeiros filhos. A mensagem
do selamento de Apocalipse 7:1-8 é, portanto, apenas a profecia da reforma do Sábado nos últimos
dias." —O. A. Johnson, Bible Text-book, pág. 172.
"Caros irmãos espalhados pelo exterior: chegamos a um tempo em que podemos confiadamente
tomar nossa posição como a que está expressa no título que demos a estas linhas; que a
providência de Deus nos trouxe a um lugar onde a mensagem ou a obra do anjo que ascendia (Ap
7:2) deve cumprir-se.
"Sem passarmos a uma exposição dessa profecia, apresentemos alguns de seus principais aspectos
inquestionáveis:
"1. Os ventos denotam contendas políticas e comoções entre as nações.
"2. Os quatro anjos nos quatro cantos da Terra, retendo esses ventos, são quatro mensageiros
divinos a cujo cargo Deus confiou os negócios das nações, e cujo território é tanto para restringir os
ventos da contenda quando a obra de Deus o requerer, como também para fazer os ventos soprar e
levantar a grande tormenta dos confins da Terra (Jr 25:32), quando a Igreja de Deus estiver
preparada e as nações amadurecidas para essa comoção final.
"3. O anjo do verso 2, subindo da banda do Oriente com o selo do Deus vivo, é idêntico ao terceiro
anjo de Apocalipse 14:9-12.
"4. Seu clamor aos quatro anjos para que não destruíssem a Terra etc., isto é, para reterem o
soprar dos ventos até se completar o selamento dos servos de Deus, mostra de modo conclusivo
que está começando a surgir certa operação de conflito, guerra e comoção, que interfere na obra do
selamento e que, no conselho de Deus, tem de ser restringida até que a obra se complete.
"5. Como o anjo de Apocalipse 14:9 simboliza uma obra da parte da Igreja, assim o clamor deste
anjo denota forçosamente uma fervorosa petição do povo de Deus pela restrição de algum conflito
nacional ou político que esteja começando a interferir em sua obra." —Seventh-Day Adventists in
Time of War, págs. 70 e 71.
A primeira visão de E. G. White foi reimpressa na publicação intitulada To the Little Remmant
Scattered Abroad, de 6 de abril de 1846. Diz o parágrafo 6:
"Bem, prezados irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor, trata-se de uma reunião especial para os
que têm o selo do Deus vivo."
No artigo original publicado no The Day Star foi escrito o seguinte:
"E quando estávamos para entrar no santo templo, Jesus levantou Sua bela voz, e disse: ‘Somente
os 144 mil entram neste lugar.’ E nós exclamamos: ‘Aleluia!’ Bendito seja o Senhor, irmão
Jacobs, trata-se de uma reunião extraordinária para os que têm o selo do Deus vivo. Esse
templo era apoiado em sete colunas, todas de ouro transparente, cravejado das pérolas mais
reluzentes." —The Day Star, 24 de janeiro de 1846. (A frase omitida de Testimonies, vol. 1, pág. 69,
e Primeiros Escritos, pág. 19, está em negrito.)
É desconhecida a razão de esta frase ter sido omitida quando o artigo foi publicado em Testimonies,
vol. 1, pág. 69, mas com referência a essa supressão a irmã White declara o seguinte:
"Não há nisto nada que não sustentemos ainda. Referências a nossas obras publicadas mostrarão
nossa crença de que os vivos justos receberão o selo de Deus antes do fim da graça; também que
eles fruirão honras especiais no reino de Deus." —Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 66 (1883).
Esta explicação dada pela própria irmã White confirma que muitos irmãos tinham recebido o selo do
Deus vivo na testa desde o início da mensagem do terceiro anjo, e que em 1883 o povo do advento
ainda estava crendo nesta verdade.
Em outro testemunho ela declara:
"Os que têm na testa o selo do infinito Deus considerarão o mundo e suas atrações subordinados
aos interesses eternos." —Review and Herald, 13 de julho de 1897.
Ainda outra interessante declaração é a seguinte:
"Vivem em nossa Terra pessoas que passaram dos noventa anos de idade. Vêem-se em sua
debilidade os resultados naturais da idade avançada. Mas eles crêem em Deus, e Deus os ama. O
selo de Deus está sobre eles. Farão parte do número dos quais o Senhor disse: ‘Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.’ " —The SDA Bible Commentary [E. G.
White Comments], vol. 7, pág. 982 (1899).
"Uma irmã sueca disse: ‘Fiquei verdadeiramente renovada desde que cheguei aqui. Sinto-me forte
na fé. Jesus possibilitou a minha vinda, dando-me paz e amor. Quero ser uma humilde seguidora de
Cristo. Quero ter o selo de Deus na minha fronte.’ " —Review and Herald, 18 de maio de 1876.
fonte: o selamento do povo de Deus

UM POVO QUE DIFUNDE LUZ

Por entre as trevas que baixaram à Terra durante o longo período da supremacia papal, a luz da verdade não poderia ficar inteiramente extinta. Em cada época houve testemunhas de Deus - homens que acalentavam fé em Cristo como único mediador entre Deus e o homem, que mantinham a Escritura Sagrada como a única regra de vida, e santificavam o verdadeiro sábado. Quanto o mundo deve a estes homens, a posteridade jamais saberá. Foram estigmatizados como hereges, impugnados os seus motivos, criticado o seu carácter, e suprimidos, difamados ou mutilados os seus escritos. No entanto, permaneceram firmes, e de século em século mantiveram a fé em sua pureza como sagrado legado às gerações vindouras.
A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma, está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registos humanos. Poucos traços de sua existência se podem encontrar, a não ser nas acusações de seus perseguidores. Foi tática de Roma obliterar todo vestígio de dissidência de suas doutrinas ou decretos. Tudo que fosse herético, quer pessoas quer escritos, procurava ela destruir. Expressões de dúvida ou questões quanto à autoridade dos dogmas papais eram suficientes para tirar a vida do rico ou pobre, elevado ou humilde. Roma se esforçava também por destruir todo registo de sua crueldade para com os que discordavam dela. Os concílios papais decretavam que livros ou escritos contendo relatos desta
natureza deviam ser lançados às chamas. Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos, e de forma desfavorável à preservação; portanto, pouco havia a impedir que os romanistas levassem a efeito o seu desígnio.
Nenhuma igreja dentro dos limites da jurisdição romana ficou muito tempo sem ser perturbada no gozo da liberdade de consciência. Mal o papado obtivera poder, estendeu os braços para esmagar a todos os que se recusassem a reconhecer-lhe o domínio; e, uma após outra, submeteram-se as igrejas ao seu governo.
Na Grã-Bretanha o primitivo cristianismo muito cedo deitou raízes. O evangelho, recebido pelos bretões nos primeiros séculos, não se achava então corrompido pela apostasia romana. A perseguição dos imperadores pagãos, que se estendeu mesmo até àquelas praias distantes, foi a única dádiva que a primeira igreja da Bretanha recebeu de Roma. Muitos dos cristãos, fugindo da perseguição na Inglaterra, encontraram refúgio na Escócia; daí a verdade foi levada à Irlanda, sendo em todos estes países recebida com alegria.
Quando os saxões invadiram a Bretanha, o paganismo conseguiu predomínio. Os conquistadores desdenharam ser instruídos por seus escravos, e os cristãos foram obrigados a retirar-se para as montanhas e os pântanos. Não obstante, a luz por algum tempo oculta continuou a arder. Na Escócia, um século mais tarde, brilhou ela com um fulgor que se estendeu a mui longínquas terras. Da Irlanda vieram o piedoso 
Columba e seus colaboradores, os quais, reunindo em torno de si os crentes dispersos da solitária ilha de Iona, fizeram desta o centro de seus trabalhos missionários. Entre estes evangelistas encontrava-se um observador do sábado bíblico, e assim esta verdade foi introduzida entre o povo. Estabeleceu-se uma escola em Iona, da qual saíram missionários, não somente para a Escócia e Inglaterra, mas para a Alemanha, Suíça e mesmo para a Itália.
Roma, porém, fixara os olhos na Bretanha e resolvera pô-la sob sua supremacia. No século VI seus missionários empreenderam a conversão dos pagãos saxões. Foram recebidos com favor pelos orgulhosos bárbaros, e induziram muitos milhares a professar a fé romana. O trabalho progredia e os dirigentes papais e seus conversos encontraram os cristãos primitivos. Eloquente contraste se apresentou. Os últimos eram simples, humildes e de carácter, doutrina e maneiras segundo as Escrituras, ao passo que os primeiros manifestavam a superstição, a pompa e a arrogância do papado. O emissário de Roma exigiu que estas igrejas cristãs reconhecessem a supremacia do soberano pontífice. Os bretões mansamente replicaram que desejavam amar a todos os homens, mas que o papa não tinha direito à supremacia na igreja, e que eles poderiam prestar-lhe somente a submissão devida a todo seguidor de Cristo. Repetidas tentativas foram feitas para se conseguir sua adesão a Roma; mas esses humildes cristãos, espantados com o orgulho ostentado por seus emissários, firmemente replicavam que não conheciam outro mestre senão a Cristo. Revelou-se, então, o verdadeiro espírito do papado. Disse o chefe romano: "Se não receberdes irmãos que vos trazem paz, recebereis inimigos que vos trarão guerra. Se vos não unirdes connosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, recebereis deles o golpe de morte." - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Não era isto simples ameaça. Guerra, intriga e engano foram empregados contra as testemunhas de uma fé bíblica, até que as igrejas da Bretanha foram destruídas ou obrigadas a submeter-se à autoridade do papa.
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiram por muitos séculos corporações de cristãos que permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afectados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades. Estes cristãos acreditavam na perpetuidade da lei de Deus e observavam o sábado do quarto mandamento. Igrejas que se mantinham nesta fé e prática, existiram na África Central e entre os arménios, na Ásia.
Mas dentre os que resistiram ao cerco cada vez mais apertado do poder papal, os valdenses ocuparam posição preeminente. A falsidade e corrupção papal encontraram a mais decidida resistência na própria terra em que o papa fixara a sede. Durante séculos as igrejas do Piemonte mantiveram-se independentes; mas afinal chegou o tempo em que Roma insistiu em submetê-las. Depois de lutas inúteis contra a tirania, os dirigentes destas igrejas reconheceram relutantemente a supremacia do poder a que o mundo todo parecia render homenagem. Alguns houve, entretanto, que se recusaram a ceder à autoridade do papa ou do prelado. Estavam decididos a manter sua fidelidade a Deus, e preservar a pureza e simplicidade de fé. Houve separação. Os que se apegaram à antiga fé, retiraram-se; alguns, abandonando os Alpes nativos, alçaram a bandeira da verdade em terras estrangeiras; outros se retraíram para os vales afastados e fortalezas das montanhas, e ali preservaram a liberdade de culto a Deus.
A fé que durante muitos séculos fora mantida e ensinada pelos cristãos valdenses, estava em assinalado contraste com as falsas doutrinas que Roma apresentava. A sua crença religiosa baseava-se na Palavra escrita de Deus - o verdadeiro documento religioso do cristianismo. Mas aqueles humildes camponeses, em seu obscuro retiro, excluídos do mundo e presos à labuta diária entre seus rebanhos e vinhedos, não teriam por si sós chegados à verdade em oposição aos dogmas e heresias da igreja apóstata. A fé que professavam não era nova. Sua crença religiosa era a herança de seus pais. Lutavam pela fé da igreja apostólica - a "fé que uma vez foi dada aos santos". Jud. 3. "A igreja no deserto" e não a orgulhosa hierarquia entronizada na grande capital do mundo, era a verdadeira igreja de Cristo, a depositária dos tesouros da verdade que Deus confiara a Seu povo para ser dada ao mundo.
Entre as principais causas que levaram a igreja verdadeira a separar-se da de Roma, estava o ódio desta ao sábado bíblico. Conforme fora predito pela profecia, o poder papal lançou a verdade por terra. A lei de Deus foi lançada ao pó, enquanto se exaltavam as tradições e costumes dos homens. As igrejas que estavam sob o governo do papado, foram logo compelidas a honrar o domingo como dia santo. No meio do erro e superstição que prevaleciam, muitos, mesmo dentre o verdadeiro povo de Deus, ficaram tão desorientados que ao mesmo tempo em que observavam o sábado, afastavam-se do trabalho também no domingo. Isso, porém, não satisfazia aos chefes papais. Exigiam não somente que fosse santificado o domingo, mas que o sábado fosse profanado; e com a mais violenta linguagem denunciavam os que ousavam honrá-lo. Era unicamente fugindo ao poder de Roma que alguém poderia em paz obedecer à lei de Deus.
Os valdenses foram os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição. Declaravam ser a Igreja de Roma a Babilónia apóstata do Apocalipse, e com perigo de vida erguiam-se para resistir a suas corrupções. Opressos pela prolongada perseguição, alguns comprometeram sua fé, cedendo pouco a pouco em seus princípios distintivos, enquanto outros sustentavam firme a verdade. Durante séculos de trevas e apostasia, houve alguns dentre os valdenses que negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e guardavam o verdadeiro sábado. Sob as mais atrozes tempestades da oposição conservaram a fé. Perseguidos embora pela espada dos saboianos (França) e queimados pela fogueira romana, mantiveram-se sem hesitação ao lado da Palavra de Deus e de Sua honra.
Por trás dos elevados baluartes das montanhas - em todos os tempos refúgio dos perseguidos e oprimidos - os valdenses encontraram esconderijo. Ali, conservou-se a luz da verdade a arder por entre as trevas da Idade Média. Ali, durante mil anos, testemunhas da verdade mantiveram a antiga fé.
Deus providenciara para Seu povo um santuário de majestosa grandeza, de acordo com as extraordinárias verdades confiadas à sua guarda. Para os fiéis exilados, eram as montanhas um emblema da imutável justiça de Jeová. Apontavam eles a seus filhos as alturas sobranceiras, em sua imutável majestade, e falavam-lhes d´Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação, cuja Palavra é tão perdurável como os montes eternos. Deus estabelecera firmemente as montanhas e as cingira de fortaleza; braço algum, a não ser o do Poder infinito, poderia movê-las do lugar. De igual maneira estabelecera Ele a Sua lei - fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. O braço do homem poderia atingir a seus semelhantes e destruir-lhes a vida; mas esse braço seria tão impotente para desarreigar as montanhas de seu fundamento e precipitá-las no mar, como para mudar um preceito da lei de Jeová ou anular qualquer de Suas promessas aos que Lhe fazem a vontade. Na fidelidade para com a Sua lei, os servos de Deus deviam ser tão firmes como os outeiros imutáveis.
As montanhas que cingiam os fundos vales eram testemunhas constantes do poder criador de Deus e afirmação sempre infalível de Seu cuidado protector. Esses peregrinos aprenderam a amar os símbolos silenciosos da presença de Jeová. Não condescendiam com murmurações por causa das dificuldades da sorte; nunca se sentiam abandonados na solidão das montanhas. Agradeciam a Deus por haver-lhes provido refúgio da ira e crueldade dos homens. Regozijavam-se diante d´Ele na liberdade de prestar culto. Muitas vezes, quando perseguidos pelos inimigos, a fortaleza das montanhas se provara ser defesa segura. De muitos rochedos elevados entoavam eles louvores a Deus e os exércitos de Roma não podiam fazer silenciar seus cânticos de ações de graças.
Torre Pellice, aqui os cristãos alimentados
pela pura Palavra de Deus viviam, nas grutas. A fé
era fortalecida na persegução.

Pura, singela e fervorosa era a piedade desses seguidores de Cristo. Os princípios da verdade, avaliavam-nos eles acima de casas e terras, amigos, parentes e mesmo da própria vida. Semelhantes princípios ardorosamente procuravam eles gravar no coração dos jovens. Desde a mais tenra infância os jovens eram instruídos nas Escrituras, e ensinava-se-lhes a considerar santos os requisitos da lei de Deus. Sendo raros os exemplares das Escrituras Sagradas, eram suas preciosas palavras confiadas à memória. Muitos eram capazes de repetir longas porções tanto do Antigo como do Novo Testamento. Os pensamentos de Deus associavam-se ao sublime cenário da natureza e às humildes bênçãos da vida diária. Criancinhas aprendiam a olhar com gratidão a Deus como o Doador de toda mercê e conforto.
Os pais, ternos e afectuosos como eram, tão sabiamente amavam os filhos que não permitiam que se habituassem à condescendência própria. Esboçava-se diante deles uma vida de provações e dificuldades, talvez a morte de mártir. Eram ensinados desde a infância a suportar rudezas, a sujeitar-se ao domínio, e contudo a pensar e agir por si mesmos. Muito cedo eram ensinados a encarar responsabilidades, a serem precavidos no falar e a compreenderem a sabedoria do silêncio. Uma palavra indiscreta que deixassem cair no ouvido dos inimigos, poderia pôr em perigo não somente a vida do que falava, mas a de centenas de seus irmãos; pois, semelhantes a lobos à caça da presa, os inimigos da verdade perseguiam os que ousavam reclamar liberdade para a fé religiosa.
Os valdenses haviam sacrificado a prosperidade temporal por amor à verdade, e com paciência perseverante labutavam para ganhar o pão. Cada recanto de terra cultivável entre as montanhas era cuidadosamente aproveitado; fazia-se com que os vales e as encostas menos férteis das colinas também produzissem. A economia e a severa renúncia de si próprio formavam parte da educação que os filhos recebiam como seu único legado. Ensinava-se-lhes que Deus determinara fosse a vida uma disciplina e que suas necessidades poderiam ser supridas apenas mediante o trabalho pessoal, previdência, cuidado e fé. O processo era laborioso e fatigante, mas salutar, precisamente o de que o homem necessita em seu estado decaído - escola que Deus proveu para o seu ensino e desenvolvimento. Enquanto os jovens se habituavam ao trabalho e asperezas, a cultura do intelecto não era negligenciada. Ensinava-se-lhes que todas as suas capacidades pertenciam a Deus, e que deveriam todas ser aperfeiçoadas e desenvolvidas para o Seu serviço.
As igrejas valdenses, em sua pureza e simplicidade, assemelhavam-se à igreja dos tempos apostólicos. Rejeitando a supremacia do papa e prelados, mantinham a Escritura Sagrada como a única autoridade suprema, infalível. Seus pastores, diferentes dos altivos sacerdotes de Roma, seguiam o exemplo de seu Mestre que "veio não para ser servido, mas para servir". Alimentavam o rebanho de Deus, guiando-os às verdes pastagens e fontes vivas de Sua santa Palavra. Longe dos monumentos da pompa e orgulho humano, o povo congregava-se, não em igrejas sumptuosas ou grandes catedrais, mas à sombra das montanhas nos vales alpinos, ou, em tempo de perigo, em alguma fortaleza rochosa, a fim de escutar as palavras da verdade proferidas pelos servos de Cristo. Os pastores não somente pregavam o evangelho, mas visitavam os doentes, doutrinavam as crianças, admoestavam aos que erravam e trabalhavam para resolver as questões e promover harmonia e amor fraternal. Em tempos de paz eram sustentados por ofertas voluntárias do povo; mas, como Paulo, o fabricante de tendas, cada qual aprendia um ofício ou profissão, mediante a qual, sendo necessário, proveria o sustento próprio.
De seus pastores recebiam os jovens instrução. Conquanto se desse atenção aos ramos dos conhecimentos gerais, fazia-se da Escritura Sagrada o estudo principal. Os evangelhos de Mateus e João eram confiados à memória, juntamente com muitas das epístolas. Também se ocupavam em copiar as Escrituras. Alguns manuscritos continham a Bíblia toda, outros apenas breves porções, a que algumas simples explicações do texto eram acrescentadas por aqueles que eram capazes de comentar as Escrituras. Assim se apresentavam os tesouros da verdade durante tanto tempo ocultos pelos que procuravam exaltar-se acima de Deus.
Mediante pacientes e incansáveis labores, por vezes nas profundas e escuras cavernas da Terra, à luz de archotes, eram copiadas as Escrituras Sagradas, versículo por versículo, capítulo por capítulo. Assim a obra prosseguia, resplandecendo, qual ouro puro, a vontade revelada de Deus; e quanto mais brilhante, clara e poderosa era por causa das provações que passavam por seu amor, apenas o poderiam compreender os que se achavam empenhados em obra semelhante. Anjos celestiais circundavam os fiéis obreiros.
Satanás incitara sacerdotes e prelados a enterrarem a Palavra da verdade sob a escória do erro, heresia e superstição; mas de modo maravilhosíssimo foi ela conservada incontaminada através de todos os séculos de trevas. Não trazia o cunho do homem, mas a impressão divina. Os homens se têm demonstrado incansáveis em seus esforços para obscurecer o claro e simples sentido das Escrituras, e fazê-las contradizerem seu próprio testemunho; porém, semelhante à arca sobre as profundas águas encapeladas, a Palavra de Deus leva de vencida as borrascas que a ameaçam de destruição. Assim como tem a mina ricos veios de ouro e prata ocultos por sob a superfície, de maneira que todos os que desejam descobrir os preciosos depósitos devem cavar, assim as Sagradas Escrituras têm tesouros de verdade que são revelados unicamente ao ardoroso, humilde e devoto pesquisador. Deus destinara a Bíblia a ser um compêndio para toda a humanidade, na infância, juventude e idade madura, devendo ser estudada através de todos os tempos. Deu Sua Palavra aos homens como revelação de Si mesmo. Cada nova verdade que se divisa é uma nova revelação do caráter de seu Autor. O estudo das Escrituras é o meio divinamente ordenado para levar o homem a mais íntima comunhão com seu Criador e dar-lhe mais claro conhecimento de Sua vontade. É o meio de comunicação entre Deus e o homem.
Conquanto os valdenses considerassem o temor do Senhor como o princípio da sabedoria, não eram cegos no tocante à importância do contacto com o mundo, do conhecimento dos homens e da vida activa, para expandir o espírito e avivar as percepções. De suas escolas nas montanhas alguns dos jovens foram enviados a instituições de ensino nas cidades da França ou Itália, onde havia campo mais vasto para o estudo, pensamento e observação, do que nos Alpes nativos. Os jovens assim enviados estavam expostos à tentação, testemunhavam o vício, defrontavam-se com os astuciosos agentes de Satanás, que lhes queriam impor as mais subtis heresias e os mais perigosos enganos. Mas sua educação desde a meninice fora de molde a prepará-los para tudo isto.
Nas escolas aonde iam, não deveriam fazer confidentes a quem quer que fosse. Suas vestes eram preparadas de maneira a ocultar seu máximo tesouro - os preciosos manuscritos das Escrituras. A estes, fruto de meses e anos de labuta, levavam consigo e, sempre que o podiam fazer sem despertar suspeita, cautelosamente punham uma porção ao alcance daqueles cujo coração parecia aberto para receber a verdade. Desde os joelhos da mãe a juventude valdense havia sido educada com este propósito em vista; compreendiam o trabalho, e fielmente o executavam. Ganhavam-se conversos à verdadeira fé nessas instituições de ensino, e frequentemente se encontravam seus princípios a penetrar a escola toda; contudo os chefes papais não podiam pelo mais minucioso inquérito descobrir a fonte da chamada heresia corruptora.
O espírito de Cristo é espírito missionário. O primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador. Tal foi o espírito dos cristãos valdenses. Compreendiam que Deus exigia mais deles do que simplesmente preservar a verdade em sua pureza, nas suas próprias igrejas; e que sobre eles repousava a solene responsabilidade de deixarem sua luz resplandecer aos que se achavam em trevas. Pelo forte poder da Palavra de Deus procuravam romper o cativeiro que Roma havia imposto.
Os ministros valdenses eram educados como missionários, exigindo-se primeiramente de cada um que tivesse a expectativa de entrar para o ministério, aquisição de experiência como evangelista. Cada um deveria servir três anos em algum campo missionário antes de assumir o encargo de uma igreja em seu país. Este serviço, exigindo logo de começo renúncia e sacrifício, era introdução apropriada à vida pastoral naqueles tempos que punham à prova a alma. Os jovens que recebiam a ordenação para o sagrado mister, viam diante de si, não a perspectiva de riquezas e glória terrestre, mas uma vida de trabalhos e perigo, e possivelmente o destino de mártir. Os missionários iam de dois em dois, como Jesus enviara Seus discípulos. Cada jovem tinha usualmente por companhia um homem de idade e experiência, achando-se aquele sob a orientação do companheiro, que ficava responsável por seu ensino, e a cuja instrução se esperava que seguisse. Estes coobreiros não estavam sempre juntos, mas muitas vezes se reuniam para orar e aconselhar-se, fortalecendo-se assim mutuamente na fé.
Tornar conhecido o objectivo de sua missão seria assegurar a derrota; ocultavam, portanto, cautelosamente seu verdadeiro caráter. Cada ministro possuía conhecimento de algum ofício ou profissão e os missionários prosseguiam na obra sob a aparência de vocação secular. Usualmente escolhiam a de mercador ou vendedor ambulante. "Levavam sedas, jóias e outros artigos, que naquele tempo não se compravam facilmente, a não ser em mercados distantes; e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários." - Wylie. Em todo o tempo seu coração se levantava a Deus rogando sabedoria a fim de apresentar um tesouro mais precioso do que o ouro ou jóias. Levavam secretamente consigo exemplares da Escritura Sagrada, no todo ou em parte; quando quer que se apresentasse oportunidade, chamavam a atenção dos fregueses para os manuscritos. Muitas vezes assim se despertava o interesse de ler a Palavra de Deus, e alguma porção era de bom grado deixada com os que a desejavam receber.
A obra destes missionários começava nas planícies e vales ao pé de suas próprias montanhas, mas estendia-se muito além destes limites. Descalços e com vestes singelas e poentas da jornada como eram as de seu Mestre, passavam por grande cidades e penetravam em longínquas terras. Por toda parte espalhavam a preciosa verdade. Surgiam igrejas em seu caminho e o sangue dos mártires testemunhava da verdade. O dia de Deus revelará rica colheita de almas enceleiradas pelos labores destes homens fiéis. Velada e silenciosa, a Palavra de Deus rompia caminho através da cristandade e tinha alegre acolhida nos lares e corações.
Para os valdenses não eram as Escrituras simplesmente o registo do trato de Deus para com os homens no passado e a revelação das responsabilidades e deveres do presente, mas o desvendar dos perigos e glórias do futuro. Acreditavam que o fim de todas as coisas não estava muito distante; e, estudando a Bíblia com oração e lágrimas, mais profundamente se impressionavam com suas preciosas declarações e com o dever de tornar conhecidas a outros as suas verdades salvadoras. Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em Jesus. Ao iluminar-lhes a luz o entendimento e ao alegrar-lhes ela o coração, anelavam derramar seus raios sobre os que se achavam nas trevas do erro papal.
Viam que sob a direção do papa e sacerdotes, multidões em vão se esforçavam por obter perdão afligindo o corpo por causa do pecado da alma. Ensinados a confiar nas boas obras para se salvarem, estavam sempre a olhar para si mesmos, ocupando a mente com a sua condição pecaminosa, vendo-se expostos à ira de Deus, afligindo alma e corpo, não achando, contudo, alívio. Almas conscienciosas eram, assim, enredadas pelas doutrinas de Roma. Milhares abandonavam amigos e parentes, passando a vida nas celas dos conventos. Por meio de frequentes jejuns e cruéis açoitamentos, por vigílias à meia-noite, prostrando-se durante horas cansativas sobre as lajes frias e húmidas de sua sombria habitação, por longas peregrinações, penitências humilhantes e terrível tortura, milhares procuravam inutilmente obter paz de consciência. Oprimidos por uma intuição de pecado e perseguidos pelo temor da ira vingadora de Deus, muitos continuavam a sofrer até que a natureza exausta se rendia e, sem um resquício de luz ou esperança, baixavam à sepultura.
Os valdenses ansiavam por partir a estas almas famintas o pão da vida, revelar-lhes as mensagens de paz das promessas de Deus e apontar-lhes a Cristo como a única esperança de salvação. Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus. A confiança nos méritos humanos faz perder de vista o amor infinito de Cristo. Jesus morreu como sacrifício pelo homem porque a raça caída nada pode fazer para se recomendar a Deus. Os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido são o fundamento da fé cristã. A dependência da alma para com Cristo é tão real, e sua união com Ele deve ser tão íntima como a do membro para com o corpo, ou da vara para com a videira.
Os ensinos dos papas e sacerdotes haviam levado os homens a considerar o caráter de Deus, e mesmo o de Cristo, como severo, sombrio e repelente. Representava-se o Salvador tão destituído de simpatia para com o homem em seu estado decaído, que devia ser invocada a mediação de sacerdotes e santos. Aqueles cuja mente fora iluminada pela Palavra de Deus, anelavam guiar estas almas a Jesus, como seu compassivo e amante Salvador que permanece de braços estendidos a convidar todos a irem a Ele com seu fardo de pecados, seus cuidados e fadigas. Almejavam remover os obstáculos que Satanás havia acumulado para que os homens não pudessem ver as promessas, e ir diretamente a Deus, confessando os pecados e obtendo perdão e paz.
Ardorosamente desvendava o missionário valdense as preciosas verdades do evangelho ao espírito inquiridor. Citava com precaução as porções cuidadosamente copiadas da Sagrada Escritura. Era a sua máxima alegria infundir esperança à alma conscienciosa, ferida pelo pecado, e que tão-somente podia ver um Deus de vingança, esperando para executar justiça. Com lábios trémulos e olhos lacrimosos, muitas vezes com os joelhos curvados, expunha a seus irmãos as preciosas promessas que revelam a única esperança do pecador. Assim a luz da verdade penetrava muitas almas obscurecidas, fazendo recuar a nuvem sombria até que o Sol da Justiça resplandecesse no coração, trazendo saúde em seus raios. Dava-se amiúde o caso de alguma porção das Escrituras ser lida várias vezes, desejando o ouvinte que fosse repetida, como se quisesse assegurar-se de que tinha ouvido bem. Em especial se desejava, de maneira ávida, a repetição destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado." I João 1:7. "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15.
Muitos não se iludiam em relação às pretensões de Roma. Viam quão vã é a mediação de homens ou anjos em favor do pecador. Raiando-lhes na mente a verdadeira luz, exclamavam com regozijo: "Cristo é meu Sacerdote; Seu sangue é meu sacrifício; Seu altar é meu confessionário." Confiavam-se inteiramente aos méritos de Jesus, repetindo as palavras: "Sem fé é impossível agradar-Lhe." Heb. 11:6. "Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12.
A certeza do amor de um Salvador parecia, a algumas destas pobres almas agitadas pela tempestade, coisa por demais vasta para ser abrangida. Tão grande era o alívio que sentiam, tal a inundação de luz que lhes sobrevinha, que pareciam transportadas ao Céu. Punham confiantemente suas mãos na de Cristo; firmavam os pés sobre a Rocha dos séculos. Bania-se todo o temor da morte. Podiam agora ambicionar a prisão e a fogueira se desse modo honrassem o nome de seu Redentor.
Em lugares ocultos era a Palavra de Deus apresentada e lida, algumas vezes a uma única alma, outras, a um pequeno grupo que anelava a luz e a verdade. Amiúde a noite toda era passada desta maneira. Tão grande era o assombro e admiração dos ouvintes que o mensageiro da misericórdia frequentemente se via obrigado a cessar a leitura até que o entendimento pudesse apreender as boas novas da salvação. Era comum proferirem-se palavras como estas: "Aceitará Deus em verdade a minha oferta? Olhar-me-á benignamente? Perdoar-me-á Ele?" Lia-se a resposta: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mat. 11:28.
A fé se apegava à promessa, ouvia-se a alegre resposta: "Nada mais de longas peregrinações; nada de penosas jornadas aos relicários sagrados. Posso ir a Jesus tal como estou, pecador e ímpio, e Ele não desprezará a oração de arrependimento. 'Perdoados te são os teus pecados.' Os meus pecados, efectivamente os meus, podem ser perdoados!"
Enchia o coração uma onda de sagrada alegria, e o nome de Jesus era engrandecido em louvores e acções de graças. Estas almas felizes voltavam para casa a fim de difundir a luz, repetir a outros, tão bem quanto podiam, a nova experiência, de que acharam o Caminho verdadeiro e vivo. Havia um estranho e solene poder nas palavras das Escrituras, que falava directamente ao coração dos que se achavam anelantes pela verdade. Era a voz de Deus e levava a convicção aos que ouviam.
O mensageiro da verdade continuava o seu caminho; mas seu aspecto de humildade, sua sinceridade, ardor e profundo fervor, eram assuntos de observação frequente. Em muitos casos os ouvintes não lhe perguntavam donde viera ou para onde ia. Ficavam tão dominados, a princípio pela surpresa e depois pela gratidão e alegria, que não pensavam em interrogá-lo. Quando insistiam com ele para os acompanhar a suas casas, respondia-lhes que devia visitar as ovelhas perdidas do rebanho. Não seria ele um anjo do Céu? Indagavam.
Em muitos casos não mais se via o mensageiro da verdade. Seguira para outros países, ou a vida se lhe consumia em algum calabouço desconhecido, ou talvez seus ossos estivessem alvejando no local em que testificara da verdade. Mas as palavras que deixara após si, não poderiam ser destruídas. Estavam a fazer sua obra no coração dos homens; os benditos resultados só no dia do juízo se revelarão plenamente.
Os missionários valdenses estavam invadindo o reino de Satanás, e os poderes das trevas despertaram para maior vigilância. Todo esforço para avanço da verdade era observado pelo príncipe do mal, e ele excitava os temores de seus agentes. Os chefes papais viram grande perigo para a sua causa no trabalho destes humildes itinerantes. Se fosse permitido à luz da verdade resplandecer sem impedimento, varreria as pesadas nuvens de erro que envolviam o povo; haveria de dirigir o espírito dos homens a Deus unicamente, talvez destruindo, afinal, a supremacia de Roma.
A própria existência deste povo, mantendo a fé da antiga igreja, era testemunho constante da apostasia de Roma, e portanto excitava o ódio e perseguição mais atrozes. Sua recusa de renunciar às Escrituras era também ofensa que Roma não podia tolerar. Decidiu-se ela a exterminá-los da Terra. Começaram então as mais terríveis cruzadas contra o povo de Deus em seus lares montesinos. Puseram-se inquisidores em suas pegadas, e a cena do inocente Abel tombando ante o assassino Caim repetia-se frequentemente.
Reiteradas vezes foram devastadas as suas férteis terras, destruídas as habitações e capelas, de maneira que onde houvera campos florescentes e lares de um povo simples e laborioso, restava apenas um deserto. Assim como o animal de rapina se torna mais feroz provando sangue, a ira dos sectários do papa acendia-se com maior intensidade com o sofrimento de suas vítimas. Muitas destas testemunhas da fé pura foram perseguidas através das montanhas e caçadas nos vales em que se achavam escondidas, encerradas por enormes florestas e cumes rochosos.
Nenhuma acusação se poderia fazer contra o carácter moral da classe proscrita. Mesmo seus inimigos declaravam serem eles um povo pacífico, sossegado e piedoso. Seu grande crime era não quererem adorar a Deus segundo a vontade do papa.
Por tal crime, toda humilhação, insulto e tortura que homens ou diabos podiam inventar, amontoaram-se sobre eles.
Determinando-se Roma a exterminar a odiada seita, uma bula foi promulgada pelo papa, condenando-os como hereges e entregando-os ao morticínio. Não eram acusados como ociosos, desonestos ou desordeiros; mas declarava-se que tinham uma aparência de piedade e santidade que seduzia "as ovelhas do verdadeiro aprisco". Portanto ordenava o papa que "aquela maligna e abominável seita de perversos", caso se recusasse a renunciar, "fosse esmagada como serpentes venenosas". - Wylie. Esperava o altivo potentado ter de responder por estas palavras? Sabia que estavam registradas nos livros do Céu, para lhe serem apresentadas no juízo? "Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos", disse Jesus, "a Mim o fizestes." Mat. 25:40.
Essa bula convocava a todos os membros da igreja para se unirem à cruzada contra os hereges. Como incentivo para se empenharem na obra cruel, "absolvia de todas as penas e castigos eclesiásticos, gerais e particulares; desobrigava a todos os que se unissem à cruzada, de qualquer juramento que pudessem ter feito; legitimava-lhes o direito a qualquer propriedade que pudessem ter ilegalmente adquirido; e prometia remissão de todos os pecados aos que matassem algum herege. Anulava todos os contratos feitos em favor dos valdenses, ordenava que seus criados os abandonassem, proibia a toda pessoa dar-lhes qualquer auxílio que fosse e a todos permitia tomar posse de sua propriedade". - Wylie. Este documento revela claramente o espírito que o ditou. É o bramido do dragão, e não a voz de Cristo, que nele se ouve.
Os dirigentes papais não queriam conformar seu caráter com a grande norma da lei de Deus, mas erigiram uma norma que lhes fosse conveniente, e decidiram obrigar todos a se conformarem com a mesma porque Roma assim o desejava. As mais horríveis tragédias foram encenadas. Sacerdotes e papas corruptos e blasfemos estavam a fazer a obra que Satanás lhes designava. A misericórdia não encontrava guarida em sua natureza. O mesmo espírito que crucificou Cristo e matou os apóstolos, o mesmo que impulsionou o sanguinário Nero contra os fiéis de seu tempo, estava em operação a fim de exterminar da Terra os que eram amados de Deus.
As perseguições desencadeadas durante muitos séculos sobre este povo temente a Deus, foram por ele suportadas com uma paciência e constância que honravam seu Redentor. Apesar das cruzadas contra eles e da desumana carnificina a que foram sujeitos, continuavam a mandar seus missionários a espalhar a preciosa verdade. Eram perseguidos até à morte; contudo, seu sangue regava a semente lançada, e esta não deixou de produzir fruto. Assim os valdenses testemunharam de Deus, séculos antes do nascimento de Lutero. Dispersos em muitos países, plantaram a semente da Reforma que se iniciou no tempo de Wycliffe, cresceu larga e profundamente nos dias de Lutero, e deve ser levada avante até ao final do tempo por aqueles que também estão dispostos a sofrer todas as coisas pela "Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo". Apoc. 1:9.

MENSAGEM PARA O TEMPO DO FIM

Para cada período da História, Deus tem uma mensagem específica. Essa mensagem é denominada “verdade presente” Exemplo disso é a pregação de Noé, que conclamou o mundo antediluviano ao arrependimento e anunciou a destruição por meio do dilúvio (Gn 6 e 7).
No Novo Testamento, encontramos outro exemplo em que a mensagem presente consistia em aceitar Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Embora essa pregação cristocêntrica permeie a Bíblia em todos os tempos, naquela época, os apóstolos tinham o desafio de levar as pessoas a aceitar o Carpinteiro judeu como o prometido Messias do Antigo Testamento (At 2:22-36; 4:11,12; 5:30,31).
Avançando na História, encontramos no século dezesseis o movimento da Reforma Protestante com a mensagem de que a Bíblia é a única regra de fé (Sola Scriptura) e de que a fé nos méritos de Cristo é o único meio pelo qual alguém pode ser aceito e salvo por Deus (Sola Fide). Tais aspectos da mensagem eram apropriados ao contexto em que os reformadores viviam, pois o papado havia exaltado a tradição em lugar do ‘Assim diz o Senhor” e a salvação pelas obras em lugar da justiça de Cristo.
Tempo do fim.
Qual é a mensagem de Deus para nosso tempo? Para entendermos isso, precisamos identificar o período da História em que vivemos. No capítulo 12 do livro de Daniel, Deus revela ao profeta que o entendimento do seu livro só ocorreria no “tempo do fim” (v. 9). Esse tempo chegaria após o período profetizado “de um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 7), o que equivale a 1260 anos (538 d.C – 1798 d.C), nos quais o Romanismo mudaria o Decálogo, perseguiria os fiéis de Deus e lançaria a verdade por terra (Dn 7:25; 8:12; Ap 12:6,13,14; 13:5,6).
Portanto, em 1798, começou o ”tempo do fim” um período singular em que as principais profecias de Daniel se cumpririam (Dn 8:14; 12:11, 12), haveria um crescente avanço do conhecimento profético e também científico (Dn 12:4) e a História registraria importantes sinais preditos nos evangelhos e no livro do Apocalipse (Mt 24:29; Mc 13:24,25; Lc 21:11,25; Ap 6:12-14). (2)
Para esse tempo, Deus tem uma advertência de especial importância para os habitantes da Terra. É o último aviso de misericórdia a este mundo mergulhado nas trevas do pecado. Encontramos essa mensagem em Apocalipse 14:6-12 – a tríplice mensagem angélica. Essa tríplice mensagem antecede a cena da segunda vinda de Cristo – o Cavaleiro que vem para ceifar a seara da Terra (versos 14-16). Portanto, é uma advertência que deve ser comunicada no tempo do fim, uma solene mensagem que visa a preparar um povo para o encontro com o Rei que Se aproxima. O verso 13, que está entre a tríplice mensagem e os textos da Segunda Vinda, pronuncia uma bênção sobre aqueles que morrem no período em que essas mensagens são pregadas e crêem nelas: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”(3)
A pessoa de Cristo e Sua obra salvadora constituem o tema catalisador dessa tríplice mensagem. Nela, o ”evangelho eterno” as boas novas da justiça e da salvação em Cristo são o tema central e predominante, como demonstrado na introdução da passagem (v. 6).(4)
O primeiro anjo proclama o juízo de Deus (v. 7), o qual começou sua primeira fase em 22 de outubro de 1844. Nessa data, terminou o grande período profético dos 2300 anos de Daniel 8:14, e começou a purificação do santuário celestial, a qual corresponde ao mesmo julgamento visto pelo profeta no (capítulo 7:9-10) (5).
Nessa nova fase de Seu ministério, Cristo não só intercede pela humanidade, como já vinha fazendo, mas atua no juízo em defesa de Seu povo, que está sendo julgado conforme os registros celestiais (Dn 7:10). Para essa fase do julgamento, usam-se os termos juízo pré-advento ou juízo investigativo, pois ocorre no 
período que antecede a segunda vinda de Cristo e no qual os filhos de Deus são julgados/examinados pelo padrão da lei divina que deve ser obedecida como fruto da fé em Cristo.(6) Diante da iminência do julgamento, o anjo conclama a humanidade a temer a Deus, glorificá-Lo e adorá-Lo.
O segundo anjo anuncia a queda de Babilônia (v. 8), o falso sistema religioso dos últimos dias. A queda é conseqüência de o sistema estar fundamentado no erro, por ter rejeitado a verdade bíblica e defender doutrinas espúrias, como: imortalidade da alma, santidade do domingo, salvação pelas obras, etc. Quem não aceitar as palavras de Cristo e não as praticar, experimentará a ruína (Mt 7:26, 27), e quem “ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (2 Jo 9). Assim, a mensagem do segundo anjo é um convite para que saiam de Babilônia todos os que foram enganados por suas falsas doutrinas (Ap 18:1-5) e aceitem a verdade conforme revelada em Cristo.
O terceiro anjo acompanha as outras mensagens com uma advertência contra a adoração à besta e ao recebimento da sua marca (Ap 14:9-11). Essa mensagem demonstra que o conflito final girará em torno da lealdade a Deus por meio da guarda dos Seus mandamentos ou à obediência a preceitos humanos. (7) Uma corporação de Igreja/Estado, nos últimos dias (Ap 13:11, 12), obrigará a humanidade a observar como dia de guarda um falso dia de adoração (Ap 13:16,17) em lugar do dia estipulado por Deus em Sua lei (Êx 20:8-11). Os que aceitarem esse falso dia serão atingidos pelas sete últimas pragas que serão derramadas “sem mistura” de misericórdia (Ap 14:9, 10; 15:1; 16). Em contraste, haverá o grupo daqueles que permanecerão fiéis a Deus mesmo diante das mais terríveis ameaças e que foram classificados como santos por guardarem “os mandamentos de Deus” como fruto de sua “fé em Jesus” (Ap 14:12).
Mensagem específica.
Justamente nesse tempo, o tempo do fim, no qual a tríplice mensagem deve ser proclamada, Deus suscita um povo para cumprir essa solene missão. Esse povo é identificado como aqueles “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Essa última característica – “o testemunho de Jesus” – é definida como a manifesta-ção do dom de profecia (Ap 19:10). A Igreja Adventista do Sétimo Dia se enquadra nessa classificação, pois surge no período do tempo do fim (1844) como resultado dos estudos e do cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse, exaltando a obediência à Lei de Deus, especificamente a validade do sábado, e testemunhando, em seu meio, a manifestação do verdadeiro dom de profecia na pessoa de Eilen G. White.
Desse modo, há um povo que prega uma mensagem específica no tempo determinado pela profecia. Esse povo foi levantado para restaurar as verdades que foram lançadas por terra durante o período de supremacia papal, reparar as “brechas” feitas na lei de Deus, edificando, assim, “as antigas ruínas” (Is 58:12). Nossa responsabilidade é levar ao mundo uma mensagem singular, preparando “a seara da Terra” para a vinda do Filho do homem. “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. [..,] Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção. As mais solenes verdades já confiadas a mortais nos foram dadas, para as proclamarmos ao mundo. A proclamação dessas verdades deve ser nossa obra. O mundo precisa ser advertido, e o povo de Deus deve ser fiel ao legado que se lhe confiou”(9) Tal responsabilidade deve incutir em nós um senso de missão jamais visto em outro povo. Precisamos nos unir e concentrar as nossas forças nessa direção
Mas não podemos nos esquecer de que só cumpriremos essa missão com a ajuda do Espírito Santo. Em Apocalipse 18:1, a Terra é vista sendo iluminada pela glória celestial, e essa glória é a manifestação poderosa do Espírito Santo no tempo do fim, derramando Seu poder sobre a igreja como “chuva serôdia!(10) Esse poder capacitará a igreja para dar, “com potente voz” (verso 2), o último convite ao mundo, antes do fechamento da porta da graça (versos 2-5). Os adventistas do sétimo dia precisam ter como prioridade a busca desse poder a fim de continuar pregando “aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (verso 6) o evangelho eterno, no contexto da tríplice mensagem angélica. Cada pessoa que conheceu a verdade para o tempo presente e se une às fileiras do adventismo, é chamada a proclamar “as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9). Portanto, cumpramos nossa missão!
Referências1. MervinC Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 129,130.
2. Ibid.,p.318,319.
3. Alberto R. Timm, 0 Santuário e as três mensagens angélicas: fatores íntegrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002) p. 232.
4. Lição da Escola Sabatina, “O Último Convite: a mensagem dos três anjos”, outubro-dezembro,1994, p 17.
5. Clifford Goldstein, 1844: Uma explicacâo simples das principais profecias de Daniel – Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 45-48.
6. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 482.
7. Ellen G. White, Eventos Finais, p. 193.
8. Maxwell, 0p.Cit.,p. 422,423.
9. Ellen G. White, Evangelismo, p. 119,120.
10. Ellen G. White, O Grande Conflito pág 611, 612.
Texto de autoria de Ezinaldo Ubirajara Pereira, capelão do Hospital Adventista de Belém, Pará, publicado na Revista Adventista de Agosto/2008.
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15 de set. de 2018

ADVENTISMO COM AS VESTES RASGADAS

Jesus volta quando? Os pioneiros adventistas estavam ansiosos pela resposta dessa pergunta. Haviam saído de uma forte experiência proporcionada pelo movimento milerita, experiência baseada na proximidade da volta de Jesus. Se o milerismo sabia tocar uma nota só, ao menos tocou-a com a excelência de uma sinfonia. Dissolvido o movimento, restava a expectativa despertada por ele.
Em cerca de seis anos, os pioneiros estudaram avidamente a Bíblia e se depararam com o sistema integrador da Verdade bíblica: o tema do santuário. Com a expectativa do retorno de Jesus, surgiu uma outra urgência: pregar a mensagem de advertência a um mundo impenitente. Ao mesmo tempo, a coerência exigia que, pregando a outros, eles mesmos não fossem reprovados (1 Co 9:27). Logo, os adventistas começaram a inquirir acerca do preparo necessário para se encontrarem com o Salvador.
Por mais que a ênfase quanto ao tempo (marcação de datas) fosse uma herança milerita do passado, a preocupação com a proximidade do retorno de Jesus permaneceu, com um sentido novo. Não se enfatizava mais a exatidão do quando, mas se entendia que a culminância da missão (pregação da última mensagem ao mundo) deveria coincidir com o fator coerência (estar preparado em nível pessoal), servindo esse binômio como uma forma antecipada de experimentar o quando – o pregando e se preparando, Jesus voltaria mais cedo.
Em meio à revolução digital e o despertar do imediatismo na era dos comunicadores instantâneos e mídias sociais, estamos mantendo a mesma questão suspensa, como a aguardar sua resposta com o coração apertado? Ainda queremos saber sobre a volta de Jesus? A melhor resposta consiste em verificar quanto tempo gastamos pregando o evangelho e nos preparando pessoalmente para o encontro com Jesus.
Que o Espírito do Senhor encontre em nós um coração cheio da esperança bíblica! Temos de rasgar nossas vestes e abrir de nosso orgulho, dos preconceitos e de uma vida religiosa meramente focada em exterioridades. A Palavra precisa ser uma influência não somente no aspecto devocional/motivacional; precisamos deixar que seus preceitos removam o que nos impede verdadeiramente de servir a Deus. Sem reavivamento e reforma, dizer que esperamos Jesus seria mero cinismo ou ilusão auto impingida…
Afinal, quando Jesus volta? Volta logo, Senhor Jesus!

13 de set. de 2018

A obra do selamento já começou?

Já vimos que o anjo selador é o terceiro anjo (Ap 14:9-13). Logo, a obra do selamento teve início
quando o anjo começou a sua obra. Foi em 1844, quando foi revelada a verdade do Sábado.
" ‘Foi-Lhe [a Deus] muito agradável quando Sua Lei começou a crescer em força. Essa verdade
surge e está em crescimento cada vez mais forte. Ela é o selo! Está chegando! Surge, vindo da
banda do sol nascente; como o Sol, a princípio frio, se torna mais quente e envia seus raios. Quando
essa verdade surgiu, havia apenas um pouco de luz nela, mas esta tem aumentado. Oh, que poder
têm esses raios!’ " —Questions on the Sealing Message, págs. 15 e 16.
Embora esta obra tenha começado em 1844, não era plenamente compreendida nesse tempo. À
irmã White foi dada uma visão da obra do assinalamento:
"Numa reunião efetuada em Dorchester, Massachusetts, em novembro de 1848, foi-me concedida
uma visão da proclamação da mensagem do assinalamento, e do dever que incumbia aos irmãos de
publicarem a luz que resplandecia em nosso caminho.
"Depois da visão eu disse ao meu esposo: ‘Tenho uma mensagem para ti. Deves começar a publicar
um pequeno jornal e mandá-lo ao povo. Seja pequeno a princípio. Mas, lendo-o o povo, mandar-te-
ão meios com que imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde este pequeno começo
foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo.’ " —Vida e Ensinos,
pág. 128.
"Com o início desta obra de publicação, não cessamos nossos labores de pregar a verdade, mas
viajamos de um lugar para outro, proclamando as doutrinas que nos haviam trazido tão grande luz e
alegria, animando os crentes, corrigindo erros e pondo as coisas em ordem na Igreja." —Vida e
Ensinos, pág. 130.
Pelos escritos citados podemos ver que o assunto do selamento foi a primeira doutrina publicada em
A Verdade Presente (este era o nome do periódico) no primeiro número, na primeira página.
Portanto, os primeiros Adventistas compreenderam que a obra do selamento começou no início da
mensagem do terceiro anjo.
Em 1849 outra visão, que aqui citamos, foi dada à irmã White sobre a abertura e o fechamento da
porta:
"Vi que a presente prova do Sábado não poderia vir até que a mediação de Jesus no lugar santo
terminasse e Ele passasse para dentro do segundo véu. Portanto, os cristãos que dormiram antes
que a porta fosse aberta no santíssimo, quando terminou o clamor da meia-noite no sétimo mês, em
1844, e que não haviam guardado o verdadeiro Sábado, agora repousam em esperança, pois não
tiveram a luz e o teste sobre o Sábado que nós agora temos, uma vez que a porta foi aberta. Vi que
Satanás estava tentando alguns do povo de Deus neste ponto. Sendo que grande número de bons
cristãos adormeceram nos triunfos da fé e não guardaram o verdadeiro Sábado, eles estavam em
dúvida quanto a ser isto um teste para nós agora. ...
"Satanás está agora usando cada artifício neste tempo de selamento a fim de desviar a mente do
povo de Deus da verdade presente e levá-los a vacilar. Vi que Deus estava estendendo uma
cobertura sobre o Seu povo a fim de protegê-lo no tempo de angústia; e que cada alma que se
decidia pela verdade e era pura de coração devia ser coberta com a proteção do Todo-Poderoso.
"Satanás sabia disto e estava trabalhando com afinco para conservar vacilante e instável na verdade
a mente do maior número possível de pessoas. ...
"Satanás estava procurando lançar mão de todas as suas artes a fim de mantê-los onde estavam
até que a cobertura fosse estendida sobre o povo de Deus, e eles [os que não estavam firmes ao
lado da verdade presente] fossem deixados sem um abrigo da ardente ira de Deus, nas sete últimas
pragas." —Primeiros Escritos, pág. 42 e 43.
"Deus está começando a estender a cobertura sobre Seu povo, e ela logo será estendida sobre todos
os que devem ter um abrigo no dia da matança." —Primeiros Escritos, pág. 44.
A cobertura (selo) de Deus foi estendida sobre Seu povo ou, em outras palavras, o selo do Deus
vivo estava sendo colocado em suas frontes. Os que não foram selados estavam sujeitos às sete
últimas pragas. A profetisa disse que naquele tempo (1849) o selamento já estava em
prosseguimento.
"Nossa posição parece muito clara. Sabemos que temos a verdade, o clamor da meia-noite ficou
atrás; a porta se fechou em 1844 e Jesus em breve sairá da mediação entre Deus e o homem. O
selamento estará realizado, encerrado. Oh, conservemos toda a armadura de Deus a fim de
estarmos prontos para a batalha a qualquer momento. Teremos de lutar agora por polegada após
polegada de terreno. —Carta 5, 1849, págs. 5 e 6. Manuscript Releases, vol. 5, pág. 200.
"O tempo do selamento é muito curto, e logo passará. Agora, enquanto os quatro anjos estão
contendo os ventos, é o tempo de fazer firme a nossa vocação e eleição." —Primeiros Escritos, pág.
58.
"Vi que Satanás operaria mais poderosamente agora do que nunca dantes. Ele sabe que seu tempo
é curto e que o assinalamento dos santos os colocará além de seu alcance. Ele agora opera de toda
maneira que lhe seja possível, e experimentará toda a sua insinuação para fazer que os santos não
estejam em guarda, e fazê-los adormecer sobre a verdade presente ou dela duvidar, para os
impedir de ser assinalados com o selo do Deus vivo." —Ms 7, 1850, págs. 2 e 3. Manuscript
Releases, vol. 8, pág. 220.
Em vez de declarar que o selamento logo começaria, a profetisa claramente afirmou que logo
terminaria.
"Quando Jesus deixa o santuário, então o que é santo e justo será santo e justo ainda, pois todos os
seus pecados estarão então apagados, e eles serão selados com o selo do Deus vivo. Mas os que
são injustos e sujos serão ainda injustos e sujos, pois então não haverá Sacerdote no santuário para
apresentar os sacrifícios, confissões e orações deles diante do trono do Pai. Portanto, o que se faz
para resgatar almas da ira vindoura deve ser feito antes que Jesus deixe o Lugar Santíssimo do
Santuário Celestial." —The Present Truth, vol. 1, no 4.
Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia acreditavam e ensinavam que desde 1844 se
estava cumprindo a primeira parte do capítulo sete de Apocalipse, como o citamos:
"Após o desapontamento de 1844 o povo de Deus viu a luz sobre a questão do santuário no Céu.
Então viram a obrigatoriedade do quarto mandamento, bem como dos outros nove mandamentos do
Decálogo. A reforma do Sábado começou naquele tempo. Em 1848 começou a ser reconhecida como
o cumprimento de Apocalipse 7:1-4." —S. N. Haskell, Manual da Bíblia (edição de 1996), pág. 124.
"O selo de Apocalipse 7:1-4 é o mesmo que o nome do Pai, de Apocalipse 14:1. Selo e sinal são às
vezes sinônimos (Rm 4:11). O sinal entre Deus e Seu povo é o Sábado (Êx 31:13-17; Ez 20:12 e
20). O atributo do poder criador distingue o verdadeiro Deus de todos os outros deuses, e esse
atributo se encontra somente no mandamento do Sábado. Portanto, esse mandamento, e somente
esse, contém o título ou nome que realmente sela o Decálogo como a Lei de Deus. Por isso o
Sábado se torna o selo da Lei de Deus e um sinal entre Ele e Seus verdadeiros filhos. A mensagem
do selamento de Apocalipse 7:1-8 é, portanto, apenas a profecia da reforma do Sábado nos últimos
dias." —O. A. Johnson, Bible Text-book, pág. 172.
"Caros irmãos espalhados pelo exterior: chegamos a um tempo em que podemos confiadamente
tomar nossa posição como a que está expressa no título que demos a estas linhas; que a
providência de Deus nos trouxe a um lugar onde a mensagem ou a obra do anjo que ascendia (Ap
7:2) deve cumprir-se.
"Sem passarmos a uma exposição dessa profecia, apresentemos alguns de seus principais aspectos
inquestionáveis:
"1. Os ventos denotam contendas políticas e comoções entre as nações.
"2. Os quatro anjos nos quatro cantos da Terra, retendo esses ventos, são quatro mensageiros
divinos a cujo cargo Deus confiou os negócios das nações, e cujo território é tanto para restringir os
ventos da contenda quando a obra de Deus o requerer, como também para fazer os ventos soprar e
levantar a grande tormenta dos confins da Terra (Jr 25:32), quando a Igreja de Deus estiver
preparada e as nações amadurecidas para essa comoção final.
"3. O anjo do verso 2, subindo da banda do Oriente com o selo do Deus vivo, é idêntico ao terceiro
anjo de Apocalipse 14:9-12.
"4. Seu clamor aos quatro anjos para que não destruíssem a Terra etc., isto é, para reterem o
soprar dos ventos até se completar o selamento dos servos de Deus, mostra de modo conclusivo
que está começando a surgir certa operação de conflito, guerra e comoção, que interfere na obra do
selamento e que, no conselho de Deus, tem de ser restringida até que a obra se complete.
"5. Como o anjo de Apocalipse 14:9 simboliza uma obra da parte da Igreja, assim o clamor deste
anjo denota forçosamente uma fervorosa petição do povo de Deus pela restrição de algum conflito
nacional ou político que esteja começando a interferir em sua obra." —Seventh-Day Adventists in
Time of War, págs. 70 e 71.
A primeira visão de E. G. White foi reimpressa na publicação intitulada To the Little Remmant
Scattered Abroad, de 6 de abril de 1846. Diz o parágrafo 6:
"Bem, prezados irmãos e irmãs, bendito seja o Senhor, trata-se de uma reunião especial para os
que têm o selo do Deus vivo."
No artigo original publicado no The Day Star foi escrito o seguinte:
"E quando estávamos para entrar no santo templo, Jesus levantou Sua bela voz, e disse: ‘Somente
os 144 mil entram neste lugar.’ E nós exclamamos: ‘Aleluia!’ Bendito seja o Senhor, irmão
Jacobs, trata-se de uma reunião extraordinária para os que têm o selo do Deus vivo. Esse
templo era apoiado em sete colunas, todas de ouro transparente, cravejado das pérolas mais
reluzentes." —The Day Star, 24 de janeiro de 1846. (A frase omitida de Testimonies, vol. 1, pág. 69,
e Primeiros Escritos, pág. 19, está em negrito.)
É desconhecida a razão de esta frase ter sido omitida quando o artigo foi publicado em Testimonies,
vol. 1, pág. 69, mas com referência a essa supressão a irmã White declara o seguinte:
"Não há nisto nada que não sustentemos ainda. Referências a nossas obras publicadas mostrarão
nossa crença de que os vivos justos receberão o selo de Deus antes do fim da graça; também que
eles fruirão honras especiais no reino de Deus." —Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 66 (1883).
Esta explicação dada pela própria irmã White confirma que muitos irmãos tinham recebido o selo do
Deus vivo na testa desde o início da mensagem do terceiro anjo, e que em 1883 o povo do advento
ainda estava crendo nesta verdade.
Em outro testemunho ela declara:
"Os que têm na testa o selo do infinito Deus considerarão o mundo e suas atrações subordinados
aos interesses eternos." —Review and Herald, 13 de julho de 1897.
Ainda outra interessante declaração é a seguinte:
"Vivem em nossa Terra pessoas que passaram dos noventa anos de idade. Vêem-se em sua
debilidade os resultados naturais da idade avançada. Mas eles crêem em Deus, e Deus os ama. O
selo de Deus está sobre eles. Farão parte do número dos quais o Senhor disse: ‘Bem-
aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.’ " —The SDA Bible Commentary [E. G.
White Comments], vol. 7, pág. 982 (1899).
"Uma irmã sueca disse: ‘Fiquei verdadeiramente renovada desde que cheguei aqui. Sinto-me forte
na fé. Jesus possibilitou a minha vinda, dando-me paz e amor. Quero ser uma humilde seguidora de
Cristo. Quero ter o selo de Deus na minha fronte.’ " —Review and Herald, 18 de maio de 1876.
fonte: o selamento do povo de Deus

UM POVO QUE DIFUNDE LUZ

Por entre as trevas que baixaram à Terra durante o longo período da supremacia papal, a luz da verdade não poderia ficar inteiramente extinta. Em cada época houve testemunhas de Deus - homens que acalentavam fé em Cristo como único mediador entre Deus e o homem, que mantinham a Escritura Sagrada como a única regra de vida, e santificavam o verdadeiro sábado. Quanto o mundo deve a estes homens, a posteridade jamais saberá. Foram estigmatizados como hereges, impugnados os seus motivos, criticado o seu carácter, e suprimidos, difamados ou mutilados os seus escritos. No entanto, permaneceram firmes, e de século em século mantiveram a fé em sua pureza como sagrado legado às gerações vindouras.
A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma, está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registos humanos. Poucos traços de sua existência se podem encontrar, a não ser nas acusações de seus perseguidores. Foi tática de Roma obliterar todo vestígio de dissidência de suas doutrinas ou decretos. Tudo que fosse herético, quer pessoas quer escritos, procurava ela destruir. Expressões de dúvida ou questões quanto à autoridade dos dogmas papais eram suficientes para tirar a vida do rico ou pobre, elevado ou humilde. Roma se esforçava também por destruir todo registo de sua crueldade para com os que discordavam dela. Os concílios papais decretavam que livros ou escritos contendo relatos desta
natureza deviam ser lançados às chamas. Antes da invenção da imprensa, os livros eram pouco numerosos, e de forma desfavorável à preservação; portanto, pouco havia a impedir que os romanistas levassem a efeito o seu desígnio.
Nenhuma igreja dentro dos limites da jurisdição romana ficou muito tempo sem ser perturbada no gozo da liberdade de consciência. Mal o papado obtivera poder, estendeu os braços para esmagar a todos os que se recusassem a reconhecer-lhe o domínio; e, uma após outra, submeteram-se as igrejas ao seu governo.
Na Grã-Bretanha o primitivo cristianismo muito cedo deitou raízes. O evangelho, recebido pelos bretões nos primeiros séculos, não se achava então corrompido pela apostasia romana. A perseguição dos imperadores pagãos, que se estendeu mesmo até àquelas praias distantes, foi a única dádiva que a primeira igreja da Bretanha recebeu de Roma. Muitos dos cristãos, fugindo da perseguição na Inglaterra, encontraram refúgio na Escócia; daí a verdade foi levada à Irlanda, sendo em todos estes países recebida com alegria.
Quando os saxões invadiram a Bretanha, o paganismo conseguiu predomínio. Os conquistadores desdenharam ser instruídos por seus escravos, e os cristãos foram obrigados a retirar-se para as montanhas e os pântanos. Não obstante, a luz por algum tempo oculta continuou a arder. Na Escócia, um século mais tarde, brilhou ela com um fulgor que se estendeu a mui longínquas terras. Da Irlanda vieram o piedoso 
Columba e seus colaboradores, os quais, reunindo em torno de si os crentes dispersos da solitária ilha de Iona, fizeram desta o centro de seus trabalhos missionários. Entre estes evangelistas encontrava-se um observador do sábado bíblico, e assim esta verdade foi introduzida entre o povo. Estabeleceu-se uma escola em Iona, da qual saíram missionários, não somente para a Escócia e Inglaterra, mas para a Alemanha, Suíça e mesmo para a Itália.
Roma, porém, fixara os olhos na Bretanha e resolvera pô-la sob sua supremacia. No século VI seus missionários empreenderam a conversão dos pagãos saxões. Foram recebidos com favor pelos orgulhosos bárbaros, e induziram muitos milhares a professar a fé romana. O trabalho progredia e os dirigentes papais e seus conversos encontraram os cristãos primitivos. Eloquente contraste se apresentou. Os últimos eram simples, humildes e de carácter, doutrina e maneiras segundo as Escrituras, ao passo que os primeiros manifestavam a superstição, a pompa e a arrogância do papado. O emissário de Roma exigiu que estas igrejas cristãs reconhecessem a supremacia do soberano pontífice. Os bretões mansamente replicaram que desejavam amar a todos os homens, mas que o papa não tinha direito à supremacia na igreja, e que eles poderiam prestar-lhe somente a submissão devida a todo seguidor de Cristo. Repetidas tentativas foram feitas para se conseguir sua adesão a Roma; mas esses humildes cristãos, espantados com o orgulho ostentado por seus emissários, firmemente replicavam que não conheciam outro mestre senão a Cristo. Revelou-se, então, o verdadeiro espírito do papado. Disse o chefe romano: "Se não receberdes irmãos que vos trazem paz, recebereis inimigos que vos trarão guerra. Se vos não unirdes connosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, recebereis deles o golpe de morte." - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Não era isto simples ameaça. Guerra, intriga e engano foram empregados contra as testemunhas de uma fé bíblica, até que as igrejas da Bretanha foram destruídas ou obrigadas a submeter-se à autoridade do papa.
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiram por muitos séculos corporações de cristãos que permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afectados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades. Estes cristãos acreditavam na perpetuidade da lei de Deus e observavam o sábado do quarto mandamento. Igrejas que se mantinham nesta fé e prática, existiram na África Central e entre os arménios, na Ásia.
Mas dentre os que resistiram ao cerco cada vez mais apertado do poder papal, os valdenses ocuparam posição preeminente. A falsidade e corrupção papal encontraram a mais decidida resistência na própria terra em que o papa fixara a sede. Durante séculos as igrejas do Piemonte mantiveram-se independentes; mas afinal chegou o tempo em que Roma insistiu em submetê-las. Depois de lutas inúteis contra a tirania, os dirigentes destas igrejas reconheceram relutantemente a supremacia do poder a que o mundo todo parecia render homenagem. Alguns houve, entretanto, que se recusaram a ceder à autoridade do papa ou do prelado. Estavam decididos a manter sua fidelidade a Deus, e preservar a pureza e simplicidade de fé. Houve separação. Os que se apegaram à antiga fé, retiraram-se; alguns, abandonando os Alpes nativos, alçaram a bandeira da verdade em terras estrangeiras; outros se retraíram para os vales afastados e fortalezas das montanhas, e ali preservaram a liberdade de culto a Deus.
A fé que durante muitos séculos fora mantida e ensinada pelos cristãos valdenses, estava em assinalado contraste com as falsas doutrinas que Roma apresentava. A sua crença religiosa baseava-se na Palavra escrita de Deus - o verdadeiro documento religioso do cristianismo. Mas aqueles humildes camponeses, em seu obscuro retiro, excluídos do mundo e presos à labuta diária entre seus rebanhos e vinhedos, não teriam por si sós chegados à verdade em oposição aos dogmas e heresias da igreja apóstata. A fé que professavam não era nova. Sua crença religiosa era a herança de seus pais. Lutavam pela fé da igreja apostólica - a "fé que uma vez foi dada aos santos". Jud. 3. "A igreja no deserto" e não a orgulhosa hierarquia entronizada na grande capital do mundo, era a verdadeira igreja de Cristo, a depositária dos tesouros da verdade que Deus confiara a Seu povo para ser dada ao mundo.
Entre as principais causas que levaram a igreja verdadeira a separar-se da de Roma, estava o ódio desta ao sábado bíblico. Conforme fora predito pela profecia, o poder papal lançou a verdade por terra. A lei de Deus foi lançada ao pó, enquanto se exaltavam as tradições e costumes dos homens. As igrejas que estavam sob o governo do papado, foram logo compelidas a honrar o domingo como dia santo. No meio do erro e superstição que prevaleciam, muitos, mesmo dentre o verdadeiro povo de Deus, ficaram tão desorientados que ao mesmo tempo em que observavam o sábado, afastavam-se do trabalho também no domingo. Isso, porém, não satisfazia aos chefes papais. Exigiam não somente que fosse santificado o domingo, mas que o sábado fosse profanado; e com a mais violenta linguagem denunciavam os que ousavam honrá-lo. Era unicamente fugindo ao poder de Roma que alguém poderia em paz obedecer à lei de Deus.
Os valdenses foram os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição. Declaravam ser a Igreja de Roma a Babilónia apóstata do Apocalipse, e com perigo de vida erguiam-se para resistir a suas corrupções. Opressos pela prolongada perseguição, alguns comprometeram sua fé, cedendo pouco a pouco em seus princípios distintivos, enquanto outros sustentavam firme a verdade. Durante séculos de trevas e apostasia, houve alguns dentre os valdenses que negavam a supremacia de Roma, rejeitavam o culto às imagens como idolatria e guardavam o verdadeiro sábado. Sob as mais atrozes tempestades da oposição conservaram a fé. Perseguidos embora pela espada dos saboianos (França) e queimados pela fogueira romana, mantiveram-se sem hesitação ao lado da Palavra de Deus e de Sua honra.
Por trás dos elevados baluartes das montanhas - em todos os tempos refúgio dos perseguidos e oprimidos - os valdenses encontraram esconderijo. Ali, conservou-se a luz da verdade a arder por entre as trevas da Idade Média. Ali, durante mil anos, testemunhas da verdade mantiveram a antiga fé.
Deus providenciara para Seu povo um santuário de majestosa grandeza, de acordo com as extraordinárias verdades confiadas à sua guarda. Para os fiéis exilados, eram as montanhas um emblema da imutável justiça de Jeová. Apontavam eles a seus filhos as alturas sobranceiras, em sua imutável majestade, e falavam-lhes d´Aquele em quem não há mudança nem sombra de variação, cuja Palavra é tão perdurável como os montes eternos. Deus estabelecera firmemente as montanhas e as cingira de fortaleza; braço algum, a não ser o do Poder infinito, poderia movê-las do lugar. De igual maneira estabelecera Ele a Sua lei - fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. O braço do homem poderia atingir a seus semelhantes e destruir-lhes a vida; mas esse braço seria tão impotente para desarreigar as montanhas de seu fundamento e precipitá-las no mar, como para mudar um preceito da lei de Jeová ou anular qualquer de Suas promessas aos que Lhe fazem a vontade. Na fidelidade para com a Sua lei, os servos de Deus deviam ser tão firmes como os outeiros imutáveis.
As montanhas que cingiam os fundos vales eram testemunhas constantes do poder criador de Deus e afirmação sempre infalível de Seu cuidado protector. Esses peregrinos aprenderam a amar os símbolos silenciosos da presença de Jeová. Não condescendiam com murmurações por causa das dificuldades da sorte; nunca se sentiam abandonados na solidão das montanhas. Agradeciam a Deus por haver-lhes provido refúgio da ira e crueldade dos homens. Regozijavam-se diante d´Ele na liberdade de prestar culto. Muitas vezes, quando perseguidos pelos inimigos, a fortaleza das montanhas se provara ser defesa segura. De muitos rochedos elevados entoavam eles louvores a Deus e os exércitos de Roma não podiam fazer silenciar seus cânticos de ações de graças.
Torre Pellice, aqui os cristãos alimentados
pela pura Palavra de Deus viviam, nas grutas. A fé
era fortalecida na persegução.

Pura, singela e fervorosa era a piedade desses seguidores de Cristo. Os princípios da verdade, avaliavam-nos eles acima de casas e terras, amigos, parentes e mesmo da própria vida. Semelhantes princípios ardorosamente procuravam eles gravar no coração dos jovens. Desde a mais tenra infância os jovens eram instruídos nas Escrituras, e ensinava-se-lhes a considerar santos os requisitos da lei de Deus. Sendo raros os exemplares das Escrituras Sagradas, eram suas preciosas palavras confiadas à memória. Muitos eram capazes de repetir longas porções tanto do Antigo como do Novo Testamento. Os pensamentos de Deus associavam-se ao sublime cenário da natureza e às humildes bênçãos da vida diária. Criancinhas aprendiam a olhar com gratidão a Deus como o Doador de toda mercê e conforto.
Os pais, ternos e afectuosos como eram, tão sabiamente amavam os filhos que não permitiam que se habituassem à condescendência própria. Esboçava-se diante deles uma vida de provações e dificuldades, talvez a morte de mártir. Eram ensinados desde a infância a suportar rudezas, a sujeitar-se ao domínio, e contudo a pensar e agir por si mesmos. Muito cedo eram ensinados a encarar responsabilidades, a serem precavidos no falar e a compreenderem a sabedoria do silêncio. Uma palavra indiscreta que deixassem cair no ouvido dos inimigos, poderia pôr em perigo não somente a vida do que falava, mas a de centenas de seus irmãos; pois, semelhantes a lobos à caça da presa, os inimigos da verdade perseguiam os que ousavam reclamar liberdade para a fé religiosa.
Os valdenses haviam sacrificado a prosperidade temporal por amor à verdade, e com paciência perseverante labutavam para ganhar o pão. Cada recanto de terra cultivável entre as montanhas era cuidadosamente aproveitado; fazia-se com que os vales e as encostas menos férteis das colinas também produzissem. A economia e a severa renúncia de si próprio formavam parte da educação que os filhos recebiam como seu único legado. Ensinava-se-lhes que Deus determinara fosse a vida uma disciplina e que suas necessidades poderiam ser supridas apenas mediante o trabalho pessoal, previdência, cuidado e fé. O processo era laborioso e fatigante, mas salutar, precisamente o de que o homem necessita em seu estado decaído - escola que Deus proveu para o seu ensino e desenvolvimento. Enquanto os jovens se habituavam ao trabalho e asperezas, a cultura do intelecto não era negligenciada. Ensinava-se-lhes que todas as suas capacidades pertenciam a Deus, e que deveriam todas ser aperfeiçoadas e desenvolvidas para o Seu serviço.
As igrejas valdenses, em sua pureza e simplicidade, assemelhavam-se à igreja dos tempos apostólicos. Rejeitando a supremacia do papa e prelados, mantinham a Escritura Sagrada como a única autoridade suprema, infalível. Seus pastores, diferentes dos altivos sacerdotes de Roma, seguiam o exemplo de seu Mestre que "veio não para ser servido, mas para servir". Alimentavam o rebanho de Deus, guiando-os às verdes pastagens e fontes vivas de Sua santa Palavra. Longe dos monumentos da pompa e orgulho humano, o povo congregava-se, não em igrejas sumptuosas ou grandes catedrais, mas à sombra das montanhas nos vales alpinos, ou, em tempo de perigo, em alguma fortaleza rochosa, a fim de escutar as palavras da verdade proferidas pelos servos de Cristo. Os pastores não somente pregavam o evangelho, mas visitavam os doentes, doutrinavam as crianças, admoestavam aos que erravam e trabalhavam para resolver as questões e promover harmonia e amor fraternal. Em tempos de paz eram sustentados por ofertas voluntárias do povo; mas, como Paulo, o fabricante de tendas, cada qual aprendia um ofício ou profissão, mediante a qual, sendo necessário, proveria o sustento próprio.
De seus pastores recebiam os jovens instrução. Conquanto se desse atenção aos ramos dos conhecimentos gerais, fazia-se da Escritura Sagrada o estudo principal. Os evangelhos de Mateus e João eram confiados à memória, juntamente com muitas das epístolas. Também se ocupavam em copiar as Escrituras. Alguns manuscritos continham a Bíblia toda, outros apenas breves porções, a que algumas simples explicações do texto eram acrescentadas por aqueles que eram capazes de comentar as Escrituras. Assim se apresentavam os tesouros da verdade durante tanto tempo ocultos pelos que procuravam exaltar-se acima de Deus.
Mediante pacientes e incansáveis labores, por vezes nas profundas e escuras cavernas da Terra, à luz de archotes, eram copiadas as Escrituras Sagradas, versículo por versículo, capítulo por capítulo. Assim a obra prosseguia, resplandecendo, qual ouro puro, a vontade revelada de Deus; e quanto mais brilhante, clara e poderosa era por causa das provações que passavam por seu amor, apenas o poderiam compreender os que se achavam empenhados em obra semelhante. Anjos celestiais circundavam os fiéis obreiros.
Satanás incitara sacerdotes e prelados a enterrarem a Palavra da verdade sob a escória do erro, heresia e superstição; mas de modo maravilhosíssimo foi ela conservada incontaminada através de todos os séculos de trevas. Não trazia o cunho do homem, mas a impressão divina. Os homens se têm demonstrado incansáveis em seus esforços para obscurecer o claro e simples sentido das Escrituras, e fazê-las contradizerem seu próprio testemunho; porém, semelhante à arca sobre as profundas águas encapeladas, a Palavra de Deus leva de vencida as borrascas que a ameaçam de destruição. Assim como tem a mina ricos veios de ouro e prata ocultos por sob a superfície, de maneira que todos os que desejam descobrir os preciosos depósitos devem cavar, assim as Sagradas Escrituras têm tesouros de verdade que são revelados unicamente ao ardoroso, humilde e devoto pesquisador. Deus destinara a Bíblia a ser um compêndio para toda a humanidade, na infância, juventude e idade madura, devendo ser estudada através de todos os tempos. Deu Sua Palavra aos homens como revelação de Si mesmo. Cada nova verdade que se divisa é uma nova revelação do caráter de seu Autor. O estudo das Escrituras é o meio divinamente ordenado para levar o homem a mais íntima comunhão com seu Criador e dar-lhe mais claro conhecimento de Sua vontade. É o meio de comunicação entre Deus e o homem.
Conquanto os valdenses considerassem o temor do Senhor como o princípio da sabedoria, não eram cegos no tocante à importância do contacto com o mundo, do conhecimento dos homens e da vida activa, para expandir o espírito e avivar as percepções. De suas escolas nas montanhas alguns dos jovens foram enviados a instituições de ensino nas cidades da França ou Itália, onde havia campo mais vasto para o estudo, pensamento e observação, do que nos Alpes nativos. Os jovens assim enviados estavam expostos à tentação, testemunhavam o vício, defrontavam-se com os astuciosos agentes de Satanás, que lhes queriam impor as mais subtis heresias e os mais perigosos enganos. Mas sua educação desde a meninice fora de molde a prepará-los para tudo isto.
Nas escolas aonde iam, não deveriam fazer confidentes a quem quer que fosse. Suas vestes eram preparadas de maneira a ocultar seu máximo tesouro - os preciosos manuscritos das Escrituras. A estes, fruto de meses e anos de labuta, levavam consigo e, sempre que o podiam fazer sem despertar suspeita, cautelosamente punham uma porção ao alcance daqueles cujo coração parecia aberto para receber a verdade. Desde os joelhos da mãe a juventude valdense havia sido educada com este propósito em vista; compreendiam o trabalho, e fielmente o executavam. Ganhavam-se conversos à verdadeira fé nessas instituições de ensino, e frequentemente se encontravam seus princípios a penetrar a escola toda; contudo os chefes papais não podiam pelo mais minucioso inquérito descobrir a fonte da chamada heresia corruptora.
O espírito de Cristo é espírito missionário. O primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador. Tal foi o espírito dos cristãos valdenses. Compreendiam que Deus exigia mais deles do que simplesmente preservar a verdade em sua pureza, nas suas próprias igrejas; e que sobre eles repousava a solene responsabilidade de deixarem sua luz resplandecer aos que se achavam em trevas. Pelo forte poder da Palavra de Deus procuravam romper o cativeiro que Roma havia imposto.
Os ministros valdenses eram educados como missionários, exigindo-se primeiramente de cada um que tivesse a expectativa de entrar para o ministério, aquisição de experiência como evangelista. Cada um deveria servir três anos em algum campo missionário antes de assumir o encargo de uma igreja em seu país. Este serviço, exigindo logo de começo renúncia e sacrifício, era introdução apropriada à vida pastoral naqueles tempos que punham à prova a alma. Os jovens que recebiam a ordenação para o sagrado mister, viam diante de si, não a perspectiva de riquezas e glória terrestre, mas uma vida de trabalhos e perigo, e possivelmente o destino de mártir. Os missionários iam de dois em dois, como Jesus enviara Seus discípulos. Cada jovem tinha usualmente por companhia um homem de idade e experiência, achando-se aquele sob a orientação do companheiro, que ficava responsável por seu ensino, e a cuja instrução se esperava que seguisse. Estes coobreiros não estavam sempre juntos, mas muitas vezes se reuniam para orar e aconselhar-se, fortalecendo-se assim mutuamente na fé.
Tornar conhecido o objectivo de sua missão seria assegurar a derrota; ocultavam, portanto, cautelosamente seu verdadeiro caráter. Cada ministro possuía conhecimento de algum ofício ou profissão e os missionários prosseguiam na obra sob a aparência de vocação secular. Usualmente escolhiam a de mercador ou vendedor ambulante. "Levavam sedas, jóias e outros artigos, que naquele tempo não se compravam facilmente, a não ser em mercados distantes; e eram bem recebidos como negociantes onde teriam sido repelidos como missionários." - Wylie. Em todo o tempo seu coração se levantava a Deus rogando sabedoria a fim de apresentar um tesouro mais precioso do que o ouro ou jóias. Levavam secretamente consigo exemplares da Escritura Sagrada, no todo ou em parte; quando quer que se apresentasse oportunidade, chamavam a atenção dos fregueses para os manuscritos. Muitas vezes assim se despertava o interesse de ler a Palavra de Deus, e alguma porção era de bom grado deixada com os que a desejavam receber.
A obra destes missionários começava nas planícies e vales ao pé de suas próprias montanhas, mas estendia-se muito além destes limites. Descalços e com vestes singelas e poentas da jornada como eram as de seu Mestre, passavam por grande cidades e penetravam em longínquas terras. Por toda parte espalhavam a preciosa verdade. Surgiam igrejas em seu caminho e o sangue dos mártires testemunhava da verdade. O dia de Deus revelará rica colheita de almas enceleiradas pelos labores destes homens fiéis. Velada e silenciosa, a Palavra de Deus rompia caminho através da cristandade e tinha alegre acolhida nos lares e corações.
Para os valdenses não eram as Escrituras simplesmente o registo do trato de Deus para com os homens no passado e a revelação das responsabilidades e deveres do presente, mas o desvendar dos perigos e glórias do futuro. Acreditavam que o fim de todas as coisas não estava muito distante; e, estudando a Bíblia com oração e lágrimas, mais profundamente se impressionavam com suas preciosas declarações e com o dever de tornar conhecidas a outros as suas verdades salvadoras. Viam o plano da salvação claramente revelado nas páginas sagradas e encontravam conforto, esperança e paz crendo em Jesus. Ao iluminar-lhes a luz o entendimento e ao alegrar-lhes ela o coração, anelavam derramar seus raios sobre os que se achavam nas trevas do erro papal.
Viam que sob a direção do papa e sacerdotes, multidões em vão se esforçavam por obter perdão afligindo o corpo por causa do pecado da alma. Ensinados a confiar nas boas obras para se salvarem, estavam sempre a olhar para si mesmos, ocupando a mente com a sua condição pecaminosa, vendo-se expostos à ira de Deus, afligindo alma e corpo, não achando, contudo, alívio. Almas conscienciosas eram, assim, enredadas pelas doutrinas de Roma. Milhares abandonavam amigos e parentes, passando a vida nas celas dos conventos. Por meio de frequentes jejuns e cruéis açoitamentos, por vigílias à meia-noite, prostrando-se durante horas cansativas sobre as lajes frias e húmidas de sua sombria habitação, por longas peregrinações, penitências humilhantes e terrível tortura, milhares procuravam inutilmente obter paz de consciência. Oprimidos por uma intuição de pecado e perseguidos pelo temor da ira vingadora de Deus, muitos continuavam a sofrer até que a natureza exausta se rendia e, sem um resquício de luz ou esperança, baixavam à sepultura.
Os valdenses ansiavam por partir a estas almas famintas o pão da vida, revelar-lhes as mensagens de paz das promessas de Deus e apontar-lhes a Cristo como a única esperança de salvação. Tinham por falsa a doutrina de que as boas obras podem expiar a transgressão da lei de Deus. A confiança nos méritos humanos faz perder de vista o amor infinito de Cristo. Jesus morreu como sacrifício pelo homem porque a raça caída nada pode fazer para se recomendar a Deus. Os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido são o fundamento da fé cristã. A dependência da alma para com Cristo é tão real, e sua união com Ele deve ser tão íntima como a do membro para com o corpo, ou da vara para com a videira.
Os ensinos dos papas e sacerdotes haviam levado os homens a considerar o caráter de Deus, e mesmo o de Cristo, como severo, sombrio e repelente. Representava-se o Salvador tão destituído de simpatia para com o homem em seu estado decaído, que devia ser invocada a mediação de sacerdotes e santos. Aqueles cuja mente fora iluminada pela Palavra de Deus, anelavam guiar estas almas a Jesus, como seu compassivo e amante Salvador que permanece de braços estendidos a convidar todos a irem a Ele com seu fardo de pecados, seus cuidados e fadigas. Almejavam remover os obstáculos que Satanás havia acumulado para que os homens não pudessem ver as promessas, e ir diretamente a Deus, confessando os pecados e obtendo perdão e paz.
Ardorosamente desvendava o missionário valdense as preciosas verdades do evangelho ao espírito inquiridor. Citava com precaução as porções cuidadosamente copiadas da Sagrada Escritura. Era a sua máxima alegria infundir esperança à alma conscienciosa, ferida pelo pecado, e que tão-somente podia ver um Deus de vingança, esperando para executar justiça. Com lábios trémulos e olhos lacrimosos, muitas vezes com os joelhos curvados, expunha a seus irmãos as preciosas promessas que revelam a única esperança do pecador. Assim a luz da verdade penetrava muitas almas obscurecidas, fazendo recuar a nuvem sombria até que o Sol da Justiça resplandecesse no coração, trazendo saúde em seus raios. Dava-se amiúde o caso de alguma porção das Escrituras ser lida várias vezes, desejando o ouvinte que fosse repetida, como se quisesse assegurar-se de que tinha ouvido bem. Em especial se desejava, de maneira ávida, a repetição destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado." I João 1:7. "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:14 e 15.
Muitos não se iludiam em relação às pretensões de Roma. Viam quão vã é a mediação de homens ou anjos em favor do pecador. Raiando-lhes na mente a verdadeira luz, exclamavam com regozijo: "Cristo é meu Sacerdote; Seu sangue é meu sacrifício; Seu altar é meu confessionário." Confiavam-se inteiramente aos méritos de Jesus, repetindo as palavras: "Sem fé é impossível agradar-Lhe." Heb. 11:6. "Nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12.
A certeza do amor de um Salvador parecia, a algumas destas pobres almas agitadas pela tempestade, coisa por demais vasta para ser abrangida. Tão grande era o alívio que sentiam, tal a inundação de luz que lhes sobrevinha, que pareciam transportadas ao Céu. Punham confiantemente suas mãos na de Cristo; firmavam os pés sobre a Rocha dos séculos. Bania-se todo o temor da morte. Podiam agora ambicionar a prisão e a fogueira se desse modo honrassem o nome de seu Redentor.
Em lugares ocultos era a Palavra de Deus apresentada e lida, algumas vezes a uma única alma, outras, a um pequeno grupo que anelava a luz e a verdade. Amiúde a noite toda era passada desta maneira. Tão grande era o assombro e admiração dos ouvintes que o mensageiro da misericórdia frequentemente se via obrigado a cessar a leitura até que o entendimento pudesse apreender as boas novas da salvação. Era comum proferirem-se palavras como estas: "Aceitará Deus em verdade a minha oferta? Olhar-me-á benignamente? Perdoar-me-á Ele?" Lia-se a resposta: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mat. 11:28.
A fé se apegava à promessa, ouvia-se a alegre resposta: "Nada mais de longas peregrinações; nada de penosas jornadas aos relicários sagrados. Posso ir a Jesus tal como estou, pecador e ímpio, e Ele não desprezará a oração de arrependimento. 'Perdoados te são os teus pecados.' Os meus pecados, efectivamente os meus, podem ser perdoados!"
Enchia o coração uma onda de sagrada alegria, e o nome de Jesus era engrandecido em louvores e acções de graças. Estas almas felizes voltavam para casa a fim de difundir a luz, repetir a outros, tão bem quanto podiam, a nova experiência, de que acharam o Caminho verdadeiro e vivo. Havia um estranho e solene poder nas palavras das Escrituras, que falava directamente ao coração dos que se achavam anelantes pela verdade. Era a voz de Deus e levava a convicção aos que ouviam.
O mensageiro da verdade continuava o seu caminho; mas seu aspecto de humildade, sua sinceridade, ardor e profundo fervor, eram assuntos de observação frequente. Em muitos casos os ouvintes não lhe perguntavam donde viera ou para onde ia. Ficavam tão dominados, a princípio pela surpresa e depois pela gratidão e alegria, que não pensavam em interrogá-lo. Quando insistiam com ele para os acompanhar a suas casas, respondia-lhes que devia visitar as ovelhas perdidas do rebanho. Não seria ele um anjo do Céu? Indagavam.
Em muitos casos não mais se via o mensageiro da verdade. Seguira para outros países, ou a vida se lhe consumia em algum calabouço desconhecido, ou talvez seus ossos estivessem alvejando no local em que testificara da verdade. Mas as palavras que deixara após si, não poderiam ser destruídas. Estavam a fazer sua obra no coração dos homens; os benditos resultados só no dia do juízo se revelarão plenamente.
Os missionários valdenses estavam invadindo o reino de Satanás, e os poderes das trevas despertaram para maior vigilância. Todo esforço para avanço da verdade era observado pelo príncipe do mal, e ele excitava os temores de seus agentes. Os chefes papais viram grande perigo para a sua causa no trabalho destes humildes itinerantes. Se fosse permitido à luz da verdade resplandecer sem impedimento, varreria as pesadas nuvens de erro que envolviam o povo; haveria de dirigir o espírito dos homens a Deus unicamente, talvez destruindo, afinal, a supremacia de Roma.
A própria existência deste povo, mantendo a fé da antiga igreja, era testemunho constante da apostasia de Roma, e portanto excitava o ódio e perseguição mais atrozes. Sua recusa de renunciar às Escrituras era também ofensa que Roma não podia tolerar. Decidiu-se ela a exterminá-los da Terra. Começaram então as mais terríveis cruzadas contra o povo de Deus em seus lares montesinos. Puseram-se inquisidores em suas pegadas, e a cena do inocente Abel tombando ante o assassino Caim repetia-se frequentemente.
Reiteradas vezes foram devastadas as suas férteis terras, destruídas as habitações e capelas, de maneira que onde houvera campos florescentes e lares de um povo simples e laborioso, restava apenas um deserto. Assim como o animal de rapina se torna mais feroz provando sangue, a ira dos sectários do papa acendia-se com maior intensidade com o sofrimento de suas vítimas. Muitas destas testemunhas da fé pura foram perseguidas através das montanhas e caçadas nos vales em que se achavam escondidas, encerradas por enormes florestas e cumes rochosos.
Nenhuma acusação se poderia fazer contra o carácter moral da classe proscrita. Mesmo seus inimigos declaravam serem eles um povo pacífico, sossegado e piedoso. Seu grande crime era não quererem adorar a Deus segundo a vontade do papa.
Por tal crime, toda humilhação, insulto e tortura que homens ou diabos podiam inventar, amontoaram-se sobre eles.
Determinando-se Roma a exterminar a odiada seita, uma bula foi promulgada pelo papa, condenando-os como hereges e entregando-os ao morticínio. Não eram acusados como ociosos, desonestos ou desordeiros; mas declarava-se que tinham uma aparência de piedade e santidade que seduzia "as ovelhas do verdadeiro aprisco". Portanto ordenava o papa que "aquela maligna e abominável seita de perversos", caso se recusasse a renunciar, "fosse esmagada como serpentes venenosas". - Wylie. Esperava o altivo potentado ter de responder por estas palavras? Sabia que estavam registradas nos livros do Céu, para lhe serem apresentadas no juízo? "Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos", disse Jesus, "a Mim o fizestes." Mat. 25:40.
Essa bula convocava a todos os membros da igreja para se unirem à cruzada contra os hereges. Como incentivo para se empenharem na obra cruel, "absolvia de todas as penas e castigos eclesiásticos, gerais e particulares; desobrigava a todos os que se unissem à cruzada, de qualquer juramento que pudessem ter feito; legitimava-lhes o direito a qualquer propriedade que pudessem ter ilegalmente adquirido; e prometia remissão de todos os pecados aos que matassem algum herege. Anulava todos os contratos feitos em favor dos valdenses, ordenava que seus criados os abandonassem, proibia a toda pessoa dar-lhes qualquer auxílio que fosse e a todos permitia tomar posse de sua propriedade". - Wylie. Este documento revela claramente o espírito que o ditou. É o bramido do dragão, e não a voz de Cristo, que nele se ouve.
Os dirigentes papais não queriam conformar seu caráter com a grande norma da lei de Deus, mas erigiram uma norma que lhes fosse conveniente, e decidiram obrigar todos a se conformarem com a mesma porque Roma assim o desejava. As mais horríveis tragédias foram encenadas. Sacerdotes e papas corruptos e blasfemos estavam a fazer a obra que Satanás lhes designava. A misericórdia não encontrava guarida em sua natureza. O mesmo espírito que crucificou Cristo e matou os apóstolos, o mesmo que impulsionou o sanguinário Nero contra os fiéis de seu tempo, estava em operação a fim de exterminar da Terra os que eram amados de Deus.
As perseguições desencadeadas durante muitos séculos sobre este povo temente a Deus, foram por ele suportadas com uma paciência e constância que honravam seu Redentor. Apesar das cruzadas contra eles e da desumana carnificina a que foram sujeitos, continuavam a mandar seus missionários a espalhar a preciosa verdade. Eram perseguidos até à morte; contudo, seu sangue regava a semente lançada, e esta não deixou de produzir fruto. Assim os valdenses testemunharam de Deus, séculos antes do nascimento de Lutero. Dispersos em muitos países, plantaram a semente da Reforma que se iniciou no tempo de Wycliffe, cresceu larga e profundamente nos dias de Lutero, e deve ser levada avante até ao final do tempo por aqueles que também estão dispostos a sofrer todas as coisas pela "Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo". Apoc. 1:9.

MENSAGEM PARA O TEMPO DO FIM

Para cada período da História, Deus tem uma mensagem específica. Essa mensagem é denominada “verdade presente” Exemplo disso é a pregação de Noé, que conclamou o mundo antediluviano ao arrependimento e anunciou a destruição por meio do dilúvio (Gn 6 e 7).
No Novo Testamento, encontramos outro exemplo em que a mensagem presente consistia em aceitar Jesus de Nazaré como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Embora essa pregação cristocêntrica permeie a Bíblia em todos os tempos, naquela época, os apóstolos tinham o desafio de levar as pessoas a aceitar o Carpinteiro judeu como o prometido Messias do Antigo Testamento (At 2:22-36; 4:11,12; 5:30,31).
Avançando na História, encontramos no século dezesseis o movimento da Reforma Protestante com a mensagem de que a Bíblia é a única regra de fé (Sola Scriptura) e de que a fé nos méritos de Cristo é o único meio pelo qual alguém pode ser aceito e salvo por Deus (Sola Fide). Tais aspectos da mensagem eram apropriados ao contexto em que os reformadores viviam, pois o papado havia exaltado a tradição em lugar do ‘Assim diz o Senhor” e a salvação pelas obras em lugar da justiça de Cristo.
Tempo do fim.
Qual é a mensagem de Deus para nosso tempo? Para entendermos isso, precisamos identificar o período da História em que vivemos. No capítulo 12 do livro de Daniel, Deus revela ao profeta que o entendimento do seu livro só ocorreria no “tempo do fim” (v. 9). Esse tempo chegaria após o período profetizado “de um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (v. 7), o que equivale a 1260 anos (538 d.C – 1798 d.C), nos quais o Romanismo mudaria o Decálogo, perseguiria os fiéis de Deus e lançaria a verdade por terra (Dn 7:25; 8:12; Ap 12:6,13,14; 13:5,6).
Portanto, em 1798, começou o ”tempo do fim” um período singular em que as principais profecias de Daniel se cumpririam (Dn 8:14; 12:11, 12), haveria um crescente avanço do conhecimento profético e também científico (Dn 12:4) e a História registraria importantes sinais preditos nos evangelhos e no livro do Apocalipse (Mt 24:29; Mc 13:24,25; Lc 21:11,25; Ap 6:12-14). (2)
Para esse tempo, Deus tem uma advertência de especial importância para os habitantes da Terra. É o último aviso de misericórdia a este mundo mergulhado nas trevas do pecado. Encontramos essa mensagem em Apocalipse 14:6-12 – a tríplice mensagem angélica. Essa tríplice mensagem antecede a cena da segunda vinda de Cristo – o Cavaleiro que vem para ceifar a seara da Terra (versos 14-16). Portanto, é uma advertência que deve ser comunicada no tempo do fim, uma solene mensagem que visa a preparar um povo para o encontro com o Rei que Se aproxima. O verso 13, que está entre a tríplice mensagem e os textos da Segunda Vinda, pronuncia uma bênção sobre aqueles que morrem no período em que essas mensagens são pregadas e crêem nelas: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”(3)
A pessoa de Cristo e Sua obra salvadora constituem o tema catalisador dessa tríplice mensagem. Nela, o ”evangelho eterno” as boas novas da justiça e da salvação em Cristo são o tema central e predominante, como demonstrado na introdução da passagem (v. 6).(4)
O primeiro anjo proclama o juízo de Deus (v. 7), o qual começou sua primeira fase em 22 de outubro de 1844. Nessa data, terminou o grande período profético dos 2300 anos de Daniel 8:14, e começou a purificação do santuário celestial, a qual corresponde ao mesmo julgamento visto pelo profeta no (capítulo 7:9-10) (5).
Nessa nova fase de Seu ministério, Cristo não só intercede pela humanidade, como já vinha fazendo, mas atua no juízo em defesa de Seu povo, que está sendo julgado conforme os registros celestiais (Dn 7:10). Para essa fase do julgamento, usam-se os termos juízo pré-advento ou juízo investigativo, pois ocorre no 
período que antecede a segunda vinda de Cristo e no qual os filhos de Deus são julgados/examinados pelo padrão da lei divina que deve ser obedecida como fruto da fé em Cristo.(6) Diante da iminência do julgamento, o anjo conclama a humanidade a temer a Deus, glorificá-Lo e adorá-Lo.
O segundo anjo anuncia a queda de Babilônia (v. 8), o falso sistema religioso dos últimos dias. A queda é conseqüência de o sistema estar fundamentado no erro, por ter rejeitado a verdade bíblica e defender doutrinas espúrias, como: imortalidade da alma, santidade do domingo, salvação pelas obras, etc. Quem não aceitar as palavras de Cristo e não as praticar, experimentará a ruína (Mt 7:26, 27), e quem “ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (2 Jo 9). Assim, a mensagem do segundo anjo é um convite para que saiam de Babilônia todos os que foram enganados por suas falsas doutrinas (Ap 18:1-5) e aceitem a verdade conforme revelada em Cristo.
O terceiro anjo acompanha as outras mensagens com uma advertência contra a adoração à besta e ao recebimento da sua marca (Ap 14:9-11). Essa mensagem demonstra que o conflito final girará em torno da lealdade a Deus por meio da guarda dos Seus mandamentos ou à obediência a preceitos humanos. (7) Uma corporação de Igreja/Estado, nos últimos dias (Ap 13:11, 12), obrigará a humanidade a observar como dia de guarda um falso dia de adoração (Ap 13:16,17) em lugar do dia estipulado por Deus em Sua lei (Êx 20:8-11). Os que aceitarem esse falso dia serão atingidos pelas sete últimas pragas que serão derramadas “sem mistura” de misericórdia (Ap 14:9, 10; 15:1; 16). Em contraste, haverá o grupo daqueles que permanecerão fiéis a Deus mesmo diante das mais terríveis ameaças e que foram classificados como santos por guardarem “os mandamentos de Deus” como fruto de sua “fé em Jesus” (Ap 14:12).
Mensagem específica.
Justamente nesse tempo, o tempo do fim, no qual a tríplice mensagem deve ser proclamada, Deus suscita um povo para cumprir essa solene missão. Esse povo é identificado como aqueles “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Essa última característica – “o testemunho de Jesus” – é definida como a manifesta-ção do dom de profecia (Ap 19:10). A Igreja Adventista do Sétimo Dia se enquadra nessa classificação, pois surge no período do tempo do fim (1844) como resultado dos estudos e do cumprimento das profecias de Daniel e Apocalipse, exaltando a obediência à Lei de Deus, especificamente a validade do sábado, e testemunhando, em seu meio, a manifestação do verdadeiro dom de profecia na pessoa de Eilen G. White.
Desse modo, há um povo que prega uma mensagem específica no tempo determinado pela profecia. Esse povo foi levantado para restaurar as verdades que foram lançadas por terra durante o período de supremacia papal, reparar as “brechas” feitas na lei de Deus, edificando, assim, “as antigas ruínas” (Is 58:12). Nossa responsabilidade é levar ao mundo uma mensagem singular, preparando “a seara da Terra” para a vinda do Filho do homem. “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. [..,] Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção. As mais solenes verdades já confiadas a mortais nos foram dadas, para as proclamarmos ao mundo. A proclamação dessas verdades deve ser nossa obra. O mundo precisa ser advertido, e o povo de Deus deve ser fiel ao legado que se lhe confiou”(9) Tal responsabilidade deve incutir em nós um senso de missão jamais visto em outro povo. Precisamos nos unir e concentrar as nossas forças nessa direção
Mas não podemos nos esquecer de que só cumpriremos essa missão com a ajuda do Espírito Santo. Em Apocalipse 18:1, a Terra é vista sendo iluminada pela glória celestial, e essa glória é a manifestação poderosa do Espírito Santo no tempo do fim, derramando Seu poder sobre a igreja como “chuva serôdia!(10) Esse poder capacitará a igreja para dar, “com potente voz” (verso 2), o último convite ao mundo, antes do fechamento da porta da graça (versos 2-5). Os adventistas do sétimo dia precisam ter como prioridade a busca desse poder a fim de continuar pregando “aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (verso 6) o evangelho eterno, no contexto da tríplice mensagem angélica. Cada pessoa que conheceu a verdade para o tempo presente e se une às fileiras do adventismo, é chamada a proclamar “as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9). Portanto, cumpramos nossa missão!
Referências1. MervinC Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 129,130.
2. Ibid.,p.318,319.
3. Alberto R. Timm, 0 Santuário e as três mensagens angélicas: fatores íntegrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002) p. 232.
4. Lição da Escola Sabatina, “O Último Convite: a mensagem dos três anjos”, outubro-dezembro,1994, p 17.
5. Clifford Goldstein, 1844: Uma explicacâo simples das principais profecias de Daniel – Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), p. 45-48.
6. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 482.
7. Ellen G. White, Eventos Finais, p. 193.
8. Maxwell, 0p.Cit.,p. 422,423.
9. Ellen G. White, Evangelismo, p. 119,120.
10. Ellen G. White, O Grande Conflito pág 611, 612.
Texto de autoria de Ezinaldo Ubirajara Pereira, capelão do Hospital Adventista de Belém, Pará, publicado na Revista Adventista de Agosto/2008.

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